“O maior ativo de Cabo Verde é o capital humano”, diz docente e consultor especialista em Sustentabilidade

Pedro Neves destaca em entrevista o progresso de Cabo Verde na implementação dos ODS, a importância da colaboração entre os setores público e privado, além dos desafios da comunicação e a necessidade de envolver a população jovem no processo.

De visita ao país no âmbito de uma formação sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o professor universitário e pesquisador, focado em desenvolvimento sustentável, Pedro Neves, conversou com o Balai sobre “o tão almejado futuro sustentável” e garantiu que “Cabo Verde está muito à frente na implementação dos ODS a nível de política pública”, mas salientou a importância da colaboração entre os setores público e privado e lembrou dos desafios da comunicação dos ODS e da necessidade de envolver a população jovem neste processo.

O formador que tem colaborado ativamente com instituições a nível internacional, destacou a importância de Cabo Verde no cenário africano e mundial, e a necessidade de se questionar, quando se aborda os ODS, “Qual é o futuro que nós queremos?” de forma a impulsionar a compreensão e a ação em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Outro ponto salientado pelo professor é o facto do setor privado cabo-verdiano estar a reconhecer a importância dos ODS e do Environmental Social Governance (ESG) para o desenvolvimento sustentável. “A identificação da necessidade de compreender e implementar os ODS já vem do setor privado, o que é um sinal positivo de que as políticas públicas estão a ser reconhecidas como impactantes pelo mesmo”, afirmou. 

E precisamente no que diz respeito às políticas públicas,  no entender do especialista, “Cabo Verde está muito à frente na implementação dos ODS, a nível de política pública”. 

“Em 2015, quando os ODS foram aprovados por unanimidade nas Nações Unidas, ficou definido que tinha que ser uma agenda que fosse um plano de ação. E para se confirmar que este plano de ação seria implementado, ficou acordado que teria que haver relatórios voluntários nacionais produzidos por cada país. Cabo Verde já produziu dois VNR (Voluntary National Reviews) relatórios voluntários nacionais. O que é particular no caso de Cabo Verde é que o primeiro relatório deu origem ao Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável, o PEDS, e o segundo VNR de 2021 deu origem ao PEDS II e o que é muito significativo é que o PEDS II é o programa de governo. Ou seja, não existe um programa de governo e depois um relatório para as Nações Unidas. É o mesmo. Cabo Verde, do ponto de vista político, tem a visão e tem a estratégia.”

Durante a formação de três dias, que foi promovida em Cabo Verde pela empresa de consultoria B-TOC, os 21 formandos de cinco instituições nacionais tiveram oportunidade de entender melhor os ODS, planear e depois começar a pensar na implementação de projetos assentes em quatro pilares com impacto para o desenvolvimento sustentável a nível local: ambiente, economia, sociedade e soberania.

Entre os projetos desenvolvidos, explica Pedro Neves, houve um projeto de energias renováveis, focado na perspetiva de “criar emprego local para fazer a sua implementação”; também um projeto ligado à habitação ‘Casas efetivamente para todos’ focado na compreensão e simplificação do processo administrativo no programa de habitação inclusiva; uma iniciativa que visa melhorar a mobilidade interilhas  com foco na ‘extrapolação através de benchmarking de outros modelos em busca de soluções para garantir a sustentabilidade também financeira do projeto’; e depois um quarto projeto de soberania, que o formador classifica como o mais desafiante (…)  onde surgiu a ideia de uma Aliança Nacional para a Implementação dos ODS em Cabo Verde, focado em integrar na arquitetura do PEDS II o setor privado.

O especialista em desenvolvimento sustentável esclareceu que estes projetos são conceitos que agora “precisam ser testados e desenvolvidos e só depois, efetivamente ser implementados” e enfatizou uma vez mais a importância de promover a cooperação entre o setor público e privado neste quesito.

Pedro Neves destacou que entre os diferentes setores representados, desde a academia até à indústria financeira, cada um está em diferentes estágios de implementação do ESG, o Environmental Social Government. ” (…) do lado da indústria financeira, já está toda a gente a praticar o ESG, nomeadamente, porque quando tem que reportar ao nível do Banco Central Europeu, não há hipótese de reportar sem estar alinhada com o ESG. A nível, por exemplo, da academia, (…) há uma vontade muito grande de compreender, mas ainda não há um plano de integração, não existem as disciplinas nem os cursos”, observou o docente que aliás salienta que esta é uma realidade global. “A indústria financeira está à frente, a seguir a academia que está a aprender e na indústria de produtos de bens de consumo, a perspetiva é “Vamos lá ver o que é que é isto” (…) Hoje as palavras-chave por trás dos ODS diria que são implementação e impacto.”

“A perspetiva é que neste momento não é ter o público a trabalhar contra o privado, é haver um ecossistema do setor privado que possa cooperar, com a arquitetura já definida pela administração central e que envolva pontos importantes: as autarquias, a sociedade civil, a academia para, em conjunto, todos poderem efetivamente contribuir”, salientou.

Sensibilizar e comunicar os ODS

Entre os principais obstáculos para acelerar a implementação dos ODS em Cabo Verde, Pedro Neves identificou a comunicação e salientou que muitas pessoas “ainda não leram o PEDS II, mesmo sendo um documento essencial”, por isso destacou a necessidade de simplificar e divulgar melhor este documento para que todos possam entender e colaborar.

“Uma colega que estava na formação disse o seguinte: Quando comecei a ler o PEDS II nem pensei qual era o partido que estava por trás do plano, o que pensei foi: Isto é para Cabo Verde. Ou seja, nós estamos a falar de política pública apartidária”, exemplificou.

Outro aspeto referido pelo professor é o facto dos vários setores, mesmo dentro do setor privado, não estarem todos à mesma velocidade e por isso enfatizou novamente a importância da cooperação para obter “perspetivas e uma estruturação de soluções diferentes”. 

A importância de envolver a população jovem na discussão sobre os ODS também foi mencionada por Pedro Neves que elogiou iniciativas como as da pró-reitora da Uni-CV, Fátima Fernandes, que utiliza a leitura para ensinar as crianças sobre os ODS. 

“As crianças compreendem muito facilmente que nós temos que ser solidários, ser amigos do ambiente, ganhar dinheiro e ser autónomos. No fundo, temos que simplificar a linguagem para comunicar com todos e depois permitir que todos tragam as coisas para cima da mesa e nessa perspetiva que as crianças podem ser veículos de comunicação para os pais.” 

Entre os objetivos onde Cabo Verde precisa dar mais atenção, Pedro Neves cita os ODS 1, 4 e 8, destacando a importância de se apostar no combate à pobreza e na criação de emprego. “Há uma consciencialização da importância da pobreza e como é que nós efetivamente vamos trabalhar para combater a mesma,” diz.

Apesar de reconhecer a qualidade do ensino no país, o professor universitário enfatiza a necessidade de se criar uma ponte entre o ensino e a economia, tendo em conta que a economia local não está a absorver os formados.  

“Temos uma educação de qualidade em Cabo Verde, isto é reconhecido a nível global, mas depois, e atenção, em Portugal está a acontecer exatamente a mesma coisa, a economia não está a conseguir absorver as pessoas que estão formadas. E dentro dessa perspetiva no fundo estamos a formar para exportar, numa perspetiva de diáspora, efetivamente acho que essa é uma questão.”

Paralelamente, Pedro Neves fala na gestão dos resíduos, com a perspetiva de que os “resíduos que podem ser um recurso e ser utilizados como matéria-prima para a produção de outro tipo de satisfação”.

“A questão da água nas três componentes, seja na ótica do objetivo 6 de água e saneamento, seja na ótica do 14, onde está a questão dos oceanos, mas depois do 15, que eu acho que ainda é uma questão que falta integrar, ou seja, fazermos aqui a junção de como é que vamos fazer a questão das ribeiras nomeadamente na altura da chuva”, afirma e acrescenta que a questão da habitação também merece atenção.

“(…) os ODS são roteiros que nos obrigam a levantar várias perguntas. A grande questão não é identificar apenas o problema, mas é desafiar as pessoas a serem pro-ativas na procura da solução.”

No que diz respeito às boas práticas, Pedro Neves elogia Cabo Verde pela democracia e liberdade de expressão, nomeadamente na forma como as pessoas comunicam e colaboram. “O maior ativo, sem dúvida nenhuma,  é o capital humano. (…) não apenas o capital humano na ótica do conhecimento, mas na ótica do relacionamento e em Cabo Verde respira-se a empatia. Isto é um ativo enorme.”.

Paralelamente, Pedro Neves salienta o facto de que África precisa de ser um bom exemplo para si mesma, especialmente em termos de gestão demográfica e desenvolvimento do capital humano. O especialista ressalta que Cabo Verde tem um “ativo demográfico” que é a população jovem, mas destaca que ainda existe o desafio de proporcionar a formação necessária para que esses jovens contribuam efetivamente para a economia. “Temos que criar condições para que o capital humano seja a solução e não o problema de África,” afirma.

 

Ainda nesta linha, Pedro Neves acredita que Cabo Verde é um exemplo que deve ser seguido por outros países, especialmente em termos de colaboração e desenvolvimento humano, e que está bem posicionado para se tornar um exemplo de desenvolvimento sustentável em África.

Cabo Verde em 2030 e a visão para os ODS

Questionado sobre a possibilidade de Cabo Verde alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, Neves adota uma visão otimista. Por um lado, reconhece que, quantitativamente, pode não ser possível atingir todos os objetivos devido a desafios globais como a pandemia da covid-19 e a guerra na Ucrânia. Embora os indicadores quantitativos possam não ser alcançados, a verdadeira mudança está na dimensão humana que os ODS trouxeram, algo inimaginável em 2012 quando foram criados no Brasil, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável no Rio de Janeiro, argumenta.

“Nós tínhamos um modelo de desenvolvimento centrado na economia e hoje temos um modelo de desenvolvimento centrado nas pessoas. E, no planeta, passamos de um modelo de desenvolvimento uni-dimensional para um modelo de desenvolvimento tridimensional, onde a primeira dimensão são as pessoas. Nessa perspetiva, os ODS já foram muito mais longe do que aquilo que alguma vez se poderia imaginar”.

“Nós conseguimos falar de ODS aqui (em Cabo Verde), falar no Brasil, no Japão e estamos todos a falar a mesma linguagem,” diz e destaca a importância da máxima de não deixar ninguém para trás. 

O consultor finaliza ao dizer que esta abordagem inclusiva é quase que contrária à lei natural do mais forte. “Hoje estamos todos a lutar para não deixar ninguém para trás, isto é completamente antinatural. Na natureza é a lei do mais forte. O que nós hoje estamos a dizer é que não, os mais fracos também têm direito a viver. Isto acontece não só com as pessoas, mas com as nações e acontece com as cidades. Hoje temos de ter a certeza de que todas as pessoas, independentemente do totoloto geográfico, têm direito a viver e têm direito a ter dignidade. Isto é maravilhoso.”

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