Movimento Federalista Pan-Africano aposta na nova geração para fortalecer consciência sobre identidade africana 

O Movimento Federalista Pan-Africano (MFPA) tem-se destacando em Cabo Verde desde 2016. Este mês, o MFPA realizou uma série de eventos, especialmente para as novas gerações, que tiveram o ponto alto com a II Grande Marcha pela África, realizada hoje, 25 de maio, na cidade da Praia, em comemoração ao Dia de África.

Entre os objetivos do Movimento Federalista Pan-Africano (MFPA) está levar à nova geração mais conhecimento sobre a história de África e de Cabo Verde, tendo as atividades deste ano como lema Educação e Cultura, duas ideias que Amílcar Cabral sempre defendeu durante a Luta de Libertação Nacional, segundo explica a vice-coordenadora Romira Rocha em entrevista ao Balai.

Neste sentido, nas semanas que antecederam a marcha, o MFPA, em parceria com a Fundação Amílcar Cabral, realizou uma série de palestras nas escolas secundárias, onde foram abordados temas como a unidade africana, a participação das mulheres na luta pela liberdade, e a importância da educação na emancipação dos povos africanos.

A primeira roda de conversa teve lugar a 2 de maio na Escola Fulgêncio Tavares, com o tema “Unidade Africana: Que Caminhos?”, e foi apresentada pelo engenheiro Jorge Brito. Essas palestras ocorreram em várias instituições de ensino na ilha de Santiago.

Ontem, dia 24 de maio, a Universidade de Cabo Verde (UNICV) recebeu a conferência “A Questão da Unidade Africana num Mundo em Transformação” onde o diplomata António Lima era orador num debate relacionado com a luta intergeracional e perspectivas futuras.

O MFPA também estendeu suas atividades a Lisboa, promovendo um evento que reuniu não só a comunidade cabo-verdiana mas a diáspora africana, no geral.

A última roda de conversa está prevista para o dia 30 no Liceu Cesaltina Ramos, proferida pelo antigo ministro da Educação Vitor Borges, também sobre “Unidade Africana. Que caminhos?”

Amanhã, dia 26 de maio, acontece um seminário online intitulado “Cabral e a Questão do Suicídio de Classe: Reflexões sobre o Papel das Elites Nacionais na África Contemporânea”.

Hoje, a cidade da Praia foi palco da Grandi Marxa pa África, uma comemoração que já vinha acontecendo de forma informal mas que desde 2023 teve a sua primeira edição oficial.

Romira Rocha destaca a aproximação da comunidade africana residente em Cabo Verde, algo que já aconteceu a 20 de janeiro, por ocasião do Dia dos Heróis Nacionais.

A marcha teve início às 9h30 na Praça Alexandre Albuquerque, na Praia, e contou com a animação do Bloco Afro Abel Djassi, enquanto diversos grupos culturais de Batucadeiras e de Tabanka, mas também associações, incluindo representações de comunidades africanas radicadas em Cabo Verde, participaram do evento.

“Se a população se juntar a nós, claro que é melhor. Juntos somos melhores e fazemos mais”, diz a representante.

Com cerca de 100 membros ativos, o MFPA visa expandir suas atividades por todo o país, mantendo seu compromisso de promover a união dos africanos no continente e na diáspora. O movimento conta com a parceria da Fundação Amílcar Cabral e da Associação dos Combatentes da Liberdade da Pátria (ACOLP).

Conforme explica a vice-coordenadora, o movimento é uma coligação constituída por cerca de 30 membros, dos quais 20 são mais ativos, que são líderes de 12 associações, e aos quais acrescem os simpatizantes.

Questionada sobre a expansão do movimento para outros pontos nacionais, Romira Rocha diz que a ambição é levar o movimento para todo Cabo Verde e adianta que de momento o MFPA tem pontos focais no Tarrafal, de Santiago, e na ilha do Maio.

O MFPA, desde sua fundação em 2016, tem se dedicado a promover a união dos africanos no continente e na diáspora, com o objetivo de alcançar uma África unificada e resiliente até o fim da década de 2020-2030.

Homenagem a Cabral

Paralelamente, o MFPA está comprometido em preservar a memória e o legado de figuras como Amílcar Cabral, líder histórico da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, cujo centenário de nascimento é celebrado este ano. Cabral é uma figura “chapéu” do movimento, conforme explica a vice-coordenadora. “É o nosso patrono” Por conseguinte, enquanto parceiro da FAC, o movimento federalista juntou-se à fundação nas atividades comemorativas do centenário.

Questionada sobre se o facto de o movimento ter Amílcar Cabral como patrono não faz uma camada da população associar o MFPA ao PAICV, Romira Rocha explica que não existe esse receio porque se trata de um movimento de consciência que fala sobre o que é melhor para África, livre de associações partidárias.

“Um movimento político sim, mas não somos partidarizados por ninguém. E é o nosso papel também lembrar aos governantes para que olhem mais pelo povo. Nós estamos ao lado do povo”.

Para Romira Rocha, vice-coordenadora desde setembro de 2023, educar as novas gerações sobre a história e os valores africanos é fundamental. A porta-voz enfatiza a importância de transmitir essa consciência aos jovens, que muitas vezes estão expostos a influências estrangeiras, mas carecem de orientação sobre as raízes e identidade.

“É nosso papel falar da nossa história e do que aconteceu e levar esta consciência do valor da nossa língua, da nossa cultura e das nossas tradições”, enfatiza. Por isso o movimento está numa espécie de sementeira -“Simentera” para ver se há mais união africana.

No que diz respeito às ambições do movimento, quiçá transformar-se num partido político, a vice-coordenadora não descarta a hipótese, mas salienta que “neste momento não há condições para tal”. “Não é só criar um partido político, queremos formar quadros, pessoas com uma base que já sabem fazer e têm conhecimento científico“, explica.

Tendo em conta o recente debate sobre se os cabo-verdianos se sentem africanos, a socióloga de formação e professora acredita que a maioria se sente africana. “Há uma minoria que não se sente ou está em dúvida, dentro dessa construção e polémica que está atualmente, mas é uma elite, uma burguesia que tem algumas dúvidas por causa das influências européias, principalmente”.

Romira Rocha também chama atenção para o facto de África não falar tanto sobre esta questão identitária, um debate que nos Estados Unidos os afro-americanos abordam, por exemplo.

“É um movimento mais silencioso”, salienta e acrescenta que a influência dos imigrantes em Cabo Verde tem ganho espaço aos poucos em áreas como gastronomia, música, em aspetos do quotidiano, etc.

Vice-coordenadora do movimento desde setembro de 2023, Romira Rocha é uma voz ativa no ativismo e na promoção da consciência africana. Nascida na Praia, onde se formou, é filha de pais de Santo Antão. Emigrou para a Holanda, mas desde 2019 regressou a Cabo Verde onde tem desenvolvido atividades na área da docência, bem como no ativismo.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest