Preocupada com falta de segurança, Associação de Taxistas da Praia pede lei mais rígida para assaltantes

O presidente da associação denuncia que atualmente os assaltos aos táxis acontecem a qualquer hora e em qualquer bairro da capital e pede lei mais rígida para os meliantes.

O presidente da Associação de Taxistas da Praia, Adriano Monteiro, procurou o Balai Cabo Verde para denunciar o aumento do sentimento de insegurança por parte dos taxistas da capital.

Apesar de reconhecer que os assaltos terem começado a agravar desde 2010, este responsável salienta que nos últimos dois anos, 2021 e 2022, a situação tem sido grave. “Passou a acontecer praticamente todos os dias. Foi a pior época. Antes os assaltos aconteciam mais à noite, mas nos últimos tempos, 2021 e 2022, é a qualquer hora e em qualquer bairro”, lamenta este profissional que é taxista desde 2000 e já foi ele próprio vítima de assalto duas vezes.

Adriano Monteiro reconhece que nos últimos anos a polícia, nomeadamente a Brigada Anticrime, BAC, (refere-se à esquadra Especial da Polícia Anticrime) “tem dado um bom suporte aos taxistas”, mas que mesmo assim tem sido insuficiente.

“Hoje em dia acontece em qualquer bairro. Em 2022, acontecerem muitos casos no bairro do Palmarejo. As pessoas param o táxi no Palmarejo e pedem para ir para a Cidadela, que é uma zona isolada, onde depois praticam o assalto. Acontece em Achada São Filipe. No Platô, onde as pessoas fingem sair das Urgências (do HAN) e depois cometem assaltos, por exemplo”.

Das estatísticas da associação, em 2022, mais de 30 taxistas foram vítimas de assaltos com recurso a arma de fogo ou arma branca, sem contabilizar os que são sequestrados ou então assaltados sem recurso a agressão. Isto num universo de cerca de 700 táxis registados.

A nossa fonte que diz que já não trabalha depois das 19h00 ou máximo 20h00, explica que alguns colegas optam por andar armados, mas que também não é uma situação ideal, já que podem ser vítimas das armas que transportam ou se forem apanhados pela PN são apresentados na justiça.

Adriano esclarece que a maioria dos assaltos são rápidos e que há maior número de casos aos fins-de-semana. Tanto Adriano, como o taxista Carlos Rodrigues, relatam situações em que os condutores são sequestrados pelos delinquentes para fazer roubos ou outras atividades ilegais e depois enfrentam as consequências destas situações.

Há situações em que os proprietários dos táxis compelem os condutores a arcar com os prejuízos do assalto, explicam Adriano e Carlos, que lamentam que isto aconteça. “É desumano (…) se o taxista chegar ileso, eles não acreditam”.

Por outro lado, o responsável da associação reconhece que há condutores que simulam assaltos, mas que são casos isolados. “Desonestos há em todos os setores (…)”, diz e afirma que os proprietários devem estar atentos a condutores que dizem que foram assaltados, por exemplo, quatro vezes num mês.

Vidas de taxistas em risco

Carlos Rodrigues tem 52 anos e é taxista há 25 anos. Há cerca de três anos tornou-se proprietário do veículo que conduz. Pouco tempo depois, em 2011 acabaria por sofrer um assalto que quase lhe custou a vida.

Eram 17h numa tarde de agosto, quando Carlos apanhou três jovens em Castelão que pediram para os levar para o caís da Praia onde trabalhavam. Na descida de Achada Grande, um dos jovens no banco de trás lhe encostaria uma faca ao pescoço enquanto os restantes dois recolhiam o dinheiro.

Um grupo de mulheres que passava na rua viu o episódio e parou em frente ao veículo. Os assaltantes fugiram com os pertences e Carlos conduziu até ao hospital com o sangue a escorrer pelo pescoço. Os médicos disseram-lhe que teve sorte porque o corte não lhe apanhou nenhuma área fatal, mas a extensa cicatriz recorda-lhe o amargo episódio. “Correu tudo bem. Pensei que fosse ficar sem voz ou algo pior”.

Os assaltantes foram detidos pela Polícia, mas libertados de seguida pelo Tribunal, alega Carlos. “Enquanto eu estava internado, esses rapazes continuaram a trabalhar no caís normalmente (…) Foi feita uma manifestação de colegas taxistas, promovido pela associação de taxistas. Depois eles foram novamente presos”, conta Carlos e diz que os meliantes ficaram em prisão preventiva e meses depois, foram condenados a 6 anos de prisão. Mas para Carlos, que dois meses depois do sucedido voltou ao trabalho, a pena foi branda.

Até hoje não apanha fretes com grupos de homens nem trabalha depois do por-do-sol. “Tenho de trabalhar dois dias para conseguir o que antes conseguia num dia”.

Carlos Manuel Pina Correia, mais conhecido por Nandinho, de 39 anos, é taxista na Praia há 18 anos. Apesar de já ter sido assaltado há uns anos, nunca pensou que seria baleado enquanto estava a trabalhar.

Há cerca de três meses, Nandinho recorda que estava a descer do bairro da Achada Santo António para o Fundo Cobom, onde, por volta da 01h00 da manhã, viu duas jovens na rua à espera de táxi. “Quando parei elas começaram a perguntar o preço (do frete), quando me apercebi que eram um isco, já era tarde”. Conta que do nada surgiu 1 rapaz armado e depois mais um. A um deles o taxista entregou o telemóvel e o dinheiro que tinha, mas quando tentou arrancar foi baleado na perna direita.
“Liguei o pisca quatro e conduzi para o hospital”.

“Não me retiraram a bala porque o médico disse que iria demorar muito tempo para andar porque a bala se encontrava num local complicado”, segundo explica Nandinho que três dias depois do sucedido, apesar de ainda estar em dificuldades para mover a perna direita, voltou ao trabalho. “Quero tirar a bala, porque não sei para onde pode deslocar-se”.

Apresentou queixa na Polícia Nacional e deu o número de série do telemóvel roubado, mas diz que até hoje não soube de nada, apesar de salientar que perto do local há câmaras de vigilâncias.

Inicialmente após o incidente, só trabalhava durante algumas horas, entretanto, já regressou ao horário que costuma fazer – o turno da noite/ madrugada. Trabalha maioritariamente com clientes regulares e raramente apanha pessoas na rua.

O profissional lamenta a falta de policiamento nalgumas artérias da capital e sugere que a presença da polícia à noite seja mais visível. “A polícia deve ser mais ágil e chegar mais depressa quando é chamada (…)”, acrescenta.

Outro aspeto levantado por Nandinho é a licença de porte de arma para os taxistas para que se possam defender dos assaltantes e, inclusive, defender os clientes em caso de necessidade.

Taxista há quase duas décadas, Nandinho também constata que nos últimos anos os relatos dos assaltos aumentaram. Fala em colegas que foram também assaltados com arma e outros que chegaram a ser feitos reféns e colocados no porta-bagagens dos veículos. “É um trauma para eles”.

Lei mais rígida

No entender de Adriano Monteiro, uma forma de diminuir os assaltos era ter uma lei mais rígida para que os delinquentes tenham medo de cometer os crimes, já que no entender deste taxista a lei atual é branda porque os delinquentes raramente vão presos e apenas ficam a aguardar julgamento em liberdade. “Tem de haver uma lei mais rígida que as pessoas temam (…) Queremos que a lei mude (…) Este caso (do Carlos) praticamente tiraram a vida da pessoa e só levam 6 anos? (…)”.

A lei para o porte de armas também deveria ser revista, no entender da nossa fonte. “Quem for apanhado com “boca bedjo” deveria ir preso também”.

Adriano Moreira lamenta a situação da criminalidade na capital e diz que a mesma afeta a imagem do país e conta que já presenciou duas turistas a serem assaltadas por dois indivíduos depois de sair de um táxi num dos bairros da capital, por exemplo.

Tecnologia pode ser solução para aumentar segurança

Por outro lado, Adriano Monteiro acredita que o uso de um aplicativo para táxis, que já começa a ser usado por alguns profissionais na capital através da startup na cidade da Praia, pode ajudar a ter maior segurança, mas salienta que o mesmo deve ser usado por táxis licenciados e de uma forma organizada e legal.

“Nós (taxistas) também estamos interessados no uso do aplicativo porque (…) pode permitir maior rendimento, mas não trabalhando com clandestinos”, diz.

O combate aos táxis clandestinos é outra luta da classe cujo represente refere que há cerca de 400 veículos nesta situação. O responsável da associação de taxistas também diz que em 2022 uma empresa local que tentou operar num sistema semelhante ao Uber em Cabo Verde foi denunciada pela associação porque, no entender dos taxistas, recorria a táxis clandestinos e a carros não licenciados que “não tinham capacidade de prestar serviço público”.

E segundo Adriano Monteiro, acabar com a clandestinidade “não é tão difícil, eles não são discretos, se houver vontade, é possível”.eano

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