Cabo Verde: O funaná pode tornar-se Património Imaterial da Humanidade?

Músicos e académicos acreditam que o funaná deve ser considerado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. E defendem que cabe ao Governo cabo-verdiano tomar a iniciativa.

António Virgolino dos Santos Moreno, também conhecido por Dju di Mana, acredita que o funaná tem potencial para se tornar Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

“Acredito que vamos chegar lá. Tenho esperança”, diz.

Dju di Mana é um dos intérpretes ferrenhos do frenético estilo musical e de dança nascido na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Antigo elemento do grupo “Rabenta”, fundado em 1997, tem dois discos gravados na Holanda.

“Vemos que, a partir dos anos 90, há uma aposta forte no funaná. Há várias pessoas interessadas na música, e também temos vários investigadores preocupados com este ritmo. Desde 1997 até agora houve uma grande evolução.”

Leonel Almeida, outro músico cabo-verdiano e mentor do projeto “Re:Imaginar Monte Cara”, também apoia a ideia. E lembra que o funaná foi um dos instrumentos de revolta contra o regime colonial português.

“O funaná é uma música mítica de Cabo Verde. Como a morna é reconhecida pela UNESCO como património mundial, o funaná também deveria ser.”

Música ligada à resistência

O académico português Rui Cidra interessou-se por este estilo musical e de dança ligado à escravatura, usando-o como objeto de estudo para a sua tese de doutoramento. Trata-se de uma prática cultural marginalizada durante colonialismo português, mas também silenciada durante muito tempo através da escrita.

“Eu quis conhecer essa história. Quis saber porque é que houve essa marginalização social, porque é que as sociabilidades e os toques de gaita e ferro, no interior da ilha de Santiago, foram proscritos e proibidos, e porque é que os tocadores estavam sujeitos a perseguição”, conta Rui Cidra.

“Fiquei interessado pelo facto do funaná emergir de um grupo social em Cabo Verde que tem uma história muito particular ligada à escravatura, ao trabalho contratado, ao trabalho agrícola de acordo com regimes muito desiguais.”

Com todos os ingredientes que reuniu durante a sua investigação, o investigador escreveu o livro “Funaná, Raça e Masculinidade: Uma Trajetória Colonial e Pós-colonial” (editora Outro Modo, 2021), apresentado na recente edição do Festival Músicas do Mundo de Sines, no litoral alentejano em Portugal.

Rui Cidra é contra a ideia de elevação do funaná a património mundial, dado que tem uma impressão negativa dos processos de “patrimonialização”.

“Os processos de patrimonialização vêm introduzir sobretudo uma lógica de mercado, de relação com as indústrias do turismo, que alteram completamente a trajetória destes géneros, a sua vida social e o modo como são experimentados pelos músicos. O funaná é uma prática musical historicamente associada ao questionamento, à interrogação, à oposição às estruturas de poder dominantes, à resistência.”

Candidatura

O antropólogo português Nuno Domingos, editor da obra de Rui Cidra, diz que o processo para a inscrição deste género musical a património imaterial da UNESCO deve ter início em Cabo Verde.

“Se as autoridades cabo-verdianas consideraram que isso é algo importante, terá que partir delas. Não vejo razão para isso não acontecer”, afirma.

Leonel Almeida lançou um apelo ao Ministério da Cultura de Cabo Verde, que deve projetar para o mundo o que é o funaná. Almeida propõe que o músico Zéca Di Nha Reinalda seja distinguido como o rosto de uma eventual campanha pela projeção internacional do funaná.

“Ele até devia ser uma bandeira para o Governo pôr à frente. Era um escudo para mostrar o que é cantar o funaná, cantar com alma”, diz Leonel Almeida.

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