Eleições em África: Jovens entre a “apatia” e a “febre eleitoral”

Apesar de serem a maioria em África, a participação política dos jovens é muito inconsistente. No Quénia, muitos não vão votar em agosto, mas é provável que o cenário seja muito diferente no próximo ano na Nigéria.

A 9 de agosto, os quenianos vão às urnas para uma eleição que muitos veem como uma corrida entre apenas dois candidatos: Raila Odinga, de 77 anos, e William Ruto, de 55, o atual vice-Presidente do país.

A Comissão Eleitoral Independente do Quénia deu luz verde a outros dois outros candidatos à sucessão do Presidente Uhuru Kenyatta: os dois advogados Dave Mwaure, fundador do movimento Roots Party, e George Wajackoyah, que também foi agente dos serviços secretos na década de 1990.

Mas estas eleições provavelmente terão uma participação dos jovens bastante reduzida, de acordo com o presidente da Comissão Eleitoral do Quénia, Wafula Chebukati.

“O número de jovens entre os 18 e os 34 anos registados para votar em 2022 é de 39,84%, o que representa um declínio de 5,27% em relação ao que tivemos em 2017”, explicou Chebukati aos jornalistas na capital, Nairobi, durante a divulgação de uma auditoria aos cadernos eleitorais.

“Os primeiros a queixar-se”

A população do Quénia é maioritariamente jovem. Os jovens representam cerca de 80% dos 56 milhões de habitantes do país. Mas muitos deles parecem desinteressados no processo político e eleitoral.

“Não podemos dizer que é falta de educação cívica, mas sim uma falta de interesse sólido nas coisas que importam”, diz Edwin Kegoli, analista político queniano. “Não queremos participar plenamente das questões eleitorais, mas somos nós que estaremos nas redes sociais a reclamar da má governação e do estado deplorável da economia”, afirma.

Maioria marginalizada

A juventude do Quénia há muito que se queixa de falta de oportunidades, registando-se uma elevada taxa de desemprego entre as populações mais novas.

Pelo menos um milhão de jovens quenianos entra no mercado de trabalho a cada ano, mas a maioria mal consegue emprego, o que gera falta de interesse na política, como relata Wilkister Aduma, líder de uma ONG que luta por mais jovens em cargos políticos.

“O espaço político tem vindo a induzir a apatia. É por isso que os jovens estão deste lado, porque olham para onde estão as oportunidades e se não as veem, não se relacionam com isso”, explica.

O jovem ativista político acredita que as atuais dificuldades económicas alimentaram a apatia dos eleitores entre os jovens. Outros dizem que os jovens perderam a fé em todo o processo eleitoral por causa da falta de confiança nos políticos.

“É muito tóxico, porque não se baseia em fundamento mútuo. É uma relação simbiótica em que alguém me dá uma coisa e eu dou outra. É um quid pro quo”, afirmou Peter Mwyne, diretor do campus da Universidade Daystar, queixando-se de que os políticos só olham para os jovens quando lhes é conveniente.

Juventude da Nigéria quer votar nas próximas eleições

A quase 5 mil quilómetros dali, na Nigéria, o quadro é totalmente diferente. A nação mais populosa de África vai às urnas no dia 25 de fevereiro de 2023 para escolher o próximo líder. Ao contrário do Quénia, os jovens parecem ansiosos para votar.

“A Nigéria está uma confusão, tudo está de pernas para o ar, a economia está a piorar de dia para dia. Enquanto jovem, a maioria das pessoas não pode pagar uma refeição de três vezes por dia. Por isso vou sair naquele dia fatídico e votar”, diz Peace Joseph, um estudante em Lagos.

Tolu Akinsulere, um jovem funcionário de relações públicas, também se mostra ansioso por escolher o seu candidato presidencial.

“Como cidadão [nigeriano], vou votar porque sinto que é um direito que me assiste. Imploro a todos os jovens, a todos os nigerianos com mais de 18 anos, que saiam e votem porque, se não votarem, a situação pode até piorar”, adverte Tolu Akinsulere.

Os analistas políticos justificam o interesse dos jovens da Nigéria pela política com os protestos de 2020, que surgiram depois de um jovem ter sido morto por uma brigada policial especializada.

Inspirar a juventude a tornar-se ativa na política

Jovens nigerianos mobilizaram dezenas de milhares de outros jovens e protestaram contra a violência policial nas ruas. O protesto nas redes sociais foi feito com recurso à hashtag #EndSARS.

As manifestações abalaram a nação durante duas semanas e forçaram o Governo a estabelecer painéis judiciais de inquérito para analisar as numerosas alegações de abusos da polícia.

Segundo a Amnistia Internacional, pelo menos 12 pessoas foram mortas depois de o exército ter alegadamente aberto fogo sobre os manifestantes. Desde então, a juventude nigeriana tem estado ativamente envolvida no discurso político do país, explica o correspondente do DW em Lagos, Sam Olukoya.

O analista político Edwin Kegoli salienta que é crucial conseguir que muitos jovens desenvolvam uma cultura e interesse no discurso nacional.

“Se conseguirmos que mais jovens entrem no mercado de trabalho e lhes dermos poder para participarem em programas que tragam crescimento e desenvolvimento de uma perspetiva económica, eles certamente vão desenvolver esse interesse”, afirma Edwin Kegoli, apelando aos intervenientes políticos que envolvam os jovens na atividade, dizendo-lhes que o futuro lhes pertence.

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