Gás da Argélia, uma resposta à demanda energética europeia?

Argélia é o décimo maior produtor mundial de gás e já anunciou a sua intenção de fornecer mais gás à Europa. Será o gás argelino a alternativa que a Europa procura para reduzir a sua dependência energética da Rússia?

A guerra na Ucrânia trouxe muitos Estados africanos para os holofotes europeus, algo que pode ser visto na recente lista de visitas dos políticos europeus. Um exemplo é a Argélia, o gigante africano do gás.

Recentemente, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, fez uma visita ao Presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune e afirmou que “dadas as circunstâncias internacionais de que todos estamos conscientes, a cooperação energética é obviamente essencial”, disse.

“E vemos a Argélia como um parceiro fiável, leal e empenhado no domínio da cooperação energética. Temos uma aspiração comum de estabilidade, segurança e prosperidade”, acrescentou.

Será a Argélia, o país com maior extensão territorial em África, uma resposta às preocupações energéticas da Europa? O potencial está lá – o gás natural do deserto. O país é o décimo maior produtor de gás do mundo e o maior exportador de gás de África.

Riquíssimas reservas

As suas reservas são riquíssimas, explica o especialista argelino em energia, Mourad Preure. “A Argélia tem um potencial muito grande, especialmente em gás natural não convencional – em fracking. Aí temos a terceira maior reserva do mundo – 20 mil milhões de metros cúbicos”.

O gás argelino já abastece atualmente alguns países do sul da Europa, como Portugal, Espanha e Itália. Um acordo recente – o gasoduto transmediterrâneo da Argélia à Itália – deverá aumentar a utilização.

E isso foi saudado pelo Presidente francês Emmanuel Macron durante a sua recente viagem à Argélia, que disse que o seu país estava a ajudar a Europa a “diversificar” a sua energia.

“Nós, em França, não teremos qualquer problema porque não somos muito dependentes do gás. É mais uma questão europeia, uma questão de solidariedade com a Europa”, afirmou.

“É muito bom e agradeço à Argélia por querer aumentar as quantidades que fluem através do gasoduto Argélia-Itália. Ali, mais de 50% da capacidade utilizada atualmente pode ser aumentada. Isto é muito bom. É bom para a Itália e para a Europa”, concluiu Macron.

Governo argelino “contra a parede”

Mas o regime argelino também está contra a parede. Durante anos, houve protestos em massa contra a corrupção e a repressão. 280 pessoas terão sido presas, a maioria por proximidade com o movimento de protesto, alerta a organização de direitos humanos Human Rights Watch.

É por este motivo que muitos argelinos são críticos aos novos negócios de gás com a Europa. Um ativista do movimento de protesto Hirak, que preferiu não ter a sua identidade revelada, disse que o regime corrupto argelino apenas embolsa [para si] os lucros do gás.

“O ideal seria aprender as lições do passado e investir este dinheiro na modernização do país. Temos uma economia completamente ultrapassada. É evidente que as autoridades teriam de investir na modernização. Idealmente, este dinheiro deveria ir para a construção de instituições democráticas a para a modernização da sociedade, das escolas, universidades e infraestruturas”.

Por outro lado, o regime argelino depende da venda de petróleo e, especialmente, do gás natural. E depende fortemente dos combustíveis fósseis, pois a sua economia não é muito diversificada.

Generosos subsídios

Com as enormes receitas das reservas de petróleo e gás do país, a elite do poder da Argélia foi, durante muito tempo, capaz de comprar a paz social com generosos subsídios para a alimentação, habitação e gasolina. Mas isso pare ter acabado, após o início da guerra na Ucrânia. Logo após a eclosão da guerra na Europa, os políticos argelinos já tinham assinalado que a Argélia estava pronta a aumentar os seus fornecimentos à Europa.

Mas a verdade é que o país pouco investiu nas suas infraestruturas de gás nas últimas décadas – muito está ultrapassado e precisa de ser modernizado. E também poderia ser consideravelmente expandido com a ajuda do investimento estrangeiro, o que Argel também já assinalou.

A curto prazo, é difícil aumentar a capacidade de produção de gás argelino, porque o gás é principalmente necessário para o consumo doméstico. Mas, a longo prazo, as coisas parecem diferentes, diz o especialista em energia Moussa Boukrif.

“Na situação atual, penso que não podemos reagir rapidamente e substituir o gás russo. Mas, a a médio prazo, dentro de 4 ou 5 anos, existe a possibilidade de a Argélia vir a ter mais quota de mercado na Europa. O país é um parceiro muito fiável, que sempre manteve os seus compromissos. Por isso, acredito que o gás argelino possa ocupar um lugar central no abastecimento da Europa nos próximos anos”, concluiu.

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