Investimento sul-coreano: “África tem posição privilegiada”

Analista político moçambicano diz que a cimeira África – Coreia do Sul foi um sinal de que o continente “não tem parceiros permanentes” e pode aproveitar o melhor de todos os mundos.

O analista político Muhamad Yassine considera a Coreia do Sul é um bom parceiro para África pelo seu nível de desenvolvimento económico e tecnológico. O continente pode tirar vantagens do novo parceiro asiático, quebrando o “sistema regimental” que privilegia encontros com países europeus ou com os Estados Unidos.

Yassine falou à DW África a propósito da cimeira Coreia do Sul-África, realizada esta semana, em Seul, e em que participaram 48 líderes africanos, entre os quais de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique.

Na cimeira, o Presidente sul-coreano, Yoon Suk-yeol, comprometeu-se a ajudar o desenvolvimento em África com até 10 mil milhões de dólares nos próximos seis anos. Seul garantiu ainda que irá disponibilizar 14 mil milhões de dólares em financiamento à exportação para promover o comércio e o investimento das empresas sul-coreanas em África.

DW África: Por que razão quase todos os líderes africanos foram a Seul para a cimeira Coreia do Sul – África?

Muhamad Yassine (MY): É um sinal do continente africano, para mostrar que não tem parceiros permanentes. Com esta cimeira, África quebra o sistema regimental em que [o continente] normalmente se encontra com a Europa e com os Estados Unidos da América.

África já avançou do ponto de vista da cooperação com a China, recentemente [aconteceu o mesmo] com o Japão e agora com a Coreia do Sul. Há que olhar para as prioridades do continente africano em relação às ofertas que as grandes potências mundiais têm a dar.

DW África: E nesta parceria, o que a Coreia do Sul tem a oferecer aos países africanos comparado com o que eles não recebem, por exemplo, da União Europeia ou dos parceiros como os Estados Unidos da América?

MY: A Coreia do Sul também é uma potência do ponto de vista económico e tecnológico, e isto dá muita vantagem ao continente africano. Por outro lado, olhando para a Agenda 2063, que tem a ver com o desenvolvimento do continente africano – [inspirada] na Agenda 2020 e que procura fugir do negócio das armas para o negócio de desenvolvimento -, a Coreia do Sul enquadra-se nos países que não olham para o continente africano como uma base para a venda de armas.

Pelo contrário, a Coreia do Sul vende tecnologia, vende instrumentos de desenvolvimento e vende meios circulantes para o continente. Isto diferencia esta cimeira com a Coreia do Sul de outros [eventos] anteriores em que o continente africano participou.

DW África: E no caso concreto de Moçambique, o que este país da África Austral, também presente na cimeira de Seul, tem a ganhar com esta nova parceria com a Coreia do Sul?

MY: Do ponto de vista da economia centralizada, o apoio financeiro da Coreia do Sul visa desenvolver estruturas que, por si só, [permitem] fazer o retorno de capital.

Por exemplo, para Moçambique, a Coreia do Sul se compromete a construir a segunda fase do processo de desenvolvimento do gás, o que significa que Moçambique terá a oportunidade de ter essa estrutura flutuante construída, usando os fundos da Coreia do Sul, e no futuro, ela se auto-paga.

Eu penso que os outros países africanos também estão a olhar para um novo parceiro, para um modelo económico diferente.

DW África: No que diz respeito à economia, a Coreia do Sul anunciou o aumento de investimentos no continente africano, em mais de 10 mil milhões de dólares. Podemos olhar para este investimento com alguma desconfiança, tentando provavelmente obter em troca recursos naturais do continente africano?

MY: África está numa posição privilegiada [considerando] que os recursos naturais estão escasseando no mundo ocidental. O continente tem agora a capacidade de, não só, negociar com um parceiro [a exploração] dos recursos naturais, mas [também de] ouvir parceiros variados e ter capacidade de escolher, sem que, para tal, haja uma imposição.

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