Líder reeleito do PAIGC promete resgatar Guiné-Bissau da “deriva”

Após oito anos à frente do PAIGC, Domingos Simões Pereira foi reconduzido na liderança da maior formação política do país, envolvida em lutas internas e num braço de ferro com o atual regime guineense.

Domingos Simões Pereira foi reeleito, este domingo (20.11), líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), com mais de 90% dos votos, no X Congresso daquela formação política, que mobilizou milhares de militantes e simpatizantes.

Depois das desistências de dois candidatos, Raimundo Pereira e Martilene dos Santos, restaram quatro nomes na disputa pela liderança do PAIGC. Com um total de 1.268 votantes, Simões Pereira arrecadou a maioria dos votos: “O vencedor deste X Congresso é o camarada Domingos Simões Pereira, que tem 1162 votos, correspondente a 91,64%.”, confirmou a presidente da Comissão Eleitoral, Aminata Sila.

Em relação aos outros candidatos, Octávio Lopes arrecadou 62 votos, correspondente a 4,89%, João Bernardo Vieira obteve 32 votos, total de 2,52%, e Edson Araújo obteve quatro votos, correspondente a 0,32%.

“Vai haver um rumo”

“A decisão que acaba de sair resulta do sentimento de avaliação dos delegados. A partir deste momento, há uma direção, há um presidente”, afirmou Simões Pereira, após a vitória. “Vai haver um rumo e vamos convocar toda a família do PAIGC para, de facto, transformarmos a aspiração do povo guineense num programa, num compromisso e numa visão do futuro”, prometeu.

O congresso do PAIGC teve lugar numa altura em que o país enfrenta uma crise social, com greve nos setores da educação e da saúde, associada ao aumento de custo de vida.

Domingos Simões Pereira, que na abertura do evento classificou como “incompetente” o atual Governo guineense, apontou um objetivo essencial para o seu partido: “Os delegados ao X Congresso quiseram dizer à nação guineense que o PAIGC está pronto para um compromisso, para um compromisso do futuro, que permita resgatar esta desgovernação e esta deriva que está a acontecer e repor a todos os cidadãos guineenses o direito de sonhar, o direito de trabalhar para o futuro e de acreditar que é possível”.

Apelo à coesão rumo às eleições

Assumindo a derrota, o segundo candidato mais votado, Octávio Lopes, apelou à união e ao apoio ao líder reeleito do PAIGC: “Na expressão do poeta Fernando Pessoa, ‘cada coisa a seu tempo’. Ainda não é o meu tempo. É o tempo de cerrarmos fileiras em torno de Domingos Simões Pereira”.

“É o tempo de acompanharmos, apoiarmos a visão e a liderança de Domingos Simões Pereira, com a responsabilidade de nos conduzir a todos nós, sem exceção, para aquilo que propusemos. Um Presidente da República, uma maioria absoluta e um Governo do PAIGC”, afirmou.

Ouvido pela DW África, o analista político Fodé Mané afirma que a vitória de Domingos Simões Pereira no congresso é um recado para o regime cuja estratégia, considera, “é impedir que haja eleições [legislativas] livres e transparentes”.

“Sendo umas eleições livres e transparentes, há possibilidade de haver a revolta e voto de solidariedade no PAIGC. E com o receio de vir a receber uma retaliação [do povo], por aquilo que tem feito, pode levar o regime a ter uma reação que podemos chamar de frustração”, explica.

Tensão no “pós-congresso”?

O congresso decorreu num ambiente tranquilo entre os candidatos, mas, no PAIGC, o “pós-congresso” sempre foi complicado. Fodé Mané não espera que essa tendência mude: “[O PAIGC] É um partido próximo do círculo do poder, como se diz na gíria política. Quando assim é, há sempre um descontente”.

“Quem está no presidium ou no Comité Central, se deixar de estar lá, a hipótese de vir a ser candidato a deputado é muito mais reduzida, segundo a lógica de pensamento desta situação. Portanto, não é de descartar e vai continuar, porque as lutas internas no PAIGC tiveram sempre o apoio do regime, há candidatos preferidos do regime e há candidatos que vão procurar o apoio de fora”, sublinha.

Polícia tenta deter ex-PM

O X Congresso do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde decorreu depois de vários impedimentos por parte da Justiça guineense, devido a um processo intentado pelo militante Bolom Conté, que se queixou de alegadas irregularidades no processo de seleção dos delegados ao evento.

O arranque do congresso, na sexta-feira, ficou marcado pela entrada de polícia armada na sala onde decorria a reunião magna do partido para deter o antigo primeiro-ministro Aristides Gomes, que chegou nesse dia ao país.

Aristides Gomes saiu da sala e, segundo fontes partidárias, está em segurança. O ex-chefe do Executivo esteve cerca de um ano refugiado na ONU, em Bissau, depois de ter sido demitido pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló, e deixou a Guiné-Bissau em fevereiro do ano passado.

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