“PAIGC está em perigo iminente de naufrágio”

Membro do bureau político do PAIGC apela a “capitão” Domingos Simões Pereira que assuma a responsabilidade pelo “naufrágio iminente” do partido. “Não podemos culpar o marinheiro”, diz Mário Dias Sami em entrevista à DW.

Numa carta aberta, divulgada na segunda-feira (17.01), um grupo de dirigentes do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) questiona a liderança de Domingos Simões Pereira.

O documento é assinado pelo ex-primeiro-ministro guineense Artur Silva, por Octávio Lopes, antigo diretor de gabinete do ex-Presidente José Mário Vaz, Mário Dias Sami, ex-secretário de Estado das Pescas, Gilberto Charifo, ex-diretor-geral da Geologia e Minas e pelo deputado Hussein Farath.

O balanço que fazem do mandato de Simões Pereira como líder do PAIGC é negativo: O partido, lembram os dirigentes, não tem a maioria no Parlamento, apesar de ter sido o mais votado nas legislativas de 2019; não está nem no Governo, nem na Presidência da República, e perde cada vez mais o apoio da população.

“O PAIGC está em perigo iminente de desaparecer”, comenta Mário Dias Sami, porta-voz do grupo que publicou a carta aberta.

Em entrevista à DW África, o membro do bureau político do partido apela à responsabilização de Domingos Simões Pereira: “Não podemos culpar o marinheiro pelo naufrágio do navio”, diz.

Simões Pereira candidata-se a um terceiro mandato como líder do PAIGC no congresso que decorre entre 17 e 20 de fevereiro.

DW África: Porquê esta carta aberta contra o atual presidente do PAIGC, um mês antes do congresso?

Mário Dias Sami (MDS): Nós queríamos ter feito isso há muito tempo, mas estávamos à espera do amadurecimento de premissas objetivas e subjetivas. É o momento oportuno para tocar este tambor de alerta, sinalizando aos militantes, a todos os amigos do PAIGC e ao povo da Guiné-Bissau o perigo que paira sobre a nossa sociedade. É uma sociedade em desarticulação, [desde] o regime instalado a partir de 27 de fevereiro de 2020, com a investidura do Presidente Umaro Sissoco Embaló e, a partir de 1 de março, com o Governo encabeçado por Nuno Gomes Nabiam.

DW África: Domingos Simões Pereira não está preparado para ter uma estratégia capaz de mudar o rumo do país e de vencer as próximas eleições?

MDS: As formações políticas [existem para] conquistar o poder. Não basta elaborar boas teorias, definir bons caminhos, sem se conseguir implementar as ideias. A luta do PAIGC tem de ser direcionada para esses mentirosos, imorais e ladrões, que roubam o povo e o Estado. As pessoas que roubam o Estado não são adversários políticos, são inimigos do nosso povo.

DW África: Acha que o PAIGC tem inimigos internos? Domingos Simões Pereira é um deles?

MDS: Não, o PAIGC não tem qualquer inimigo internamente. Domingos Simões Pereira está longe de ser inimigo do PAIGC.

DW África: Simões Pereira prometeu em 2018 que não se apresentaria a um terceiro mandato. Querendo manter-se na liderança, está, portanto, a faltar à verdade?

MDS: O partido encontra-se em perigo iminente de desaparecer. Está em perigo iminente de um afundamento, de um naufrágio. Então, eu surgirei apenas para segurar esse período e fazer voltar o partido ao devido lugar.

Ele disse isso, em 2018, por isso não houve nenhum candidato na altura. Compensámos tudo aquilo que ele fez, a luta que, através dele, vínhamos desenvolvendo como um coletivo. Mas estamos a chegar ao fim do segundo mandato…

DW África: E vê, neste momento, personalidades capazes de se apresentarem como alternativa a Domingos Simões Pereira no congresso de 17 a 20 de fevereiro?

MDS: Há gente que poderá surgir.

DW África: Já se fala de alguns nomes, em concreto – Artur Silva, Octávio Lopes, João Bernardo Vieira, Aristides Gomes… Quem poderá ser o próximo líder do PAIGC? Qual é o seu favorito?

MDS: Não tenho favoritos. Estamos a desbravar [terreno] e vamos encontrar o candidato ideal.

DW África: Domingos Simões Pereira não pode ser candidato, na sua perspetiva?

MDS: Legalmente, pode, de acordo com os estatutos do partido. Isso só poderá acontecer se Domingos Simões Pereira [assim o quiser, reconhecendo] que conduziu o partido, mas acabou por não ter sucesso, que nós não fomos capazes de governar.

Não podemos culpar o marinheiro pelo naufrágio do navio.

DW África: Isso quer dizer que Domingos Simões Pereira deveria assumir a responsabilidade pelo mau estado do PAIGC?

MDS: Com certeza. Isso não deve ser uma responsabilidade partilhada.

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