Paulina Chiziane: “Os colonialistas são os próprios africanos”

Em entrevista exclusiva à DW, a escritora moçambicana Paulina Chiziane critica os eruditos moçambicanos por negarem a sua própria História e cultura, ao terem proibido a leitura de alguns dos seus livros incómodos.

Paulina Chiziane, vencedora do Prémio José Craveirinha de Literatura em 2003, começou por se destacar ao escrever sobre a África profunda. Foi assim que, ao cavar as suas múmias, percebeu quão colonizada era.

Depois de muitas críticas que recebeu pela linhagem da sua escrita, afirma, sem meias palavras, que “hoje, os reais colonialistas são os próprios africanos”, que não valorizam a sua história, crenças, hábitos e vivências.

É contra a amputação da História pelos novos poderes em África e através das suas obras, tudo faz para a resgatar a pensar na nova geração. Em entrevista exclusiva à DW África, revela que são os próprios moçambicanos – entre académicos, religiosos e políticos -, que começaram por colocar barreiras à sua escrita.

“Aqueles que se julgam eruditos, porque na conceção deles o mundo tem de ser aquilo que eles sonham ou aquilo que ouviram falar do paraíso deles, das escolas que frequentaram e olham para a sua própria cultura como alguma coisa retrógrada, que deve ser eliminada e que não fica bem ser falada em público”, desabafa a escritora, avisando ainda que “os próprios é que matam a cultura”.

Paulina Chiziane vai mais longe, afirmando ainda que os africanos acabaram por se substituir aos colonizadores. “Aquela tarefa que o colonizador não terminou, nós próprios continuamos a fazer. Isto é, negando a nossa cultura e, às vezes, proibindo-a”, disse.

Maior sucesso fora de portas

Dá o exemplo do seu livro “Ngoma Yethu – O Curandeiro e o Novo Testamento” (2013), onde coloca uma curandeira moçambicana a fazer a interpretação da Bíblia Sagrada do Novo Testamento.

“Uma loucura que veio no momento”, argumenta. No seu processo de escrita, foi descobrindo “coisas maravilhosas” e, ao aprofundar o tema, chegou a conclusões polémicas, como por exemplo: “Jesus Cristo está mais próximo da cultura africana do que da cultura europeia”.

Confessa que ficou feliz com o resultado. Mas quando chegou a hora de publicar a obra, académicos reagiram de forma muito negativa.

“As vozes religiosas, quase todas, ergueram-se a contestar, proibindo os próprios crentes de ler. A agitação foi tal que depois, o livro é apresentado no Brasil onde foi “best-seller”. E as pessoas são obrigadas a reconhecer o livro, mais uma vez, a partir de fora”, afirmou a escritora.

Casamento precoce por não haver luz ao fundo do túnel

Feminista, como ficou bem expresso em “Niketche – Uma História de Poligamia” (2001), Chiziane revela ser contra os casamentos precoces de raparigas em Moçambique. Desafia as autoridades nacionais a cumprirem as suas promessas para pôr fim a este fenómeno social.

“Em algumas regiões, não tem nem estradas nem escolas. Tem apenas o sol, a chuva e a machamba para cultivar. As meninas casam-se muito cedo, porque não têm perspetiva”, começa por explicar.

Afirma que a solução para o problema que encontra no casamento prematuro passa por “criar uma escola, um emprego”. A escritora acredita que se houver essas ofertas educativas, poderá ajudar a reverter este fenómeno social.

No entanto, reconhece também que, “em muitos casos, as comunidades vivem distantes do centro, sem água, sem energia elétrica e sem acesso aos cuidados básicos de saúde”.

Paulina Chiziane afirma que é um “um problema difícil de se resolver”, e que o Prémio Camões que acaba de ganhar, é insuficiente para dar resposta a causas como esta.

“A minha vocação é cultural. E neste caso, como poderia ajudar? Talvez escrever e publicar um artigo para aumentar a consciência pública à volta dessa questão”, explica.

“O que leva um ser humano a destruir o outro”?

A DW ouviu também a escritora sobre a situação de mais de 200 mil crianças que estão sem escola no meio da crise que se vive no norte de Moçambique – afetada por ataques de grupos terroristas -, e praticamente sem apoios. Para Paulina Chiziane, a responsabilidade é do Governo e não só.

“É preocupante, mas eu não posso fazer nada. Quem deve tentar resolver esta questão é o Governo, com o apoio da comunidade internacional, dos países vizinhos e de outras partes de Moçambique, que podem muito bem dar as mãos para a solução deste problema”, sublinha.

Esta semana, num dos encontros com os leitores na Biblioteca Municipal de Carnaxide (arredores de Lisboa), a escritora, que diz ter enfrentado os traumas da guerra em Moçambique, insurgiu-se contra a agressão militar entre irmãos e vizinhos no leste da Europa.

“Quando alguém vai agredir um território que julga ser seu, não tem piedade. É um cenário muito doloroso”, desabafa a escritora. Lembra ainda que já viveu “uma situação de bombardeamento” e que sofre “com estas coisas que o mundo tem”.

Paulina Chiziane recorda o seu livro “Ventos do Apocalipse” (1983), para falar dos dramas e pesadelos da guerra no seu país. A propósito da atualidade na Europa e da situação em Cabo Delgado, deixa no ar a pergunta: “O que é que leva um ser humano a destruir o outro?”

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