Porque é que a África do Sul critica Israel de forma tão dura?

Analistas entendem que muitos sul-africanos se identificam com a luta palestiniana, recordando o que eles próprios viveram durante o apartheid. Governo fala mesmo de um “genocídio” em Gaza.

A posição extremamente crítica da África do Sul em relação a Israel tem sido controversa. Recentemente, o parlamento da Cidade do Cabo votou a favor de uma moção para o corte de relações diplomáticas com Israel até que haja um cessar-fogo permanente na guerra com o movimento islamista Hamas, considerado terrorista pela União Europeia e pelos Estados Unidos.

A moção, que contou com o apoio dos partidos ANC, Economic Freedom Fighters (EFF), National Freedom Party (NFP), Pan Africanist Congress (PAC) e Al Jama-ah, incluiu ainda o encerramento da embaixada sul-africana em Telavive, bem como da embaixada israelita em Pretória.

Em declarações à DW, Ran Greenstein, analista político da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, nota que quase nenhum outro país africano tem expressado tanto apoio à causa palestiniana como a África do Sul e explica porquê: “Há uma identificação generalizada com a luta palestiniana, porque muitos sul-africanos sentem que os palestinianos estão a passar pelas mesmas experiências que eles próprios viveram durante o apartheid”.

Cortes nas relações diplomáticas é “improvável”

Greenstein entende que a decisão do parlamento é apenas uma “expressão de solidariedade para com a luta palestiniana”. E que é improvável que o Governo sul-africano corte completamente as suas relações diplomáticas com Israel.

Isto porque, explica o mesmo analista, esta medida traria “repercussões na sua posição diplomática em relação à União Europeia, ao Reino Unido e aos EUA e, por isso, o Governo separa bem as declarações simbólicas das políticas efetivas”.

Muitos membros do partido Aliança Democrática (DA), na oposição na África do Sul, votaram contra o pedido de rutura das relações diplomáticas com Israel, considerando que se tratava de uma medida “míope” que excluiria a África do Sul de quaisquer conversações de paz, segundo a imprensa local.

Foi o caso da deputada Emma Louise Powell que afirmou que a “moção contradiz os objetivos do ANC de querer negociar uma solução pacífica para esta crise”.

Também o analista Greenstein considera que “Israel não veria com bons olhos uma iniciativa sul-africana neste momento. Além disso, já há outros [países] a desempenhar esse papel: O Qatar, o Egito e a Turquia”.

Mandado de captura

Numa visita a Doha, em meados de novembro, o Presidente Cyril Ramaphosa apelou ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para investigar o que considerou como “crimes de guerra” cometidos por Israel na Faixa de Gaza. O Governo também apelou para que o TPI emita um mandado de captura contra o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu por genocídio.

“O castigo coletivo de civis palestinianos através do uso ilegal da força por parte de Israel é um crime de guerra”, disse Ramaphosa, acrescentando que a “negação deliberada de medicamentos, combustível, alimentos e água aos residentes de Gaza equivale a genocídio”.

O porta-voz do governo israelita, Eylon Levy, rejeitou firmemente esta acusação, dizendo que um genocídio foi causado pelo Hamas a 7 de outubro.

Há muitos anos que críticos africanos acusam o TPI de só investigar crimes contra os direitos humanos no continente africano, deixando de lado os crimes que ocorrem em outras partes do mundo.

“Se o TPI não atuar agora, não temos razões para acreditar nesta instituição”, considera o analista político Kwandile Kondlo, que acrescenta: “Não consigo compreender as razões para a África do Sul continuar a ser membro desse grupo específico. Este é o momento para o TPI tentar ser uma instituição verdadeira, uma instituição internacional de justiça”.

Vários observadores acusaram a África do Sul de ter dois pesos e duas medidas no que diz respeito às suas opiniões sobre o Tribunal Penal Internacional, uma vez que, em agosto passado, o país se mostrou relutante em executar um mandado de prisão contra o Presidente russo, Vladimir Putin, caso este participasse na cimeira dos BRICS, na África do Sul.

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