“Prémio Liberdade de Expressão” para opositora do Kremlin

Yulia Navalnaya e a Fundação Anticorrupção foram premiadas com o “Prémio Liberdade de Expressão 2024” da Deutsche Welle. Apesar da repressão às críticas, eles continuam a lutar contra a corrupção na elite russa.

“Com a morte de Alexei, Putin matou metade de mim, metade do meu coração e metade da minha alma”, disse Yulia Navalnaya logo após receber a notícia da morte do seu marido, o crítico do regime russo Alexei Navalny.

A metade restante está agora cheia de “raiva, fúria e ódio”, acrescentou Navalnaya, que disse que usaria esses sentimentos para prosseguir o trabalho do marido e da sua Fundação Anticorrupção, para construir uma Rússia “cheia de dignidade, justiça e amor”.

Yulia Navalnaya e a “Fundação Anticorrupção” foram hoje premiadas em Berlim com o “Prémio Liberdade de Expressão 2024”, atribuído pela DW.

“A Fundação Anticorrupção e Yulia Navalnaya assumiram a missão de iluminar a escuridão do sistema corrupto e assassino do Governo russo”, justificou Peter Limbourg, diretor-geral da DW, durante a entrega do prémio. “Agradeço-lhes pelo importante trabalho que realizam.”

Agradecimento pelo apoio de milhões

No seu discurso de agradecimento, Navalnaya afirmou: “Os ditadores veem a liberdade de expressão como uma fraqueza. Consideram-na uma liberdade para espalhar desinformação e mentiras.” A opositora diz que o Presidente russo, Vladimir Putin, consegue encontrar facilmente supostos especialistas dispostos a mentir por dinheiro.

Alexei Navalny e a sua fundação, pelo contrário, mostraram através da sua luta como até ditadores todo-poderosos tremem diante da verdade, continuou Navalnaya: “Vamos continuar esta luta. Acreditamos que a liberdade de expressão vencerá o veneno da propaganda.”

O diretor da Fundação Anticorrupção, Ivan Zhdanov, descreveu expressou a sua admiração pelo fundador Navalny: “Alexei é o homem mais corajoso, o líder mais inteligente e o político mais destacado que já conheci.”

O prémio da DW é também um reconhecimento “para os milhões de pessoas que apoiaram Alexei Navalny e a Fundação Anticorrupção”, frisou Zhdanov.

“Devolveu-nos a coragem”

No seu elogio aos premiados, o ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, salientou que a democracia e o Estado de Direito não podem ser considerados garantidos. O caso de Navalny demonstra que, na Rússia, se arrisca a vida ao lutar por esses valores fundamentais, referiu o político.

Lindner prestou homenagem a Yulia Navalnaya, afirmando que foi ela quem, após a morte do marido, “nos devolveu a coragem”. O governante acrescentou: “Ela lembrou-nos enfaticamente que é nossa responsabilidade lutar pela liberdade e justiça na Rússia.”

Foi precisamente isso que Navalny, Navalnaya e os seus companheiros fizeram, disse Lindner: “A Fundação Anticorrupção desafiou todas as restrições e tornou-se um símbolo forte da luta implacável contra a corrupção na Rússia.”

O ministro alertou, no entanto, contra julgamentos generalizados sobre o país dos premiados: “Como Alexei, continuamos a acreditar que a Rússia tem uma oportunidade e que a democracia prevalecerá a longo prazo.”

Revelações contra o autoritarismo

Alexei Navalny fundou a Fundação Anticorrupção em 2011. Em 2021, foi proibida pelas autoridades russas. Um ano depois, a equipa reestruturou-a como organização internacional para continuar a luta pela transparência e contra a corrupção na Rússia.

As suas revelações sobre as práticas da administração russa alcançam pessoas em todo o mundo. A organização partilha publicamente os resultados do seu trabalho no canal de YouTube de Navalny, onde mantém uma lista de supostos “corruptos e promotores da guerra”.

A fundação também documentou em vídeo as suas investigações sobre as práticas financeiras da elite russa no poder. O filme “Um Palácio para Putin”, produzido pela fundação e apresentado por Alexei Navalny, foi visualizado mais de 130 milhões de vezes.

Yulia Navalnaya também colabora com organizações internacionais de direitos humanos paraproteger prisioneiros políticos.

Acusações após a morte de Navalny

Navalny morreu em fevereiro de 2024 num campo de prisioneiros russo em circunstâncias não esclarecidas. Governos ocidentais e organizações internacionais culparam na altura as autoridades russas. Os familiares e simpatizantes do opositor falam de assassinato, especialmente porque Navalny sobreviveu por pouco a um envenenamento no verão de 2020, o que o deixou debilitado.

O ministro das Finanças Lindner repetiu no seu elogio o que já havia dito pouco depois da morte de Navalny: Que Putin mandou matar o seu crítico.

Há quem veja em Navalnaya o novo rosto da oposição russa, embora inicialmente ela não quisesse entrar na política.

Nascida em 1976, Navalnaya estudou economia em Moscovo. Conheceu o marido em 1998 durante umas férias na Turquia, casaram-se em 2000 e tiveram dois filhos. Yulia Navalnaya entrou pela primeira vez na política em 2013, durante a campanha do marido para a Câmara Municipal de Moscovo. Navalny ficou em segundo lugar, atrás do vencedor Sergei Sobyanin, e Yulia Navalnaya tornou-se a “primeira-dama” do novo líder da oposição.

Após o envenenamento do seu marido em agosto de 2020, Navalnaya lutou incansavelmente para que ele fosse tratado no hospital Charité, em Berlim. O médico Aleksandr Polupan disse à DW que a determinação dela foi crucial para que Navalny fosse transportado para a Alemanha, o que deu grande visibilidade pública ao caso.

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