Quem é “Bela” Malaquias, a única mulher a liderar um partido em Angola?

Florbela Malaquias é a única mulher em Angola que se deverá candidatar à Presidência. Em entrevista exclusiva à DW, diz que não é uma “Mamã coragem” e refuta também ser a líder de um partido que pretende dispersar votos.

Em entrevista exclusiva à DW África, Florbela Malaquias começa por se caraterizar: “Eu caraterizo-me como uma cidadã preocupada com os destinos do país”.

E como está o país?

“O país não está como deveria estar, porque tem todas as condições materiais e humanas para estar numa condição diferente daquela que nós estamos a observar”.

Florbela “Bela” Malaquias nasceu na província angolana do Moxico a 26 de janeiro de 1959. Foi militante da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), o maior partido da oposição no país. E combateu nas FALA, o braço armado da UNITA, durante a guerra civil.

Recentemente, publicou o livro “Heroínas da Dignidade”, um relato das suas memórias e experiências vividas na Jamba, antigo bastião do partido. Na altura, foi acusada de estar ao serviço do regime do MPLA com a tarefa de diabolizar a imagem do fundador da UNITA, Jonas Savimbi.

“É uma tentativa desesperada de apagar a história. Os cúmplices dos crimes estão aí. São os guardiões de uma falsa áurea de um líder que foi tudo aquilo que está no meu livro. Jonas Savimbi pode ter sido, nos primeiros momentos, uma pessoa razoável, só que às tantas ele transformou-se num sanguinário”, afirma.

Papel da imprensa

“Bela” Malaquias desempenhou as funções de jornalista da Voz da Resistência do Galo Negro (VORGAN), sedeada, na altura, na Jamba. Mais tarde, na Rádio Nacional de Angola (RNA), foi uma das principais vozes dos serviços noticiosos.

À DW África, revela que, em breve, terá uma rádio, uma estação mais ligada à formação.

Mas como está a imprensa angolana, sobretudo a pública? Para “Bela”, “a imprensa pública está alinhada a tudo aquilo que é projeto do partido que governa.”

A presidente do Partido Humanista de Angola (PHA) espera que, durante a campanha eleitoral, haja equilíbrio na imprensa, mas entende que os diferentes atores políticos e sociais devem estar atentos a possíveis irregularidades.

“E também fazer aquela pressão cidadã para que a imprensa esteja alinhada no sentido da democracia”, acrescenta.

Sistema judicial angolano

“Bela” Malaquias é formada em Direito pela Universidade Agostinho Neto. Atualmente, trabalha como advogada.

Sobre o sistema judicial em Angola, a política da oposição diz que “é um cancro”, porque “não permite o acesso à justiça, da forma como está estruturado.”

Terá sido por causa desse “cancro” que o partido de “Bela” Malaquias foi legalizado e o projeto político de Abel Chivukuvuku, por exemplo, foi “chumbado” pelo Tribunal Constitucional?

“Os nossos procedimentos, o processo seguido para legalizar o Partido Humanista de Angola, são os legais. Sobre a outra comissão, eu não tenho bases para fazer comentários”, garante.

Partido satélite?

Será o Partido Humanista de Angola um satélite do MPLA, visando apenas dispersar votos nas eleições de 24 de agosto, como se comenta na sociedade angolana?

“Eu não percebo essa narrativa de dispersão de votos, porque é contraditória e antagónica à pretensão do multipartidarismo. Os votos vão ser mesmo dispersos por todos os partidos que concorrerem porque não está perspetivada a orientação do voto para um determinado partido. [Caso contrário,] não seriam necessárias as eleições. Porque o oposto de dispersão é concentração”, responde a líder do PHA.

“Sociedade bipartidária”

“Bela” Malaquias desconfia que os dois maiores partidos no país querem construir uma “sociedade bipartidária”, com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) de um lado e a UNITA do outro.

Para Malaquias, “os cidadãos não querem mesmo o bipartidarismo porque não conseguiram dar aos angolanos aquilo que prometeram, nem um nem outro”. “E agora a juventude quer uma coisa nova: mais fresca, mais dinâmica, mais moderna, mais aberta e menos ortodoxa”, avalia.

Na quinta-feira, o Partido Humanista de Angola deverá entregar ao Tribunal Constitucional a sua candidatura às eleições. Se for aceite, “Bela” Malaquias será a única mulher a liderar um partido no escrutínio deste ano.

Será que a política também se considera a “Mamã Coragem” como foi apelidada Anália de Vitória Pereira quando liderou o PLD nas eleições de setembro de 1992?

“Não me acho ‘Mamã Coragem’, porque os tempos são outros. O meu móbil é outro. Agora já não é necessária coragem. Já estamos numa democracia, se bem que incipiente, mas já não amedronta aparecer como candidata às eleições”, conclui.

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