Terrorismo em Cabo Delgado: “A melhor alternativa é a união da SADC”

O terrorismo no norte de Moçambique está para ficar, alerta o especialista em política internacional Wilker Dias. É por isso que os países da região devem “juntar energias” para encontrar uma solução a longo prazo.

O terrorismo em Cabo Delgado é um dos temas em cima da mesa na 42.ª Cimeira Ordinária dos chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e vários líderes da África Austral reúnem-se hoje e amanhã na República Democrática do Congo (RDC), onde também está em destaque a mediação angolana do conflito entre Kigali e Kinshasa.

A permanência em Moçambique da Missão Militar da SADC (SAMIM), que desde 2021 apoia Maputo no combate aos insurgentes na província de Cabo Delgado, é um dos principais pontos da agenda. O futuro da missão “é ainda um enigma”, mas já se começa a sentir o peso financeiro que representa para os países da região, diz em entrevista à DW África o analista político Wilker Dias.

O especialista em política internacional alerta também que o regresso dos grandes investimentos no gás continuará a ser uma miragem enquanto o problema do terrorismo não for resolvido.

DW África: Os líderes da África Austral estão reunidos na República Democrática do Congo e a violência armada em Cabo Delgado é um dos temas em debate. Há especialistas que falam num fracasso militar na região. Concorda?

Wilker Dias (WD): Como um fracasso não, mas vejo uma espécie de reajuste da estratégia de segurança da própria região. Eu acredito que até mesmo a escolha da realização desta cimeira na RDC é um grande marco estratégico para apaziguar a situação, não só em Moçambique, mas nos outros pontos da região, que passam por situações conflituosas. Mas acredito que o sucesso que o grupo está a verificar neste preciso momento na região norte do país dá uma maior motivação para tentar compreender outros fenómenos na região.

DW África: Recentemente, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, enviou um recado aos investidores do gás ao afirmar que o terrorismo não termina e que a vida não pode parar em Cabo Delgado. Acha que terá sido também uma mensagem dirigida aos vizinhos da SADC para que as tropas continuem no norte de Moçambique?

WD: Sim, acredito que também é uma mensagem para os vizinhos, porque, a cada dia que passa, parece que vamos ter que nos acostumar com esta realidade. O terrorismo está aí. Não se encontram estratégias concretas para poder eliminar o terrorismo, e o que tem que se fazer é ir buscar alternativas.

Neste momento, a melhor alternativa é a união do bloco – não só com a Tanzânia, que é um país vizinho, não só com o Zimbabué ou a África do Sul, mas com todos países da região, que devem juntar energias para tentar encontrar melhores alternativas para debelar o terrorismo.

DW África: A SAMIM vai renovando provisoriamente a sua missão militar em Moçambique, mas o peso financeiro também começa a ser difícil para os países da região. O que acha que poderá acontecer a curto prazo?

WD: No caso da SAMIM, o futuro ainda é um enigma. Numa primeira instância, olho para a missão como um grande encargo para os países da região, a nível económico. Nós temos, por exemplo, as tropas do Ruanda, que parece que já têm apoio por parte de alguns países do Ocidente ou da própria União Europeia, mas no caso da SAMIM, ainda não há apoio de outros países – até então, a missão tem agido [apenas] com o apoio dos países pertencentes à região.

No panorama económico mundial atual, não vejo os países da região a suportarem [a missão] por muito mais tempo, a não ser que busquem alternativas para obterem um certo apoio financeiro, assegurando a continuidade operativa das forças na região de Cabo Delgado.

DW África: Há cerca de um mês, a SADC destacava os grandes progressos da missão militar em Cabo Delgado, mas ultimamente têm surgido notícias de que ganharam vigor as incursões de insurgentes em partes recônditas de vários distritos, como Macomia. Que avaliação faz destes desenvolvimentos?

WD: O conflito em Cabo Delgado vai mudando. Há um desenvolvimento estratégico por parte dos terroristas, em termos de ataque – eles vão pegando as tropas no terreno de surpresa.

Se formos a ver, até ao ano passado, verificámos uma incursão muito mais a norte da província, mas desde o início deste ano, os insurgentes mudaram de posição estratégica – os ataques têm ocorrido um pouco mais na região sul da província, contrariando a onda de estabilidade que Cabo Delgado verificava nos últimos tempos.

Estes ataques servem praticamente como um alerta sobre o principal interesse dos terroristas neste preciso momento – a inviabilização do projeto de gás em Cabo Delgado.

Parece que temos uma fragmentação dos terroristas, mas esta fragmentação não acabou criando uma desunião, porque há comunicação. Esses pequenos ataques vão ocorrendo para tentar trazer alguma desestabilização à continuidade dos grandes projetos existentes e até demonstrar que os insurgentes continuam vivos e, a qualquer momento, podem reagrupar e causar um dano maior do que tem se verificado até aqui.

DW África: Por isso é que, pelo menos neste momento, continua a ser uma miragem o regresso dos grandes investimentos associados ao gás natural?

WD: Exatamente, o que é uma pena para as pequenas e médias empresas que queriam ter alguma vantagem económica, [além do impacto negativo na] empregabilidade.

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