Terrorismo: Quão difícil é investir em Moçambique?

Moçambique é um mercado atrativo nomeadamente na área de energia. Mas a instabilidade na região norte, assolado pelo terrorismo, está a retrair investimentos no país.

O clima de instabilidade devido aos ataques de grupos armados que atuam sobretudo na zona norte de Moçambique, tem repercussão na relutância dos investidores em avançar com os projetos.

É esta a perceção de empresários com projetos de investimento neste país da África Austral, onde operam mais de 500 empresas portuguesas. Mas a Câmara de Comércio Portugal-Moçambique considera que não há razão forte para desinvestimentos por causa da situação em Cabo Delgado.

Para Diogo Lucas Pires, administrador da CABELTE, empresa portuguesa que está em Moçambique desde 2009 com uma presença já consolidada no mercado centrado na área da energia, espera que haja avanços para a paz.

“Obviamente que, enquanto a situação não estiver resolvida ou não houver um avanço claro no sentido da paz e no sentido dos mega projetos do gás avançarem de uma forma consistente, há sempre uma relutância muito grande da comunidade internacional em avançar para investimentos mais consistentes. E aí a nossa empresa também não foge a essa realidade”, considerou.

Apesar deste fator inibidor, acrescenta, quem gere os negócios a partir da capital, Maputo, e consegue manter a funcionalidade da sua rede de distribuição não está a ser afetado pela situação de instabilidade na região de Cabo Delgado.

“Apesar da situação, nós podemos dizer que o negócio, neste momento, não está a ser afetado por essa situação porque já nos adaptamos àquela realidade”.

O administrador reconhece que “Moçambique é um mercado bastante atrativo” onde ainda podem ser feitos muitos investimentos e negócios para que o país possa crescer e desenvolver-se.

Investir sem receios

Para Rui Motty, vice-presidente da Câmara de Comércio Portugal-Moçambique (CCPM), o ambiente político-militar na região de Cabo Delgado pode pôr em causa os desígnios da paz social indispensável ao investimento.

“É um problema que cria alguma instabilidade, mas aparentemente – e falo também como empresário porque tenho também um negócio em Moçambique – não tenho razão nenhuma para dizer que devo desinvestir ou reduzir todo o meu empenho. Pelo contrário, até vou fazer um investimento maior na área da ótica”, patenteou.

Os receios, sustenta, têm mais a ver com o panorama da economia mundial.

“São os da economia em geral. E os receios nem passam só pelo ecossistema económico de Moçambique, mas sim pelo ecossistema económico global. Estamos a viver momentos críticos neste mundo global”.

Ruy Motty diz, por outro lado, que não se pode esquecer as três fases subsequentes que afetam Moçambique, nomeadamente os impactos de ciclones naturais, a pandemia de Covid-19 e uma guerra na Europa com efeitos negativos enormes em todos os países.

“Portanto, Moçambique, obviamente por ser um país com maior fragilidade neste contexto económico, poderá debater-se com mais problemas se de facto a situação se agravar”, adianta.

No entanto, reforça que Moçambique ainda oferece “muitas oportunidades de negócio” em várias áreas e aconselha mais empresas a apostarem no país.

Cimeira luso-moçambicana

Na decorrência da recente cimeira luso-moçambicana e face à conjuntura mundial, Portugal reafirma o seu total interesse em que empresas portuguesas participem cada vez mais no esforço de crescimento económico e social de Moçambique. Palavras de João Neves, secretário de Estado português da Economia, que anunciou a criação entre os dois países do Sistema de Garantia Mútua, o qual vai permitir que o investimento privado em Moçambique seja mais forte.

“Há que construir instrumentos que permitam que o investimento privado em Moçambique possa ser mais contributivo daquilo que é o desenvolvimento económico. Temos claro também quais são as áreas de investimento que são prioridade para Moçambique e estamos certos que vamos em conjunto construir soluções para que esse movimento seja mais forte e mais consolidado”.

A estabilidade político-militar é fundamental, mas Ercília Mondlane, jovem moçambicana que concluiu mestrado em Gestão em Portugal, apela as empresas a investirem também nos recursos humanos, sem os quais nenhum projeto de investimento e de desenvolvimento terá sucesso pleno.

A recém formada gestora moçambicana foi uma dos oradores entre os participantes na Conferência de Apresentação do Diretório Moçambique, no auditório da AICEP em Lisboa, promovida pela CCPM, que debateu o investimento e o talento.

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