Tigray: Sobreviventes de guerra têm esperança num futuro melhor

Muitos sobreviventes da devastadora guerra do Tigray, na Etiópia, continuam otimistas, apesar das cicatrizes deixadas pelo conflito.

Aviso: Este artigo inclui relatos gráficos de abuso sexual que algumas pessoas podem considerar perturbadores.

Uma mulher de cerca de 70 anos está sentada no passeio em Mekele, a capital da região de Tigray, na Etiópia.

Levanta as mãos com as suas últimas forças a pedir moedas para comprar comida.

Depois de o sol se pôr e de as luzes dos tuk-tuks iluminarem as ruas, a situação torna-se ainda mais dramática. As ruas ficam repletas de crianças abandonadas, muitas delas com apenas três anos de idade, que tentam vender lenços e pastilhas aos passantes.

Antes do início da guerra em Tigray, a vida era bastante diferente para Kebedesh, de 42 anos, e para a sua família. Ela geria um pequeno hotel e também se dedicava a atividades agrícolas. Tudo corria bem e o futuro parecia brilhante.

Até que, a 4 de novembro de 2020, rebentaram os combates entre as Forças de Defesa Nacional da Etiópia e a Frente de Libertação do Povo de Tigray (FLPT). À guerra – que durou dois anos – juntaram-se mais tarde as forças da Eritreia e as milícias de Amara, para apoiar as forças governamentais etíopes.

Como começou a guerra de Tigray

Os confrontos eclodiram depois de os combatentes da FLPT terem atacado a principal base militar do Governo central em Mekele. O primeiro-ministro Abiy Ahmed prometeu esmagar a insurreição e ordenou uma ofensiva militar na região.

Antes, a Frente de Libertação do Povo de Tigray, que governava a região de Tigray, recusara-se a reconhecer o adiamento das eleições determinado por Abiy Ahmed devido à pandemia da Covid-19 e desafiou unilateralmente o primeiro-ministro, realizando eleições regionais em Tigray.

Além disso, a FLPT, que dominava a política etíope desde 1991, opôs-se fervorosamente às reformas de Abiy Ahmed, alegando que se tratava de uma tentativa de minar a sua influência.

Violação como arma de guerra

A 11 de dezembro de 2020, pouco mais de um mês após o início do conflito, quando Kebedesh e a filha de oito anos caminhavam por Kafta, uma zona rural perto da fronteira com a Eritreia, foram interceptadas por cinco soldados, quatro do país vizinho e um do Governo central. Um tradutor conta-nos o relato de Kabedesh.

“Os militares perguntaram-lhe: ‘Tens algum homem na FLPT?’ Ela disse que não,” recorda Kebedesh.

Os cinco homens violaram-na em grupo. Ao mesmo tempo, esfaquearam a sua filha e deitaram-lhe água a ferver no estômago para silenciar os gritos de socorro.

Depois de os homens se terem ido embora, Kebedesh reuniu todas as forças que lhe restavam e levou a filha gravemente ferida para uma base militar etíope para receber assistência médica.

Kebedesh está entre as cerca de 120 mil pessoas que foram sujeitas a violência sexual durante a guerra em Tigray, de acordo com o Instituto de Direitos Humanos da International Bar Association, uma associação de advogados internacionais.

“Algumas delas cometeram suicídio por causa do estigma”, disse à DW Yirgalem Gebretsadkan, chefe da unidade de Violência contra as Mulheres da Comissão de Inquérito do Genocídio de Tigray.

A vida no campo de deslocados internos

A vida de Kebedesh e da sua filha tornou-se incerta, depois daquele dia. Durante três meses, viveram num centro de pessoas deslocadas internamente em Adwa, tendo de lidar com condições sub-humanas.

Em Adwa, situada 160 km a norte de Mekele, vivem cerca de 40.500 pessoas. O Gabinete para os Assuntos das Mulheres de Adwa afirma ter registado 1.374 casos de violação – sendo 86 desses casos seropositivos, 72 dos quais crianças. O tradutor relata como Kabedesh mudou:

“O padre Luan [da missão Dom Bosco], responsável pelo centro religioso, selecionou dez mulheres para o programa de mulheres vítimas de violência sexual. Kabedesh vive neste lugar há quatro anos. Agora ela diz que está mais forte.”.

Desde então, Kabedesh tem partilhado um complexo de cinco quartos com dez pessoas que também sobreviveram a violência sexual.

Lidar com o trauma e o estigma

Quando a filha pequena, que acaba de fazer 11 anos, levanta a t-shirt, vê-se uma cicatriz enorme. A isso juntam-se os problemas de estômago de que padece desde a facada.

A rapariga frequenta uma escola privada paga pelo Centro Dom Bosco. Segundo a mãe, não tem amigos: “Por vezes, tem medo quando vai ao centro de estudantes, tem medo que alguém a volte a atacar”.

Para além de todas as experiências vividas nos últimos quatro anos, temem a estigmatização.

Tanto mãe, como filha vivem com medo de falar por causa do estigma e do assédio que a sociedade tende a impor aos sobreviventes de violência sexual. Temem serem excluídas da sociedade e obrigadas a abandonar a cidade.

Uma família separada pela guerra

O marido de Kebedesh fugiu no início da guerra, deixando-a com quatro filhos. Nunca mais se ouviu falar dele até há pouco tempo, quando chegou a notícia de que tinha morrido durante o conflito.

Kebedesh vive agora com três dos seus quatro filhos num quarto financiado pela associação Dom Bosco. O seu filho mais velho está no Sudão a combater com as Forças de Defesa do Tigray.

“Depois da assinatura do acordo de paz (em novembro de 2022), recebi uma carta dele, por isso sei que está vivo”, relata Kebedesh.

Esperança num futuro melhor

Apesar das profundas feridas físicas e psicológicas, Kebedesh e os seus filhos continuam a ter esperança, relata o tradutor.

“Ela sonha em abrir o seu próprio mini-mercado e quer mandar todos os filhos para a escola”, diz Kebedesh. “A sua filha sonha em ser médica para se ajudar a si própria e ao seu povo”, acrescenta sorrindo.

O Tigray foi palco de uma das guerras mais sangrentas do século XXI, com pelo menos 600 mil mortos e mais de um milhão de deslocados internos.

Apesar de um acordo de paz assinado pela FLPT e pelo Governo federal da Etiópia, em novembro de 2022, a situação em Tigray continua incerta, apesar do diálogo entre o Partido da Prosperidade (PP), no poder, do primeiro-ministro Abiy Ahmed, e a Frente de Libertação do Povo de Tigray.

Atualmente, Tigray enfrenta uma fome severa e pobreza extrema, com dezenas de milhares de civis a viver em campos de deslocados internos.

Esforços para consolidar o acordo de paz

A terceira reunião de diálogo teve lugar a 15 de maio, em Mekele. Estas discussões fazem parte do Acordo de Cessação das Hostilidades, assinado em novembro de 2022. Durante a sessão, ambas as partes concordaram em trabalhar para uma paz a longo prazo, abordando conjuntamente qualquer conflito emergente para evitar novas tensões, segundo relatos da imprensa local.

Um relatório do New Lines Institute, com sede nos EUA, publicado a 4 de junho, alega que existem provas irrefutáveis de que as tropas do Governo etíope cometeram atos de genocídio contra o povo do Tigray durante o conflito de dois anos.

O documento de 120 páginas refere-se a fontes credíveis, que indicaram que as forças governamentais e os seus aliados se envolveram em “atos que equivalem ao crime de genocídio”. Os autores pedem que o Governo da Etiópia seja levado ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) para responder às acusações.

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