Violência urbana diminui em França

A violência urbana em França desde a morte de um jovem 17 anos, pela polícia, diminuiu durante a noite de terça para quarta-feira. Foram registadas 16 detenções, o número mais baixo desde o início dos tumultos.

Os confrontos entre a polícia francesa e os manifestantes diminuíram novamente durante a noite, disse o Governo nesta quarta-feira (05.07), oito dias após o assassinato de um jovem pela polícia desencadear a pior violência urbana, em anos, no país.

A polícia permaneceu altamente mobilizada com 45.000 agentes a patrulhar as ruas, disse o Ministério do Interior. Um relatório nacional dá conta de 16 detenções e oito prédios queimados ou danificados na última noite. Em Paris e nos subúrbios, sete pessoas foram presas.

O Governo registou até agora um total 202 incêndios na via pública, incluindo caixotes do lixo, 159 viaturas incendiadas e quatro ataques a instalações da polícia.

Cerca de 45.000 elementos da policia e da guarda responsável pela manutenção da ordem pública foram mobilizados na terça-feira à noite. Nenhum ficou ferido, de acordo com o ministério.

Na terça-feira (04.07), as autoridades reportaram a nível nacional 3.625 pessoas colocadas sob custódia policial, incluindo 1.124 menores, desde o início dos motins. Entre eles, 990 foram presentes às autoridades judiciárias e 380 presos.

Macron promete “respostas fundamentais”

Esta terça-feira (04.07), o Presidente Emmanuel Macron manifestou-se “cauteloso” sobre a perspetiva de um regresso à calma no país, embora dissesse acreditar que o “pico” da violência havia passado.

Dirigindo-se a cerca de 302 presidentes da câmara de cidades particularmente atingidas pelos distúrbios, Macron prometeu “respostas fundamentais” e sugeriu multas para os pais de crianças flagradas a cometer atos de vandalismo ou roubo.

Mais de 1.200 das quase 4.000 pessoas presas desde sexta-feira são menores de idade, de acordo com o Ministério da Justiça. Além de atacar prédios do Governo, os manifestantes também visaram polícias, transporte público e veículos particulares, além de iniciar incêndios.

O chefe de Estado francês prometeu ajuda financeira às cidades para reparações relativas a “estradas, estabelecimentos municipais e escolas”.

Um legado do racismo colonial?

O episódio levantou a questão de como o assassinato de Nahel e a subsequente fúria que se espalhou pelas ruas está ligada ao racismo sistemático na sociedade francesa e ao longo do passado colonial do país.

Emmanuel Macron classificou o assassinato de Nahel de “indesculpável” e “inexplicável”. Uma descrição que não convence Crystal Fleming, professora de sociologia na Stony Brook University, em Nova Iorque. “Não é inexplicável. Não é um mistério. É racismo”, afirmou em entrevista à DW.

Fleming acrescenta que os protestos e motins após os tiros mortais disparados pela polícia foram “uma reação ao racismo francês que está ligado ao colonialismo”. Ambos, diz, são tipicamente negados e apagados [da memória coletiva] pelas autoridades e políticos franceses “apesar de séculos de opressão racial das minorias e populações colonizadas”.

A França foi uma das maiores potências coloniais da Europa. Do século 16 até a década de 1970, os seus líderes, como muitos outros no continente, acreditavam que sua “missão civilizadora” justificava a exploração forçada de países e territórios em todo o mundo.

Enquanto a revolução francesa em 1789 prometeu “liberdade, igualdade e fraternidade” a todos os homens franceses em França, nas colónias só se podia sonhar com direitos iguais. O quotidiano era marcado pela repressão. Homens e mulheres foram forçados a “assimilar” a cultura e a língua francesas.

Papel da França na Argélia

O papel da França na Argélia, em particular, continua a ser um tema muito delicado. O país do norte de África foi colonizado pela primeira vez em 1830 e depois integrado ao território nacional francês.

Quando a Argélia recuperou a sua independência, eclodiu uma guerra brutal que ceifou centenas de milhares de vidas, principalmente do lado argelino, e que acabou por levar ao fim do domínio francês em 1962.

Mais ou menos na mesma época, a França foi forçada a abrir mão do controlo das suas outras colónias também, principalmente devido ao sucesso dos movimentos de independência. No entanto, alguns territórios ultramarinos permanecem até o presente. E o país manteve a sua influência económica, política e militar nas ex-colónias, principalmente no continente africano, por exemplo, apoiando líderes autoritários.

O atual Presidente francês, mais do que qualquer outro chefe de Estado antes dele, reconheceu o passado colonial de França como um “crime histórico”. Prometeu devolver os artefatos roubados e criar comissões para investigar o papel da França na Argélia e durante o genocídio em Ruanda.

Mas críticos, como Crystal Fleming, afirmam que isso não é suficiente. A França, como muitos dizem, deveria assumir todas as suas responsabilidades pelo passado, por exemplo, quando se trata de reconhecer crimes cometidos durante seu domínio colonial.

No entanto, Macron afirmou que não pretende “pedir perdão” pelo papel de seu país na Argélia “pois isso quebraria todos os laços”.

“Governo continua a apresentar-se como não racista”

Elementos da sociedade francesa e livros escolares há muito argumentam que o colonialismo teve os seus aspetos positivos. Em 2017, a política de extrema direita Marine Le Pen disse que a colonização francesa “deu muito” às ex-colónias.

O facto de Le Pen ter chegado às eleições na segunda volta em 2017 e 2022 e ter oportunidade de se tornar o próximo presidente da França mostra o quão difundido esse pensamento ainda é.

Ao mesmo tempo, “o governo francês continua a apresentar-se como não racista”, diz Fleming. Na verdade, a França há muito se retrata como “daltónica”, o que significa que não reune censos ou outros dados sobre a raça de seus cidadãos.

No entanto, não é isso que muitos descendentes de imigrantes, como aqueles que estão a protestar agora, estão a vivenciar. “Há um problema de racismo sistemático na polícia francesa”, afirma Rokhaya Diallo, escritor e um dos mais conhecidos ativistas pela igualdade racial na França. O governo francês negou repetidamente essa acusação.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest