Cabo-verdiana retrata em livro a história da comunidade do bairro dos Húngaros

A cabo-verdiana Manuela Cardoso decidiu contar a história da comunidade dos cabo-verdianos, e não só, do bairro dos Húngaros, em Portugal, que durante muito tempo foi descrito pela comunicação social como sendo “problemático”.

À Inforpress, em Lisboa, a autora da obra “Pedreira dos Húngaros”, que é também assistente social, disse que a história também é dela, porque apesar de ter nascido na Cidade da Praia, veio ainda criança para Portugal, onde viveu com os pais nesse bairro de 1970 até 2000, quando resolveu viver no Reino Unido, onde reside até hoje.

“Este livro é para dar a conhecer um pouco da jornada da comunidade dos Húngaros e o que, na minha visão, significou crescer num destes bairros descritos na media como problemático e polémico, mas amado por muitos que aí viveram ou visitaram”, explicou, reconhecendo que a obra “não é sobre idealizar ou romantizar o que havia de errado nessas comunidades e que até hoje impactam na sua imagem”.

A autora afirmou que quis manter “a transparência em como toda a sociedade há partes negativas da vida em um bairro social”, mas que todos, até hoje, optaram por “ignorar o lado bom e positivo” dessas comunidades que continuam a dar a sua contribuição para o desenvolvimento da sociedade portuguesa.

“A publicação deste livro fez-se urgente, porque os mais jovens estão a tentar reconstruir a sua história, fazendo várias questões. Fiquei bastante emocionada ao ver que estavam a fazer uso da música, artes diversas e páginas das redes sociais para tecer a sua própria narrativa, tentando juntar os puzzles, mas também manter uma identidade e a união que sabiam fazer parte da sua herança”, sublinhou, acrescentando que a perda de “membros significativos” da comunidade, como é o cado do padre Henrique, a motivou a escrever.

“Eu espero que este livro faça justiça aos nossos amigos, senhores padres, aos nossos avôs e pais que foram os verdadeiros pioneiros dessas comunidades e dessa árdua luta, assim como agora os seus descendentes, em que alguns também embarcaram na sua própria jornada de emigração, como foi a minha experiência de viajar para o Reino Unido e ter uma visão nova de emigração num contexto completamente diferente”, frisou.

A escritora contou que já tem um programa para apresentar o livro em várias partes da Europa onde existe uma forte presença de emigrantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), como em Franca (Nice e Paris), Países Baixos (Roterdão), Alemanha (Berlim) e Luxemburgo, com convites de várias associações e projetos para continuar a divulgar e apresentar essa história.

Em Portugal, o lançamento está previsto para o dia 14 de Outubro, no Centro Cultural de Cabo Verde (CCCV) em Lisboa, em que Manuela Cardoso conta ter presenças de dignatários de Cabo Verde, incluindo o embaixador Eurico Monteiro, assim como no mesmo mês, irá participar em evento cultural numa associação do bairro da Amadora, no Casal da Pomba, e outros a confirmar.

Em Cabo Verde, já começou a fazer contactos para a apresentação da obra, especialmente no concelho de Santa Cruz, que considera ser o seu segundo berço, depois da Cidade da Praia, sobretudo porque muitos daqueles emigrantes a que se refere no livro vieram dessas localidades em Cabo Verde, como Pedra Badejo, Calheta, Engenho e Assomada.

O lançamento oficial da obra “Pedreira dos Húngaros” aconteceu em Agosto, em Lisboa, num evento fechado, com convites apensas aos familiares, amigos e residentes do antigo bairro dos Húngaros, organizado pela Chiado Books, do grupo Atlântico Editorial, responsável pela edição e publicação do livro.

“Mas não gostaria que os leitores aceitassem apenas as minhas palavras. Encorajo todos a lerem este livro com a mente aberta, com um desejo de fazer uma crítica construtiva e desenvolver a coragem para aceitar o desafio de escrever a próxima parte desta história”, concluiu.

Inforpress

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