Especialista em igualdade de género incita jornalistas a falar “de forma clara e sem preconceitos”

A especialista em género Catarina Marques Rodrigues considerou a igualdade de género em Cabo Verde “avançado” e incentivou os jornalistas a terem a responsabilidade de retratar o que passa no país nesta matéria “de forma clara e sem preconceitos”.

A fundadora da plataforma Gender Calling fez esta leitura em entrevista exclusiva à Inforpress no âmbito da sua participação na Semana de VBG no país, onde está previsto um encontro com jornalistas para debater o tema e o lançamento de um concurso para premiar peças jornalísticas que retratam questões de género.

“Cabo Verde tem avançado muito nos indicadores de saúde sexual, materna e reprodutiva. Há também cada vez mais jovens a estudar, a ir para a faculdade, a querer ter uma profissão que lhes dê liberdade financeira e que lhes dê poder para decidir sobre a sua vida”, disse, salientando que a pandemia contribuiu para alguns retrocessos, nesta matéria, devido à falta de apoios e sensibilização.

Devido a este retrocesso, defendeu a necessidade de voltar a “puxar” pela educação e pelo desenvolvimento das comunidades nesta matéria.

A jornalista, que afirma que a igualdade de género acontece quando homens e mulheres são livres e iguais naquilo que escolhem para a sua vida e para o seu futuro, admite ainda que isso só é possível quando se olha para “homens e mulheres” como pessoas com capacidades, que devem ter as mesmas oportunidades e o mesmo respeito.

Neste âmbito, garante que os desafios na busca de igualdade de género no trabalho, na família e na sociedade é uma tarefa para vários países do mundo, visto que as mulheres ainda não têm acesso às mesmas profissões nem ao mesmo salário que é dado aos homens.

“Ainda se espera que a mulher assuma a lida da casa e que tome conta das crianças, sem que o homem divida essas responsabilidades. Porque é que é assim? Se ambos vivem na casa, comem, sujam, se ambos são pais, então o trabalho deve ser dividido de forma igual”, interroga.

Seguindo esta ideia, Catarina Rodrigues questionou ainda que se uma mulher passa mais tempo com as tarefas domésticas, se ela engravida cedo e fica em casa a tomar conta da criança, deveria também ter menos oportunidades de continuar os estudos e de se dedicar a uma profissão.

“Isso vai comprometer a independência financeira dela e, por consequência, a sua liberdade. O principal desafio é derrubar as ideias feitas que temos sobre o que uma mulher deve ser e o que um homem deve ser, porque todas as pessoas devem ter oportunidade de ser o que quiserem, sem imposições só por causa do género com que se identificam”, realçou.

Questionada sobre qual o papel dos jornalistas nesta matéria, a fundadora da plataforma Gender Calling defendeu que os profissionais da comunicação social têm a responsabilidade de retratar tudo o que se passa no país “de forma clara e sem preconceitos”.

“É através do jornalismo que as pessoas sabem o que se passa no mundo e, portanto, não podemos ignorar as questões da violência doméstica, da violência no namoro ou da desigualdade de género. Temos de contar a realidade, de forma factual, e protegendo as pessoas que estão em causa. Estamos a falar da vida real de muita gente. Não podemos contar uma história em que vitimizamos ainda mais a vítima”, salientou.

Por este motivo considera o prémio para jornalista neste domínio “importante” visto que incentiva quem se dispõe a “mudar e a ir mais longe”, sublinhado por outro lado, que os jornalistas são responsáveis pela forma como se contam as histórias.

“Crescemos numa sociedade que nos transmitiu certas ideias, algumas delas preconceituosas e estereotipadas, portanto, quem se dispõe a desafiar essas crenças e a evoluir no sentido da inclusão e da igualdade está na linha da frente e deve ser distinguido”, afirmou.

Catarina Marques Rodrigues encontra-se em Cabo Verde no âmbito da IV Semana de Reflexão sobre a Violência Baseada no Género, organizada pela Associação Cabo-verdiana de Luta Contra Violência Baseada no Género (ACLCVBG). O evento acontece de hoje a segunda-feira, 23, com o alto patrocínio do Presidente da República e do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG).

A Semana de VBG em Cabo Verde, que terá abertura oficial, esta tarde, no município de Tarrafal, visa criar espaços de debates e reflexões internas, regionais e internacionais sobre a igualdade de género e o combate à VBG, contribuir para a emergência de novas respostas e estratégias para a consolidação dos ganhos, e traçar novas perspetivas de prevenção e de combate.

Do programa de atividades consta o workshop em Comunicação Alusiva e o Happy Hour “Boas práticas jornalísticas na comunicação sobre a violência contra a mulher”, a ser ministrado pela jornalista Catarina Marques Rodrigues, também Embaixadora para os Direitos Humanos do ID-Europa, do Parlamento Europeu.

Inforpress

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