Agenda Africana: O poder tradicional e religioso e a política na Guiné-Bissau

A Guiné-Bissau vai a votos a 4 de Junho, nas eleições legislativas antecipadas.

A seis meses da votação, debate-se, em determinados círculos de opinião, se o poder tradicional e as entidades religiosas devem participar em actividades políticas e partidárias.

Nesta edição da Agenda Africana, a VOA registou opiniões de alguns cidadãos, com muitos a apelarem os líderes tradicionais a se distanciarem das atividades políticas.

O jurista Fransual Dias, além de fazer um enquadramento geral do chamado “poder tradicional”, foi revistar a história e a Constituição da República para lembrar a responsabilidade que lhe é atribuído na sociedade guineense.

“O poder tradicional é visto na tripla dimensão, nomeadamente, de um soberano, de um juiz e de um sacerdote. Isso permite ao poder do estado conseguir concretizar determinadas políticas públicas, porque nós temos que enquadrar a implicação do poder tradicional apenas no âmbito da execução das políticas públicas e não no âmbito das outras dinâmicas, nomeadamente, da política partidária”, afirma Dias.

O antropólogo e jurista Fodé Mané,recua no tempo para definir o real papel do “poder tradicional” na Guiné-Bissau, desde a época colonial até abertura democrática no princípio dos anos de 1990.

Apesar da Constituição da República não definir expressamente os limites do “poder tradicional” na política activa, o jurista Fransual Dias afirma que os líderes tradicionais não deviam estar a envolver-se nas acções políticas partidárias.

“O envolvimento do poder tradicional na política activa não é possível, ao menos, naquilo que diz respeito a identidade cultural respectiva. Mas estranhamente temos tido, nos últimos tempos, a conversão de alguns chefes tradicionais em militantes de determinados partidos políticos”, diz Dias.

Mas, para justificar o actual cenário, em que se regista o claro envolvimento dos líderes tradicionais na política, sobretudo nos períodos eleitorais, o antropólogo Fodé Mané aponta possíveis razões.

“Perdeu a possibilidade de aquisição de meios económicos e financeiros, mas continua a ter obrigação de fazer certas cerimónias de realizar certos rituais, isso fragilizou o poder tradicional. E como alternativa, teve que aproximar-se das pessoas que têm recursos. E as pessoas com recursos no nosso país são os que têm acesso ao poder. Então foram obrigados a aproximar-se delas, não só para ter recursos, mas para poderem ter alguma voz e poder, por exemplo, em fazer a justiça, distribuir a terra, sob monopólio do estado. Também com a introdução da forma, quase comercial, de captação de votos para busca do poder, foram obrigados a apoiar determinados líderes políticos”, apontou Mané.

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