Quatro anos depois, pneumologista alerta que reforço da vacina contra a covid-19 é necessário

A médica pneumologista Ofélia Monteiro, disse em entrevista ao Balai, que a nível mundial a vacinação foi a melhor ferramenta usada no combate à pandemia da covid-19.

A 19 de março de 2020, Cabo Verde registava o primeiro caso importado de covid-19, na ilha da Boa Vista, de um turista inglês de 62 anos que viria a falecer. Dali em diante, o número de casos disparou tendo chegado aos 64467 casos positivos acumulados, 63.981 casos recuperados e 416 óbitos.

Quatro anos depois, o SARS-Cov-2 deixou de ser classificado como pandemia e transformou-se num vírus endêmico, ou seja, continua a circular em todos os países causando aumento de casos em certas épocas.

Segundo a médica pneumologista Ofélia Monteiro, que desde o início integra a equipa do combate à covid-19 do Hospital Universitário Agostinho Neto, a vacinação foi crucial para o controlo da pandemia.

A nível mundial a vacinação foi a melhor ferramenta que tivemos, caso contrário não seria possível controlar a pandemia tão rapidamente como aconteceu e não teríamos os resultados que tivemos”, diz e realça que esta é a primeira vez que foi criada uma vacina num curto período de tempo.

“A (OMS) declarou a 11 de março de 2020 a covid-19 como uma pandemia e em dezembro temos a primeira pessoa vacinada a nível mundial, que foi no Reino Unido, e em Cabo Verde cerca de um ano depois (no mês de março). Este é um facto inédito e que nos permitiu controlar a pandemia rapidamente e reduzir o número significativo de mortos.”

Apesar de várias pessoas não terem aderido à vacinação, Cabo Verde foi reconhecido como um país com uma das maiores taxas de vacinação. “Somos o segundo país em África com a maior taxa de vacinação. Conseguimos uma taxa superior a 80 por cento e temos a população protegida.”

Por se tratar de um vírus novo, Ofélia Monteiro diz que a covid-19 trouxe muitas incertezas, mas ao mesmo tempo levantou desafios que lhes permitiu reorganizar.

“Todo esse aprendizado que a covid-19 proporcionou permitiu-nos melhorar várias abordagens e hoje em dia até replicamos o que aprendemos na pandemia em outras situações. A doença agora é endémica, mas temos que continuar a vacinar ou seja temos que ter o mesmo pensamento que temos com os outros vírus que circulam, nomeadamente o da gripe que é recomendado a vacinação das populações vulneráveis e das pessoas com mais de 65 anos ou com as doenças crónicas como diabetes, doença cardíaca, renal e pulmonar.”

A pneumologista mostra-se preocupada com o facto de a população não estar consciente de que deve reforçar a vacinação da covid-19 periodicamente.

“Acho que a população não está tão ciente disso e é preciso passar a mensagem de que é necessário continuar a reforçar a vacinação da covid-19. Este ano implementamos a vacinação da gripe nas estruturas primárias e nos centros de diálises dos hospitais para o grupo de risco e também é necessário fazer o mesmo com a vacinação contra a covid-19”, diz e adverte que os profissionais de saúde devem oferecer a dose de reforço sempre que um doente de risco procure os centros de saúde.

A especialista alerta que não se deve baixar a guarda porque ainda há registo de casos de covid-19 no país. “Nessa altura não temos registado um número significativo de casos, mas nos meses de outubro e novembro houve um pico.”

No que tange aos pacientes que ficaram com sequelas graves da doença, Ofélia Monteiro diz que a nível pulmonar ainda há pacientes que estão em seguimento, já a nível renal tem sido revertida a lesão.

Replicar a Unidade de Cuidados Intensivos em São Vicente

Em maio de 2022, foi inaugurado a Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Agostinho Neto (HUAN), que custou mais de 100 mil contos, uma estrutura que segundo Ofélia Monteiro deve ser implementada sobretudo em hospitais terciários, visto que tem um custo significativo.

“Temos que oferecer uma saúde igual para todos os cabo-verdianos, não é porque uma pessoa nasceu no Maio que tem que ter menos saúde do que uma que nasceu na Praia e com isso é preciso ter um sistema de emergência pré-hospitalar que garante a transferência de doentes em segurança e com o suporte necessário. Seria necessário, claro, criar uma Unidade de Cuidados Intensivos no Hospital Baptista de Sousa (HBS), em São Vicente. Isto tudo tem que ser depois equiparado com o orçamento do Estado e da Saúde porque os recursos têm que ser distribuídos.”

Segundo a pneumologista, o Hospital Baptista de Sousa dispõe de um serviço especializado que faz atendimento a doentes com disfunção multiorgânica, mas não tem a mesma estrutura e os mesmos serviços da existente na HUAN. “É preciso melhorar o que existe no HBS para equiparar aquilo que temos em Sotavento, pelo menos para ter duas Unidades de Cuidados Intensivos, uma em Sotavento e outra em Barlavento.

Questionada sobre qual é o aprendizado que se pode tirar da pandemia da covid-19, Ofélia Monteiro responde: “Cuidar melhor da nossa saúde”.

“Todos viram que o impacto da covid-19 foi sobretudo nas pessoas com doenças crónicas descompensadas. Por exemplo, a covid-19 aflige de uma forma muito intensa os doentes diabéticos, mas os diabéticos que tinham a doença compensada não tiveram repercussão tão deletéria como os que estavam com a doença descompensada. Portanto, o apelo que faço é que cuidemos melhor da nossa saúde, façamos seguimentos regulares e a medicação de forma correta, bem como sigamos as recomendações preventivas como a vacinação.”

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