RDC: Saída da MONUSCO “deixaria um vazio na segurança da região”

Os protestos violentos contra a MONUSCO na RDC já fizeram mais de 20 mortos. Os relatos sobre as mortes divergem. Analista aponta que a saída imediata da missão de paz da ONU do país “deixaria um vazio na segurança”.

Na República Democrática do Congo, subiu para 22 o número de mortos nos protestos contra a missão da ONU no país. Segundo o Governo, os confrontos dos últimos dias, na província de Kivu do Norte, entre manifestantes e forças de segurança e da MONUSCO, resultaram na morte de 16 civis, um membro do exército, um “capacete azul” marroquino e dois polícias indianos das Nações Unidas. Pelo menos 67 pessoas ficaram feridas, de acordo com o balanço oficial.

O Governo reforçou a segurança no terreno e a ONU anunciou a abertura de uma investigação aos ataques contra as suas instalações. Os relatos sobre a causa das mortes divergem.

Ouvido pela DW, o ativista dos direitos humanos Mapendo Kusudi aponta o dedo às Nações Unidas. “Certos elementos da MONUSCO dispararam balas reais contra os manifestantes em Goma e Butembo. Denunciamos as violações dos direitos humanos por parte dos capacetes azuis e alertamos a comunidade internacional”, disse.

A MONUSCO, no entanto, diz que os manifestantes “arrancaram” armas à polícia congolesa e atacaram as forças de manutenção da paz.

População está frustrada

Jack Kahorha, jornalista em Goma, sublinha que ainda não é claro quem disparou, entre o contingente da ONU, a polícia e o exército congoleses. Certo, afirma, é que a população está frustrada com a atuação dos capacetes azuis no país.

O mal estar aumentou após uma declaração do presidente do Senado, Modeste Bahati Lukwebo, que visitou Bukavo e Goma e disse que a presença da MONUSCO não faz sentido.

“Lukwebo queixou-se do facto de a missão da ONU ter passado 22 anos no país sem acabar com nenhuma guerra ou grupos armados no leste da RDC. Outra razão para a frustração dos congoleses é que um alto oficial da MONUSCO disse que o grupo rebelde M23 está demasiado bem equipado e o exército nacional e a MONUSCO não são capazes de os enfrentar”, diz Kahorha.

Aumento da violência

O leste da RDC, rico em recursos minerais, é palco de violência há décadas. Mas nos últimos meses assistiu-se a um aumento acentuado dos massacres de civis, pilhagens e destruição de casas. Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, só em junho, 97 civis foram mortos em ataques na região. E cerca de 700.000 pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas desde o início de 2022.

A MONUSCO é uma das maiores missões de manutenção da paz do mundo, com mais de 16.000 oficiais. Mas enfrenta muitas dificuldades.

Segundo o diretor para a RDC da iniciativa Open Society, Nick Elebe, “a missão está sujeita a vários desafios, como a falta de colaboração com as autoridades civis e militares congolesas, a disponibilidade de recursos para enfrentar os grupos armados e a estratégia em constante mudança destes grupos”.

“É importante abordar a situação de segurança de forma holística, envolver diferentes atores para discutir questões desde o desenvolvimento, à segurança, reparação e justiça”, defende.

E o analista alerta que a saída imediata da MONUSCO, tal como exigido pelos manifestantes, “deixaria um vazio no quadro de segurança da região”.

Algumas vozes apelam à intervenção das forças regionais africanas para resolver o conflito de Kivu, lembrando que a chegada de centenas de soldados ugandeses à RDC, no ano passado, teve um impacto positivo no combate aos grupos armados.

A abordagem regional, no entanto, incluiria o vizinho Ruanda. E Kinshasa e Kigali têm estado em permanente conflito, acusando-se mutuamente pela insegurança na região.

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