Salinas de Santa Maria dá vida a mineiros que do sal dependem para sobreviverem

As salinas de Santa Maria, circundadas por belas dunas de areia, produzem o sal para diferentes pontos do país, fruto da mão-de-obra, ainda que num sistema tradicional, de uma dezena de produtores que ali laboram.

Fundada em 1830 para a produção e exportação do sal, segundo reza a história, a Vila de Santa Maria transformou-se hoje numa cidade turística das mais emblemáticas de Cabo Verde, impulsionada pela construção de grandes cadeias hoteleiras, o que fez desaparecer a maioria das minas deste mineral, já que muitos hectares estão completamente absorvidos por hotéis e casas edificadas no topo.

Ainda assim, esta tradição ancestral persiste, como meio de sobrevivência de muitas famílias que dela dependem, ganhando arduamente a vida, quer em sistema de cooperativa informal, quer por conta própria, na extração e produção do sal, de que é um verdadeiro exemplo Joaquim Pedro Soares, que, apesar dos seus 70 anos cravados no corpo, continua a laborar nas minas do Sal.

Entrevistado pela Inforpress, disse que iniciou a prática desta atividade desde 1967 e que na altura trabalhava para terceiros, por troco de 72$00 semanais, razão pela qual durante um certo tempo abandonou a extração deste mineral pela vida do pescador, auferindo 300$00 mensais numa fábrica.

Depois de uma mudança para São Vicente como marítimo, contou, regressou para nos últimos 15 anos abraçar definitivamente as salinas, onde tem instalada uma poltrona para descansar, sobre a qual observamos um maço de cigarro, garrafa-termo para cafés, bóias de água e uma humilde cobertura de plástico para se proteger do sol.

A paixão pela atividade, confessou, nasceu de forma esporádica, sendo que para se ganhar um dia de trabalho teria de fazer cerca 80 voltas de carrinhos do Sal, até que hoje em dia trabalha por conta própria, extraindo e produzindo o sal a Noroeste da de Santa Maria, produto que depois é vendido para uma fábrica privada a troco de 20.000$00 por camião.

“É um trabalho incerto, porque a venda depende da procura e a produção depende da chuva. Se for bom ano agrícola, a produção é alta, mas com a escassez das chuvas a produção diminui, consideravelmente”, explicou enquanto laborava, num dia de muito sol e ventania, amontando o sal, que de longe parece castelos cristalinos e que desperta atenção de qualquer transeunte, quer seja turista, ou não.

O sal trabalhado e lavado, quando esbranquiçado, explicou, é vendido e vai diretamente à fábrica para ser moído e preparado com iodo para a sua comercialização e utilização, não só na ilha, mas sobretudo para outros pontos do arquipélago.

As salinas, segundo Joaquim Sorares, continuam a ser pontos de romaria dos turistas, de entre curiosos que visitam a localidade, deixando alguma recompensa aos produtores.

Pela sua localização geográfica a escassos metros do mar e numa achada descampada, Soares disse que a área carece de um muro de protecção, mas que se trata de um investimento que ultrapassa as capacidades dos que ali labutam, de forma incansável, opinião corroborada pelo santantonense

Domingos António da Luz, mais conhecido por Xuxu, 43 anos, dos quais 15 ligados à extração do sal.

Disse que através de conhecimentos obtidos juntos dos demais trabalhadores de salina, ganhou a prática a e a paixão pela atividade, e que desta profissão tem feito a vida, construindo a sua família, vivendo inclusive numa modesta habitação construída ao redor da salina de Santa Maria.

Confessou que chegou a abandonar esta profissão, dada a dureza de extrair sal e pouca recompensa, mas que por falta de alternativa adequada regressou à base, vendendo quando aparecer compradores, sendo que diariamente labora de manhã à tarde, com proteções inventadas, como toucas, botas, mas sem quaisquer seguros de riscos ou para cobrir eventuais despesas em casos de doença.

“É um bocado cansativo, mas já estamos habituados a isto tudo”, referiu Xuxu, enquanto aponta para montinhos do mineral que deu o nome à esta ilha pequena, plana, e de areia branca, pela sua abundância e com um toque de paisagem lunar.

Inforpress

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