Seis trabalhos distinguidos com Prémio Nacional de Jornalismo 2025

Segundo o júri, foram recebidos e avaliados 43 trabalhos, 22 do Audiovisual, 3 da Rádio e 18 da Imprensa Escrita.

Edneia Barros, Samira Furtado, Daniel Almeida, Cristina Morais, Soraia Deus e Nazaré Barros são os profissionais vencedores do Prémio Nacional de Jornalismo 2025 e das respectivas menções honrosas. Os resultados foram anunciados esta segunda-feira, dia 4 de maio, na sede da Associação dos Jornalistas de Cabo Verde (AJOC), na cidade da Praia.

Segundo o presidente da AJOC, Geremias Furtado, apesar dos “jornalistas não trabalharem para o prémios, até porque o prémio do jornalista está na diferença que vai causar no dia-a-dia”, nem sempre existe a consciência de que o jornalismo é um trabalho e o que Prémio Nacional de Jornalismo Cabo-verdiano representa essa valorização.

Num total 43 trabalhos recebidos e avaliados pelo júri liderado pela jornalista Marilene Pereira, sendo 22 são do Áudio Visual, 3 da Rádio e 18 da Imprensa Escrita.

Na categoria Rádio, foram submetidos 3 trabalhos e a vencedora foi a jornalista da RCV Edneia Barros, com a reportagem “Infância sem colo. Filhos da partida: O preço invisível da emigração” e a Menção Honrosa foi para a jornalista da Rádio Educativa, Samira Furtado, com a reportagem “Inclusão Escolar em Cabo Verde, um direito que ainda não chega a todos”.

“O trabalho de Edneia tocou-nos profundamente, machucou-nos por dentro. Ela tratou um tema que é invisível mesmo, que ninguém vê. Mas eu sou uma pessoa que anda pelo interior de Santiago e tenho visto como essa ilha tem sido despovoada, como faltam adultos. E o fato de crianças ficarem sós, sem ter ninguém para educá-las a não ser um bisavô, isso compromete dramaticamente o futuro deste país”, afirmou a jornalista Marilene Pereira.

Já na categoria de Imprensa Escrita, foram submetidos 18 trabalhos e o primeiro lugar foi atribuído à reportagem “Contrato com a CV-Interilhas vira caso de Polícia“, do jornalista Daniel Almeida, publicado no Jornal da Nação a 7 de agosto de 2025.

Conforme Geremias Furtado, “um trabalho de investigação jornalística profunda (…) onde o júri apreciou o rigor da investigação que incide na falta de transparência de contratação pública e coloca luz nos problemas que não foram estabelecidos perante a opinião pública”.

A menção honrosa foi para a jornalista Cristina Morais, do Balai Cabo Verde, pela reportagem “Cabo-verdianos na Argentina: Um legado que resiste ao tempo“, publicada em 27 de fevereiro de 2025. “O artigo traz uma abordagem histórica e, apesar da dificuldade, o desafio e da resistência ilumina um pouco a rota da Argentina, que ficou na escuridão desde os idos do século passado”, conforme descrição do género.

Na categoria Audiovisual foram submetidos 22 trabalhos e a escolha não foi fácil. O primeiro lugar foi para a jornalista da ACI Soraia de Deus com a reportagem “Litoral à venda”, divulgado pela RTP África, “um tema particularmente sensível no contexto atual caracterizado pela construção excessiva no litoral”. O trabalho denuncia situações de legalidade duvidosa com anuência ou com a miopia das autoridades”.

A Menção Honrosa na mesma categoria foi para jornalista da TCV, Nazaré Barros, com a reportagem “Pirâmide da Ilusão”, transmitida no dia 30 de novembro, “com elevada profundidade jornalística realizada para desmascarar as fake news que conjuga a parte meramente noticiosa com a literacia financeira”.

Um jornalismo que incomoda é sinal que está a funcionar

Em declarações à imprensa, o jornalista Daniel Almeida, que já venceu quatro vezes o PNJ, considerou o prémio “um estímulo” e uma valorização do trabalho desenvolvido, sublinhando, no entanto, que mantém “os pés assentes no chão” e o compromisso com um jornalismo ao serviço do país. Para o jornalista, a profissão desempenha hoje “uma função importante (…) de controlar e orientar os outros poderes”.

O autor da investigação sobre a CV Interilhas destacou ainda que pratica “um jornalismo que incomoda”, focado em “ir buscar as verdades, mesmo que doam”, admitindo ter sido alvo de ataques, inclusive nas redes sociais, mas garantindo que vai continuar a exercer a sua função.

Sobre o contexto atual, marcado pela descida de Cabo Verde nos índices de liberdade de imprensa, alertou para o aumento de ataques a jornalistas, incluindo por figuras ligadas ao poder político, considerando que isso contribui para minar o ambiente mediático. Na mesma, defendeu que as reportagens que geram desconforto são sinal de que “o jornalismo está a funcionar”.

Já Edneia Barros, que chegou a vencer uma menção honrosa noutra edição do PNJ, afirmou que o prémio tem “um sabor especial”, por resultar de um trabalho aprofundado sobre “um tema sensível” que envolve crianças em situação de vulnerabilidade. A jornalista da rádio destacou o impacto social da emigração, sublinhando que muitos filhos ficam ao cuidado de avós ou familiares, numa realidade que “muitas vezes passa despercebida”.

Na reportagem, evidenciou também os desafios enfrentados pelos avós, confrontados com mudanças sociais e geracionais, bem como as dificuldades dos pais emigrantes em regularizar a sua situação para reunirem a família.

“Este prémio é uma responsabilidade. É um tema ao qual pretendo dar continuidade, sob outros ângulos, e tentar trazê-lo para o debate público. (…) Somos jornalistas, mas também somos cidadãos, e devemos estar ainda mais atentos aos problemas sociais. O nosso papel é esse: dar voz a quem realmente precisa”, afirmou a jornalista.

Balai Notícias

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