Dia Mundial dos Oceanos: Bióloga-oceanógrafa critica falta de navio oceanográfico e de investimentos na formação

A bióloga-oceanógrafa da Universidade Técnica do Atlântico (UTA) Corrine Almeida considerou hoje que Cabo Verde, por ser 99 % mar, deveria ter mais investimentos na formação de capacidades locais e em equipamentos para estudos nos seus mares.

Corrine Almeida falava à Inforpress a propósito do Dia Mundial dos Oceanos, que se celebra hoje.

Segundo a docente da UTA, num país que se diz ser 99 % mar, não há um oceanógrafo físico especificamente para investigação oceânica, porque, explicou, os que existem são voltados para a área mais biológica.

“Principalmente, num país oceanico, você não ter um navio oceanográfico, mesmo que esteja fazendo monitoramento uma vez por mês ou uma vez a cada seis meses, é crítico”, considerou Corrine Almeida, que criticou também a “falta de investimentos” em recursos humanos.

Citou o facto de existirem no país vários biólogos na área Marinha, mas não há outros formados com vertente nas áreas Geológica, Química e Física, e até mesmo em Oceanografia Operacional, que é uma área nova que se fala “bastante actualmente”.

“As construções que se fazem, sejam de portos, geralmente estão associadas a elas estudos de impacto ambiental, mas muitas vezes depende-se de uma empresa estrangeira para fazer esses estudos de impacto ambiental. Então, precisamos desenvolver capacidades a nível local, não somente para fazer esse tipo de estudos, mas para fazer outros estudos”, lançou.

Para a bióloga-oceanógrafa há necessidade de formar pessoas para realizar outros estudos, por exemplo, estudos de base, que permitam que se conheça melhor a dinâmica dos sedimentos e a dinâmica das correntes para que, quando se pense numa determinada intervenção, não se tenha por base somente os estudos de impacto ambiental.

“Não havendo pessoal especializado nessas áreas-chave que eu mencionei, para estudo de correntes, para estudo de dinâmica de sedimentos, parece-me que assim você terá uma deficiência na capacidade de dar determinadas respostas, de identificar determinados potenciais impactos e tomar medidas evidentes. Então, essa questão de formação é extremamente importante”, considerou.

Conforme a docente, há um programa de mestrado em Mudanças Climáticas e Ciências Marinhas, na UTA que tem as componentes Física, Biológica, Geológica e Química “não tão fortes”, mas que poderia ser aproveitada para disponibilizar mais bolsas.

“O programa WASCAL (West African Science Service Centre on Climate Change and Adapted Land Use) oferece uma bolsa por ano, mas através de alguma entidade nacional, poder-se-ia oferecer mais, se de facto nós entendemos um país cuja estratégia de desenvolvimento dependa muito do desenvolvimento do sector marinho e marítimo”, reiterou a mesma fonte.

Segundo a bióloga, o país precisa de fomentar maior formação, tanto a nível de licenciatura, como mestrado e também a nível de doutoramento, e precisa também implementar a investigação.

“Temos o Instituto do Mar (Imar) que vai fazendo um esforço, mas quanto é que é investido no Imar para fazer investigação? Nós não temos há vários anos um navio oceanográfico em operação. Então ,de facto, para que possamos dizer com clareza que determinadas mudanças climáticas têm afectado os oceanos é preciso investigação”, argumentou.

Apesar de reconhecer que se tem trabalhado no desenvolvimento de algumas políticas ligadas às mudanças climáticas e ligadas à penetração de energias renováveis, como forma de adaptação a essas mudanças, Corrine Almeida considera que Cabo Verde precisa “fazer mais para se conhecer mais”.

“Conhecer para poder tomar medidas. Por exemplo, em vários países está-se trabalhando na montagem de sistemas de alerta precoce, porque a frequência desses eventos extremos, da passagem de uma tempestade tropical ou então de uma ondulação mais forte, vem aumentando”, exemplificou.

Segundo a mesma fonte é preciso ter um monitoramento contínuo, mas, neste momento, o país não tem capacidade técnica internamente para o fazer.

O Dia Mundial dos Oceanos celebra-se a 08 de Junho e foi decretado em 2008 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, ainda que já fosse celebrada em muitos países desde 1992, desde a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que teve lugar no Rio de Janeiro, neste ano.

A necessidade de celebrar este dia prende-se com a urgência de sensibilizar o mundo para os benefícios dos oceanos e também o dever de utilizarmos os recursos de forma sustentável, já que as gerações futuras também vão depender dos oceanos.

Este ano, o tema desta comemoração é “Incentivar a ação para o nosso oceano e o clima”.

Inforpress

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