Figueira das Naus, uma localidade onde mulheres se uniram em prol das boas práticas sociais e ambientais

A localidade de Figueira das Naus, no município de Santa Catarina, é uma localidade onde, desde 2009, um grupo de mulheres tomou frente numa associação local para impulsionar o desenvolvimento social e as boas práticas ambientais.

Quem nos conta esta história é Auxilia Borges, antiga tesoureira e atual presidente da Associação dos Amigos de Figueira das Naus, constituída por homens e mulheres, mas a um dado momento os homens deixaram de participar nas reuniões e tomadas de decisões, o que levou as mulheres a tomarem frente e a liderarem a associação que agora é composta somente por mulheres e passou a denominar-se Associação das Mulheres de Figueira das Naus.

Em 2009 quando decidiu dirigir a associação informou que eram cerca de 60 mulheres, mas neste momento são somente 45 e, mesmo assim, continuaram com os princípios traçados inicialmente, como a contribuição do desenvolvimento da comunidade, mas também ações de cariz ambiental que envolvem mulheres e homens de todas as idades.

A associação sempre correu atrás de financiamentos para modificar a comunidade, tendo sido realizadas obras e projetos que segundo a dirigente trouxeram um “impacto positivo” para a comunidade, como a construção de cisternas familiares, apoios na ligação de água na rede domiciliar, apoio aos jovens desempregados para darem continuidade aos estudos, entre outras.

Na parte ambiental, Auxilia Borges assinalou que conseguiram, juntamente do Ministério da Agricultura e Ambiente e outros parceiros, desenvolver algumas ações que mudaram por completo as suas vidas, a forma de pensar e agir diante do meio ambiente.

É que por ser uma comunidade rural, vive praticamente da agricultura de sequeiro e da criação de gado, sem se esquecer que é uma zona que fica nas imediações do Parque Natural da Serra Malagueta.

Em ações concretas a nível do ambiente, a líder relembrou que, junto do projeto de reforço da capacidade de adaptação e resiliência do sector florestal em Cabo Verde (Reflor-CV) trabalharam na restauração de 30 hectares de terras degradadas, incluindo a produção e fixação das plantas endémicas, florestais e frutíferas, os respetivos trabalhos de conservação de solo e água, com os materiais e equipamentos próprios.

“Com este projeto mudamos completamente a forma de trabalhar, pois agora sabemos o que fazer e como fazer para deixar o solo protegido, desde a anulação das queimadas, monda com enxada, entre outras ações que degradam o solo”, disse a moradora e líder.

Neste momento, informou que já finalizaram um trabalho na reparação das estradas florestais e caminhos vicinais do parque natural de Serra Malagueta e que vão iniciar a limpeza da floresta.

Estas ações, conforme sublinhou, diminuem os combustíveis que se encontram na floresta, evitando assim, caso surgir algum incêndio, de esse se propagar em grandes dimensões porque o local vai estar limpo.

Aliás, falando em incêndio, revelou que todos os moradores dessa localidade deixaram de praticar queimadas há mais de um ano, tendo em conta o trágico acontecimento no Parque Natural de Serra Malagueta a 01 de Abril de 2023 que queimou vários hectares de terrenos e até houve perda de vidas humanas.

Nas ações com fito para o bem ambiental, a preservação do lixo é também uma das preocupações da comunidade, envolvendo todos, desde os mais pequenos, pois, essa associação, como garantiu, não tem servido somente para desenvolver obras, mas que também trabalha na formação dos moradores, com diversas ações de formação, pese embora, a pandemia da covid-19 tenha quebrado um pouco este ritmo.

“A associação tem contribuído para a unificação e desenvolvimento de Figueira das Naus”, disse com “orgulho”, reforçando que ela mesma se sente responsável pela comunidade.

Recentemente, informou que estão com um novo projeto para tentar driblar a falta de emprego e oportunidades, onde a associação entregou a 10 famílias um casal de porcos cada, e ao reproduzirem cada família vai beneficiar outra família, assim sucessivamente.

Para além das várias dificuldades ditadas pela falta de água para o consumo humano e para os animais, Auxilia Borges assinalou que não têm deixado de lado a essência, porque já sabem que quanto mais más ações praticarem mais o planeta vai sofrer.

Embora consciente de que as boas ações que tentam praticar para preservar a natureza e diminuir os impactos das alterações climáticas são quase nulas diante da dimensão do planeta, é de opinião de que se todos começarem a fazer o mínimo que seja, cada um na sua comunidade, os efeitos positivos vão surgir também.

E é neste sentido que esta líder comunitária deixa um apelo a todas as mulheres, principalmente as líderes comunitárias para manterem o foco e lutarem sempre pelo bem da comunidade, mas não descurando das preocupações mundiais como a questão das alterações climáticas, pois, “os efeitos já são uma realidade e cabe a cada um trabalhar para mudar o cenário”.

“As mulheres têm força, basta acreditar e seguir adiante”, finalizou a líder comunitária.

Esta reportagem foi originalmente produzida para a Inforpress, no âmbito do projecto Terra África, implementado pela CFI – Agência Francesa de Desenvolvimento dos Media.

Inforpress

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