Luís Barbosa e Luísa Freire, dois professores que apesar dos desafios não escolheriam outra profissão

Com anos de carreira como professores, os dois docentes, um do ensino primário e outro do secundário, compartilham em entrevista ao Balai as experiências e desafios enfrentados no ensino cabo-verdiano.

Luís Barbosa e Luísa Freire são dois professores cabo-verdianos que descobriram a paixão pela profissão desde cedo e hoje com décadas de experiência falam dos desafios atuais na educação e sobre como foi lecionar no programa educativo “Aprender e Estudar em Casa”, durante a pandemia da covid 19.

Hoje com 22 anos de carreira como professor, Luís Barbosa é natural da ilha do Fogo e vive na Cidade da Praia há alguns anos. Este ano completa três anos à frente da direção da Escola Secundária Constantino Semedo, em Achada São Filipe, onde leciona as disciplinas de Cultura Cabo-verdiana e História para os alunos do 12.º ano.

Conta que em 2000 ingressou no Instituto Pedagógico, onde teve o seu primeiro contacto com a área da educação. Um ano depois, foi para o Instituto Superior de Educação, ISE, atual Universidade de Cabo Verde, fazer licenciatura em História. Foi nesta época que surgiu a paixão pelo ensino e um ano depois Luís começou a trabalhar como professor.

Explica que estando nesta área os educadores têm que abraçar alguns desafios e que hoje tem sido mais difícil. “Posso dizer que a minha principal estratégia para lidar com as situações desafiadoras na sala de aula é conhecer bem e dialogar com os meus alunos, sempre tento ter a maior proximidade com eles e evitar criar barreiras”.

“Sempre lidamos com turmas que têm alunos com personalidades e necessidades diferentes e no meu caso tento conhecer melhor e entender as necessidades pessoais, porque às vezes deparamo-nos com alunos com dificuldades sociais, financeiras, entre outras, e eu como professor sempre tento analisar onde posso ajudá-los”, diz.

Já para as necessidades pedagógicas, explica que nem todos os alunos têm a mesma capacidade de aprendizagem e que tenta encontrar estratégias para incluir a todos. O mesmo acrescenta que já teve alunos com necessidades especiais (baixa visão) e que a estratégia que adotou foi arranjar documentos em braille e também dar antecipadamente os documentos necessários para que o aluno se pudesse preparar para as aulas.

O docente lamenta que a sociedade não esteja a encaminhar os adolescentes da melhor forma, o que resulta em indisciplina e na ausência de pais na escola e também numa crise a nível de valores. Apesar de salientar que estes desafios não foram um obstáculo pessoal, pois sempre que possível entra em contacto com os encarregados de educação para que estes possam resolver e encaminhem os jovens ao Gabinete de Educação da escola.

Por outro lado, Luísa Freire, mais conhecida por Isa, começou a trabalhar sem formação na área como professora eventual na Escola de Achada Grande em 1992. Depois desistiu de dar aulas naquela época para frequentar uma formação no Instituto Pedagógico.

Natural da ilha de Santiago, hoje com 52 anos, conta em entrevista ao Balai que após dois anos de formação pedagógica, em 1997 regressou às salas de aula como estagiária na Escola Básica de Lavadouro. Atualmente leciona o primeiro ano na Escola Básica de Capelinha.

Os 30 anos de carreira já pesam e Isa confessa que não é fácil lidar com comportamentos de alguns alunos. “Uma das maiores dificuldades que os educadores enfrentam é trabalhar com um número excessivo de alunos, antigamente já trabalhei com uma turma composta por 40 alunos, mas na época conseguia lidar com a situação, mas hoje devido à idade avançada tenho algumas limitações”.

Experiência da plataforma educativa “Aprender e Estudar em Casa”

A chegada da pandemia da Covid 19 trouxe novos desafios também para o mundo da educação. Luís Barbosa e Luísa Freire foram dois dos professores selecionados para lecionar no programa promovido pelo ministério da Educação “Aprender e Estudar em Casa”.

De acordo com Luís, o mesmo ficou muito surpreso quando recebeu o convite, visto que a nível de Cabo Verde, e principalmente do concelho da Cidade da Praia, existem excelentes professores.

“No momento que recebi o comunicado estava em casa a preparar a matéria para enviar aos meus alunos e recebi uma ligação da direção do ministério da Educação a perguntar-me qual seria a minha disponibilidade de ir gravar aulas, fiquei espantado, mas aceitei porque não tenho medo de enfrentar os desafios”, adiantou.

No programa educativo lecionava a disciplina de História e revelou que durante todo o processo de gravação não teve dificuldades em se adaptar a este formato de ensino. “Recebi vários elogios da organização por ser um dos professores a ter um dos tempos mais curtos ao gravar, visto que outros professores tinham cerca de 2 horas a gravar e eu fazia num tempo muito mais curto”.

“Hoje carrego uma boa bagagem e no futuro poderia gravar aulas e colocar no YouTube para os meus alunos consultarem se por acaso estiverem com dúvidas. Após esta experiência, posso dizer que estou pronto se for chamado de novo para lecionar neste formato”, afirmou.

Já a professora Isa conta que recebeu uma ligação por parte da Direção Nacional de Educação e que logo aceitou sem pensar duas vezes.
A mesma diz que foi selecionada para lecionar o primeiro ano e na época tinha uma orientadora brasileira que os acompanhava durante o processo de preparação e gravação.

Lembra que cada ano era representado por uma cor. “O primeiro ano era da cor amarela, segundo de laranja, terceiro de vermelho e o quarto ano era da cor azul”.

Isa conta que não teve muitas dificuldades para se adaptar e que conseguia lidar muito bem com as câmaras e que gravava as aulas com facilidade e num curto período de tempo. Adiantou que na época recebeu muitos elogios da organização, dos colegas e dos pais por ter se adaptado com facilidade e também pela sua espontaneidade.

“A minha ideia era apresentar algo diferenciado e com muita criatividade, então investia muito nos materiais para que as minhas aulas pudessem ser mais interessantes e atrativas”, acrescentou.

Situação laboral dos professores cabo-verdianos

Questionados sobre como avaliam a situação laboral da classe docente, o professor do secundário diz que concorda com as reivindicações e o aumento salarial, mas que é contra um aumento na proporção de 36% que alguns professores estão a solicitar, visto que Cabo Verde não tem condições financeiras para este aumento. “Se o Governo der este aumento acredito que depois de dois meses não vamos receber nenhum salário e corremos o risco de ter colapsos financeiros”.

“É preciso que todos os sindicatos se unam para resolver os problemas dos professores e acredito que esta situação não foi resolvida ainda porque não existe uma união entre os sindicatos e alguns grupos de professores”, acrescentou.

Ainda adiantou que os professores deveriam consciencializar-se de que o aumento na proporção que estão a pedir nem um país mais desenvolvido não seria possível de dar e se adotassem outras estratégias seria mais fácil negociar com o ministério da Educação.

Já por outro lado, a professora primária diz que concorda com as reivindicações e justifica que o salário que recebem não é usufruído só nas suas necessidades individuais. “Várias vezes usamos o nosso salário para cobrir as despesas dos materiais dos alunos e também dos equipamentos que nós professores precisamos para ter boas condições de trabalho e arcamos com as responsabilidades que deveriam ser do ministério”.

Apesar das dificuldades enfrentadas, Isa Freire afirma que gosta muito desta área. “Não procuro ser outra coisa que não professora. É uma profissão que faço com garra, amor, determinação e carinho”.

“Hoje posso dizer que esta profissão é a minha vida e não quero ser mais nada se não ser professor e se eu voltar nas outras encarnações exercerei a mesma profissão”, afirma por seu lado Luís Barbosa e acrescenta que os seus objetivos enquanto professor são contribuir para melhorar o ensino em Cabo Verde e explica que a sua maior gratificação a nível de educação não é o valor monetário que recebe, mas sim “quando vê os ex-alunos formados e no mercado de trabalho”.

Cidália Semedo/ Estagiária

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