São Vicente: Coordenadora do gabinete de vítima de VGB pede maior atenção aos primeiros sinais de relacionamento abusivo

A coordenadora do gabinete de apoio às vítimas de violência baseada no género (VBG) da Polícia Nacional, no Mindelo, pediu hoje mais atenção aos primeiros sinais de um “relacionamento abusivo” para evitar casos “mais graves”. 

Elsa Almeida falava à Inforpress, em São Vicente, à margem do dia de São Valentim, dia dos Namorados, comemorado hoje, e garantiu que os casos de atendimento a vítimas de violência no namoro são “muito poucos” e os que são atendidos no gabinete acontecem, normalmente, quando o relacionamento termina.

“Também nos poucos casos que temos atendido relacionados com adolescentes que relatam violência no namoro, em quase todas a questão da invasão de privacidade no telemóvel está presente e os namorados querem sempre ver o que a companheira tem feito e com quem esteve a falar no telemóvel”, explicou a psicóloga, adiantando que no mês de Janeiro atenderam dois casos e em ambos os telemóveis foram destruídos pelos namorados.

Casos esses, que, segundo a mesma fonte, demonstram “alguma falta de respeito pela liberdade do outro”, que está “bem patente nos jovens-adolescentes”.

Uma situação que, explicou, a equipa do gabinete sempre tem tentado combater com a prevenção através de palestras feitas nas escolas.

Daí, o apelo para que se tenha atenção aos primeiros indícios de violência num relacionamento.

“Ver quando o companheiro ou companheira começa a reduzir o seu espaço de ir e vir, fazer muitas perguntas sobre o seu percurso, não de uma forma positiva, e a impedir de conviver com a família e amigos”, alertou.

Por outro lado, alertou Elsa Almeida, diante de uma primeira ameaça focada, de forma verbal ou com armas, deve-se sempre procurar a polícia, que sempre ajuda, “até nos pequenos conselhos que dá”.

Isto porque, advogou, as relações entre homens e mulheres “precisam ter uma outra abordagem na actualidade, por forma a desconstruir a visão de antigamente, em que era normal uma mulher apanhar do marido”.

A psicóloga mostra que um relacionamento entre duas pessoas deve ser “negociado”, com cedência de ambas a partes e baseado no “respeito mútuo” para evitar chegar ao extremo, até de morte, como os vários casos de feminicídio relatados nos últimos tempos.

Contudo, quando se em fala em VGB, não é somente mulheres e Elsa Almeida assegurou que o gabinete tem atendido queixas de homens, embora poucas, mais relacionadas com a violência psicológica.

“Temos tido alguns homens que vêm cá e dizem fazer isso para não chegar ao ponto de responder a agressão da companheira e quando isso acontece o procedimento é igual, chamamos a suposta agressora para saber os detalhes e aconselhar a parar com as agressões”, disse.

Um lado masculino que também tem feito a estatística do serviço de apoio à vítima, que, no último trimestre de 2021, atendeu 43 casos que foram encaminhados ao Ministério Público e 41 de queixas de conflitos que “ainda não constituem matéria crime”, mas que são seguidos pela Polícia Nacional. Nos mês de Janeiro, foram 12 encaminhados ao Ministério Público e nove de conflitos a serem seguidos.

O perfil das vítimas, segundo a mesma fonte, são mulheres de baixa renda, donas de casas e empregadas domésticas, na sua maioria, e com uma média de idade entre os 30 e os 50 anos.

Elsa Almeida, em paralelo ao trabalho feito na polícia de ordem pública, coordena em São Vicente o projecto da Associação Djuntu pa Igualdade, que tem por objectivo empoderar, cada vez mais, mulheres vítimas de VBG.

“A intenção é empoderar essas mulheres, elevar a sua auto-estima e fortalece-las no sentido de aprenderem a gerir melhor aquela situação que estão a viver”, sustentou a mesma fonte, adiantando que neste momento já trabalha com 21 mulheres que devem ser acompanhadas até Junho.

O trabalho tem sido feito através de reuniões bi-mensais em que se desenvolvem “várias actividades”, até de caminhadas e sessões de defesa pessoal.

Mas, a psicóloga defende que também deve ser feito um trabalho com os supostos agressores, logo na fase embrionária, que acredita que poderá surtir “melhor efeito”.

Inforpress

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