Tigana deixa o futebol federado depois de 21 anos a “espalhar perfume” futebolístico

O internacional cabo-verdiano João Tigana decidiu pendurar as chuteiras depois de 21 anos de atividade ao mais alto nível em clubes cabo-verdianos, angolanos e dos EUA, assim como na seleção, em que acumulou títulos coletivos e individuais.

Dotado de uma técnica considerada invulgar pelos especialistas, aliada a “dribles perfeitos, grande precisão de passe, capacidade de remates, de assistência aos mais dianteiros e, faro próprio para golo”, Tigana resolveu colocar o ponto final na sua carreira futebolística, após “uma harmonização com a família e amigos mais próximos”, para se dedicar inteiramente à sua vida familiar e à profissão de docente.

“Tudo tem um início e um fim. Tomei esta decisão, de forma ponderada, até porque o desgaste nos últimos tempos era grande em conjugar a minha atividade futebolística na cidade da Praia e do professorado em Assomada”, sintetizou o médio campista, que encerrou a sua carreira com o título de campeão de Santiago, com seu Sporting da Praia.

Pendurou as chuteiras com um currículo considerado invejável, fruto de seis campeonatos de Cabo Verde, todos conquistados ao serviço do Sporting Clube da Praia, oito campeonatos regionais de Santiago, dos quais seis com o emblema leonino, um com os Travadores e um outro com o Boavista da Praia, uma Taça de Cabo Verde, e Taça de Santiago no Sporting e Travadores e uma Supertaça e, títulos individuais como o de Melhor Jogador de Cabo Verde de 2002 e de Santiago.

O jogador, que se considera realizado e que começou a jogar oficialmente na Várzea aos 16 anos, no Boavista da Praia, lançado pelo treinador Tó Lobo, para logo depois rumar aos Travadores, donde no ano seguinte se dirigiu quase que definitivamente para Sporting da Praia, disse estar satisfeito, não só pelos títulos alcançados, mas por se “tornar um exemplo para os mais jovens”.

“Para além de jogar futebol, tentei ser uma pessoa mais próxima em termos de aconselhamento, fatores importantes para o desenvolvimento do futebol”, realçou Tigana, que elege como um dos pontos altos da sua carreira “o feito extraordinário” de participar na Liga dos Campeões Africanos ao serviço do Sporting da Praia, onde defrontou o FAR Marrocos e o Inter de Luanda (Angola) e na seleção de Cabo Verde na Taça Cabral na Guiné Bissau, onde marcou o golo 1-2 de Cabo Verde.

Marcado por “grandes treinadores, fantásticos e grandes homens” ao longo destas duas décadas, Tigana, enaltece técnicos que destacou a sua geração como Felisberto “Beto” Cardoso, obreiro do tetracampeonato de Cabo Verde, 2005/06 a 2008/09.

Homenageado pelo Governo com a Medalha de Mérito Desportivo, Tigana não esconde “alguma tristeza” por ter ficado praticamente às portas do profissionalismo nos EUA, onde uma doença abortou o que parecia ser uma ascensão na sua carreira no Chicago Fire e da sua passagem efémera pela seleção nacional, com 10 internacionalizações, cuja presença assídua na época foi reivindicada pela comunidade desportiva.

Licenciado em Educação Física, pai de três filhos, Tigana considera-se estável e realizado, pelo que agradece a Deus pelo dom lhe proporcionou, de tal modo que aconselhou os mais jovens a aliarem o futebol com a formação e a não se ficar “pelas contratações do imediato, para se precaver o futuro”, avisando que “em Cabo Verde o futebol não tem reformas”.

Nesta hora da despedida dos relvados, como “profissional do futebol” nesta urbe, Tigana, a quem o pai registou com o nome de jogador de nível mundial, em homenagem ao francês, apontou a Inforpress jogadores que marcou a sua geração com o “guerreiro capitão” Loloti, o táctico  Dário Furtado e Yannick Stopira, pela sua humildade.

Nascido e criado na localidade de Achada de Santo António, um dos grandes viveiros do futebol deste país, Tigana apontou nomes como “grandes jogadores do passado e até hoje” com que inspirou a sua carreira como Lemos, Tazinho, Né, Já di Santa, Cotche, Juca, Toy Best de entre vários, consciente que deu o seu contributo para o futebol de ASA e de Cabo Verde.

“O futuro?  A Deus pertence!”, disse o eterno camisola 10, sem levantar a ponta de véu sobre o seu projeto pessoal, avisando, contudo, que o desporto continua a ser a sua vida.O fim de carreira de Tigana foi lamentado por aquele que vincou o seu nome enquanto um “estratega nato e malabarista”,  já di Santa, para muito um dos melhores médios criativos do futebol cabo-verdiano da sua geração, que, por sinal acompanhou toda a sua carreira.

Conhecedor do futebol, Já di Santa não hesita em apontar Tigana como o melhor futebolista de Cabo Verde e de Santiago da sua geração”.

“Santiago e Cabo Verde perde um grande jogador federado e um grande atleta de posição 10”, asseverou Já di Santa, que se mostra orgulhoso pela referência, ao mesmo tempo que lamenta a falta de aparição nos últimos tempos de jogadores de nível de Tigana nesta localidade da Praia.

Inforpress

 

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