Vidro e plástico reciclados dão origem a vários outros produtos em São Francisco

Vasos, chaveiros, puffs, brincos, pentes, frascos ou azulejos são alguns dos produtos que nascem na Ekonatura, através da reciclagem de vidro e plástico em Cabo Verde, que funciona 100% a energia solar.
Reprodução Facebook

A Ekonatura foi criada em 2019, em São Francisco, uma aldeia a leste da cidade da Praia, capital de Cabo Verde, no âmbito do projeto Raiz Azul, financiado pela The Darwin Initiative, do Reino Unido, e implementado pela Associação Cabo-verdiana de Ecoturismo (ECOCV), em parceria com a Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

Mas só no início do ano foi oficializada como empresa de recolha de garrafas de vidro e plásticos em toda a comunidade para triturar e depois dar forma a vários objetos decorativos, bijutarias e materiais para construção civil.

“Fazemos vasos com área de vidro e cimento branco para decoração, porta-copos com plástico, blocos e pavês para construção civil e bijutarias”, enumerou João Ferreira, gestor do centro e presidente da Associação Comunitária de Desenvolvimento de São Francisco, localidade a cerca de 10 quilómetros da Praia.

Todo o processo começa com a recolha das garrafas nas casas, ruas e lojas da comunidade de São Francisco e arredores, mas também empresas de cerveja e de produção de água e refrigerantes que fornecem diretamente os resíduos à Ekonatura.

Até ao momento, segundo avançou à Lusa o gestor, a fábrica já produziu quase 100 toneladas de areia através do vidro triturado. “É um volume enorme de garrafas”, salientou o responsável, especificando que para se ter quatro quilos de areia de vidro é preciso uma caixa com 24 garrafas de 33 centilitros.

Quanto às garrafas de plástico pet, disse que a empresa já triturou cerca de 500 quilos, em que são precisas 14 garrafas de cinco litros para produzir apenas um quilo.

“É um trabalho de extrema importância, sobretudo para diminuir a quantidade de lixo no ambiente e sensibilizar também as pessoas para terem uma ideia de separação e tratamento do lixo”, salientou o empresário, lamentando, porém, a falta de apoios em Cabo Verde para este tipo de iniciativas sustentáveis.

Segundo o gestor, o mercado cabo-verdiano é pequeno, e as pessoas ainda não têm sensibilidade suficiente para comprar materiais feitos com o lixo reciclado, mas entende que se isso acontecesse iria ajudar na sustentabilidade da própria Ekonatura.

Outra particularidade da empresa comunitária é o facto de as máquinas funcionarem 100% à base de energia solar, uma autoprodução que é superior ao consumo, sendo, por isso, injetada na rede elétrica.

“Só para se ter uma ideia, estamos com um saldo positivo em relação à empresa e um saldo negativo em relação à Electra [empresa de produção e distribuição de eletricidade], ou seja, a Electra é que nos deve”, disse o gestor da empresa, que conta com sete colaboradores, sendo três mulheres e quatro homens, todos moradores em São Francisco.

Uma delas é Zinha dos Santos, mais conhecida por Eunice, que começou há três anos como voluntária, e com alguma ansiedade relativamente à ideia, mas agora mostra-se feliz por ver menos lixo nos contentores, nas ruas e nas encostas da localidade, que tem recebido visitas de muitas pessoas, nacionais e estrangeiros, para conhecer de perto o processo de reciclagem, a produção e o impacto ambiental.

“Agora não estou ansiosa, agora estou feliz porque estamos a transformar o nosso lixo em luxo”, notou a moradora, que deixou de ser voluntária para ser funcionária da fábrica, recebendo um salário mensal, tal como os colegas.

“Estamos a dar um grande contributo para o ambiente, para a comunidade e para todo o Cabo Verde”, salientou Zinha, que quer ver mais pessoas e localidades a aderir a este tipo de projetos.

Quem abraçou a ideia desde o início foi a Associação Cabo-verdiana de Ecoturismo (ECOCV), que já tinha desenvolvido um projeto semelhante em Rincão, no norte da ilha de Santiago, mas numa comunidade mais pequena e apenas para recolha de garrafas de vidro para transformar em areia para construção civil.

Entretanto, após um encontro em 2019 com o presidente da Associação Comunitária de Desenvolvimento de São Francisco e membros da comunidade, a associação decidiu desenvolver o projeto, para reduzir o plástico e o vidro que eram em grande quantidade nessa zona.

“Notamos que alguns ‘workshops’ e ações de sensibilização não são suficientes, e decidimos avançar para ações práticas, com recolha de lixo para fazer reciclagem”, recordou a vice-presidente da associação, Edita Magileviciute, tendo observado depois que o problema é “muito maior”, estendendo-se a toda a cidade da Praia.

Por esse motivo, não tem dúvidas sobre a necessidade da criação de mais pontos do género em outras localidades. “O objetivo foi criar um protótipo para mostrar que reciclagem de plástico e de vidro pode funcionar em Cabo Verde, mesmo nas comunidades”, indicou.

Além da redução desses resíduos no meio ambiente, a vice-presidente da ECOCV destacou a criação de empregos nessas comunidades, pelo que a receção em São Francisco não poderia ser melhor.

“Agora quase 85% a 90% das casas já reciclam, já entregam garrafas de vidro e de plástico para o ecocentro para reciclagem e ao mesmo tempo podemos mostrar produtos que fazemos com esses materiais reciclados”, salientou Magileviciute, para quem as ações práticas são os melhores exemplos para sensibilizar as comunidades para uma gestão sustentável dos resíduos sólidos em Cabo Verde.

Lusa

 

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