Web Summit, uma ponte que liga Cabo Verde ao mundo tecnológico

Na primeira semana de novembro, dez startups cabo-verdianas vão marcar presença na maior conferência tecnológica da Europa. O Balai conversou com os representantes destes projetos e todos são unânimes em afirmar que a Web Summit é uma oportunidade de promover o arquipélago, bem como os seus projetos tecnológicos.

Nesta terceira participação na Web Summit, Cabo Verde vai estar representado por empreendedores de cinco ilhas, nomeadamente, Santiago, São Vicente, Sal, Fogo e Maio.

As 10 startups são: Agritech Lda – com o projeto Agritech, o Banco do Tempo LDA – também com o projeto homónimo Banco do Tempo, a Syntaxy Lda – com o projeto Afrikan coders , Touris Travel Talks LDA – com o TourisTravelTalks, Dev Go Lda – com a iniciativa EZ2ID (Easy To Identify) , CaboVerdeTour LDA – com o CaboVerdeTour, J5 Developer CV – com o projeto Emigrante CV ,VALE.CV Lda – com o VALE, Cartec LDA – com o Panha Bentu e a Pratex Lda – com projeto homónimo Pratex (que vai estar pela segunda vez após ter ganho um concurso).

J5 Developer CV – Projeto Emigrante CV

Segundo Nelson Varela, um dos mentores da J5 Developer CV, o projeto Emigrante CV surgiu em 2021 “e visa ser o canal principal de ligação entre os emigrantes, os residentes e os emigrantes e entre os emigrantes e as instituições do país, de uma forma fácil e segura”.

“Todos sabemos dos problemas que os emigrantes enfrentam quando pretendem enviar uma encomenda para Cabo Verde, ou quando pretendem Investir no país ou, por exemplo, para construir uma casa, alugar um apartamento, alugar uma viatura, comprar “encomenda d’terra”, etc., bem como na relação entre os emigrantes e as instituições, que na maioria das vezes só é possível quando os emigrantes estão de férias, tendo em conta que a maioria das instituições não tem uma presença digital, ou seja, há falta de informação centralizada e focada na comunidade emigrada”, explica o engenheiro informático que desenvolveu o projeto ao lado de dois colegas também eles emigrantes: Aquilino Correia, licenciado em Contabilidade, e Eder Correia, Mestre em Medicina Dentária.

Por isso, a plataforma Emigrante CV quer “permitir a troca de bens e serviços entre os emigrantes e os residentes; a entrega de encomendas. “Através dessa plataforma, qualquer pessoa pode simplesmente adicionar a encomenda, o valor de comissão que pretende pagar e os emigrantes recebendo uma notificação podem optar por trazer, entre outros serviços. Mas também ajudar os emigrantes a investir no país, através de processos de consultoria e ser um canal de comunicação dedicado aos emigrantes”.

Cartec LDA – “Panha Bentu”

Ambos formandos em Engenharia Mecânica pela Universidade de Cabo Verde, Sónia Monteiro e Fredilson Furtado são os mentores da “Panha Bentu”. O projeto surgiu na Universidade em que os dois estudantes foram “desafiados a apresentar um projeto no âmbito da disciplina de Projeto Mecânico do 3° ano que tivesse impacto no setor automotivo e, posteriormente, veio a ser o tema do projeto final de curso orientado pelo professor universitário Wilson Monteiro”, explica Sónia.

Os jovens foram selecionados para a 3ª edição da Bolsa Cabo Verde Digital, durante a qual e tiveram a mentoria da Unitel T+, e mais tarde foram “uma das 10 startups selecionadas a se apresentar no DemoDay” e ainda foram selecionados para participar na Web Summit 2022.

“Acreditamos ser um passo importante visto que ampliaremos a nossa visão na questão digital e, quiçá, conseguiremos investidores que acreditam e queiram apoiar a nossa startup, ganhando maior visibilidade e, ao mesmo tempo, podemos obter ou conhecer ferramentas importantes para o crescimento desta”.

VALE.CV 

Chris Rocha, Yanick Évora, Fred Delgado, Laura Livramento e Elton Morais são os promotores da VALE.CV, uma startup que traz ao mercado uma plataforma (Site) de venda de experiências nas mais variadas áreas, num formato de vouchers com desconto.

“Através de um encontro que acontecia religiosamente todos os sábados de manhã, na cidade do Porto em Portugal, e depois de várias ideias em cima da mesa, nasceu então, nos finais de 2018, o projeto VALE.CV. Desde o início, o objetivo principal com esta ideia era de aproximar o cabo-verdiano do seu país (…) Viu-se neste modelo de negócio uma oportunidade de dar a conhecer aos cabo-verdianos as atividades existentes no seu país, como também, por outro lado, dar uma visibilidade maior aos pequenos negócios de forma que estes possam aumentar as suas vendas”, explica Yanick Évora.

Segundo a mesma fonte, “estes vouchers são títulos que dão direito ao comprador de usufruir a sua experiência quando quiser, dentro das condições do mesmo, e podem também ser oferecidas como presentes.”

CaboVerdeTour

A startup CaboVerdeTour também surgiu no meio universitário em 2019, na Universidade de Cabo Verde. Leonardo Fernandes, Célia Cruz e Gilberto Melo criaram a startup com o objetivo de promover a “digitalização dos museus de Cabo Verde.” “Com essa virtualização, se permite vivenciar momentos históricos, explorando o recinto em três dimensões (3D), através de dispositivos moveis, desktop, plataformas web e óculos, com a compatibilidade da tecnologia de realidade virtual e aumentada”, explica
Leonardo Fernandes acrescenta que a ideia é proporcionar “experiências de imersão física e presença psicológica, dando a sensação para o utilizador estar presente num museu, numa exposição de artes (tendo a possibilidade de compra virtualmente)”.

Por isso a CaboVerdeTour pretende “criar a transmissão de valores culturais dos acervos dos museus; fornecer a aprendizagem, lúdica, educativa, e reflexivas dentro do contexto Cultural patrimonial; contribuir para que os museus candidatem para à classificação de Património Mundial; promover a identidade da cultura Cabo-Verdiana e dar visibilidade às obras de arte dos artistas, aumentando para a possibilidade de compra; etc.

DevGo Lda – EZ2ID (Easy To Identify)

Segundo Gil Pires, a DevGo surgiu em meados de 2018 quando os mentores Christian e Marvin cogitaram criar uma empresa que pudesse criar soluções e softwares para casas inteligentes (smart homes), bem como novas ideias de softwares que pudessem ser integradas com os produtos de Microsoft, mais concretamente o Office 365.

Para a Web Summit vão levar o projeto EZ2ID (Easy To Identify). “Esta é uma solução de um problema verificado tanto no âmbito nacional como Internacional e que, basicamente, soluciona a questão da gestão e identificação de chamadas de contactos.”

Agritech

Segundo Admir Alves, a Agritech é uma startup voltada para a agricultura para promover uma melhoria na qualidade dos produtos agrícolas e dos próprios agricultores.
“Num fase inicial apostamos em prestar serviços de pulverização, combate a pragas e mapeamento com o intuito de melhorar a produtividade das cultivares de cabo verde.
“A ideia inicial surgiu após uma reflexão sobre a forma como é praticada a agricultura em cabo verde e necessidade de inovar e implementação de tecnologias modernas”, explica a equipa da Agritech.

Banco do Tempo

O Banco do Tempo é uma plataforma digital onde o tempo é a moeda de troca e os usuários podem oferecer e ter acesso a serviços diversos. Trata-se de um conceito que é baseado na ideia de moeda social que por sua vez se enquadra na economia solidária.

Segundo Dáfine Medina, o projeto surgiu sobretudo com o intuito de auxiliar a resolver alguns problemas sociais como a alta taxa de desemprego no país, que acreditam ter agravado com a pandemia da Covid-19. “Também a falta de oportunidade para as pessoas, sobretudo jovens, adquirirem experiências de trabalho e desenvolver e redescobrir suas habilidades, e simultaneamente com o objetivo também de cultivar uma cultura solidária entre as pessoas.”

O Banco do Tempo foi desenvolvido e lançado em 2021 por uma equipa formada por Miriam Medina, Helena Ferreira, Dáfine Medina, Helton Cabral, Ebrailson Gabriel e Jaqueline Semedo.

Sintaxy- com Afrikan Coders

Abel Mendonça, da Sintaxy, explica que a empresa surgiu da audácia de três jovens que verificaram uma lacuna no mercado nacional, no que tange à recolha de dados através de dispositivos moveis. A Sintaxy ampliou o seu leque de serviço e, atualmente, oferece serviços de consultoria de TICs e desenvolvimento de software de gestão, tanto no mercado nacional como no mercado internacional.

A Sintaxy vai participar na Web Summit 2022 com a African Coders, que foi criada há um ano ao identificarem uma carência de quadros qualificados nas áreas de TICs no mercado Internacional. “O objetivo da African Coders é potencializar o capital humano de Cabo Verde nas áreas de Programação e Introduzi-los no mercado internacional.”

TourisTravel Talks

A startup TouristTravel Talks foi idealizada em 2020 pelo jovem Wilkar Graça, natural de São Nicolau, que estava à procura de uma solução para melhorar o turismo nacional, que segundo diz, gira a volta do sol e praia, promovido por cadeias de hotéis internacionais e que são responsáveis pelo grosso dos turistas que visitam Cabo Verde, mais concretamente as Ilhas do Sal e Boa Vista.

A equipa da TouristTravelTalk é constituída por três elementos que são Wilkar Graça, Nilsson Correia e Vitória Anthony. “E ainda temos parceria com a Chuva, Soluções Informática Lda, CV Telecom e Cabo Verde Digital”.

De acordo com este jovem empreendedor, a ação de marketing das ofertas culturais, ambientais e patrimoniais, musicais, gastronómicas e demais propriedades que demonstram a diversidade turística das restantes ilhas é feita de forma desagregada fazendo com que seja difícil para os viajantes conseguirem ver Cabo Verde como um destino diversificado.

“Portanto, a TouristTravel Talks tem como objetivo a criação de esforços conjuntos de entidades públicas e privadas de cunho turístico (Operadores Turísticos) para a criação e alimentação da diversidade turística cabo-verdiana no sentido de otimizar e potenciar a promoção e marketing digital de Cabo Verde como um todo.”

Jovens esperam fazer networking, fechar parcerias e conseguir investidores

Nelson Varela do Emigrante CV, diz que tratando-se do maior evento de tecnologia do Mundo (…) vai ser uma oportunidade única de fazer newtorking, parcerias e encontrar com potencias investidores”. O jovem defende que este “evento vai colocar Cabo Verde na mira dos investidores, atrair startups e vai inspirar uma geração inteira a investir nas tecnologias”.

Já Sónia Monteiro, da Panha Bentu defende que o facto de esta ser a 3ª vez que Cabo Verde participa neste evento, “mostra o processo de evolução e resiliência do setor digital (do país) e a presença (de CV) trará uma enorme valia no que diz respeito à visibilidade no ecossistema digital mundial e servirá como ferramenta chave para driblar os desafios atuais do nosso país e do nosso continente.”

As expectativas são elevadas, também no caso do Yanick Évora da VALE.CV “Pretendemos fazer um Networking e criar uma lista de contactos que nos encaminhará, sem dúvidas, à conquista dos outros objetivos (…) é possível criarmos parcerias estratégicas que nos darão uma maior visibilidade a nível internacional e que poderão transformar-se em negócios. Por ser um espaço propício para tal, iremos também aproveitar para ir atrás de possíveis investidores (…)”.

O jovem acredita que “a evolução das startups ou empresas a nível económico devido à participação no evento, através de parcerias estratégicas ou fechos de negócios, é um ganho também para a economia do país. O networking criado por cada participante cabo-verdiano no evento é uma ferramentas que futuramente poderá ser utilizada por vários outros intervenientes no país, contribuindo assim para o desenvolvimento tanto económico, como também social de Cabo Verde”.

Leonardo Fernandes da Cabo Verde Tour acredita que a participação num evento desta natureza pode ter impacto significativo no desenvolvimento da imagem da startup e, de um modo geral, “contribui para uma mudança do digital no país para melhor”. O mentor da startup acredita que “a participação Cabo Verde tem como valia, a promoção e valorização da cultura, da história, do patrimônio e da estratégia nacional nas áreas de tecnologia e inovação em prol da modernização, isto porque, o país almeja ser um hub, tanto a nível da nossa sub-região da África Ocidental, como também a nível Global”.

Por ser um evento que reúne as maiores empresas, startups e stakeholders a nível global, Gil Pires da DevGo diz igualmente que as expectativas são elevadas. “Vemos a Web Summit como uma oportunidade única de promover de forma internacional, a nossa empresa e as nossas soluções, almejando trazer na bagagem parcerias, contactos e experiências que nos possam promover enquanto empresa e enquanto criadora de soluções tecnológicas “made in Cape Verde”.

Gil Pires defende que esta é uma oportunidade de promover o país como um destino relevante e credível no que diz respeito “à criação de soluções tecnológicas potencializando o interesse de possíveis investidores nas diversas áreas da economia nacional.”

Já a equipa da Agritech almeja aumentar a sua rede de networking, ter uma perspetiva mais ampla do mercado tecnológico e digital, bem como atrair investidores para o mercado cabo-verdiano. A presença do país “na maior feira tecnológica do mundo mostra que, apesar de ser um país pequeno, (…) o arquipélago tem qualidade em produzir boas startups”.

Também a equipa do BAnco do Tempo acredita que a participação na Web Summit trará mais-valias para o projeto, bem como para a equipa. “ (…) encaramos como um mar de oportunidades, sobretudo de adquirir o máximo de conhecimento possível, essencialmente para continuarmos a desenvolver a nossa solução aos mais altos padrões, também de nos relacionarmos com pessoas e/ou entidades capazes de, posteriormente, nos auxiliar a escalar e expandir sobretudo internacionalmente, que é uma grande ambição e objetivo nosso.”

Segundo Dáfine Medina, a presença de Cabo Verde na Web Summit é muito benéfica para o país, no seu todo e não só para a comunidade tecnológica. “Permite-nos demostrar brilhantes projetos inovadores que vêm surgindo em Cabo Verde, desenvolvidos por jovens visionários engajados com o desenvolvimento sustentável do país, acompanhando a grande transformação tecnológica que vem ocorrendo no mundo todo, e com isso conseguindo cada vez mais destaque lá fora, o que pode resultar em investimentos, abertura de portas e no surgimento de novas oportunidades de sucesso.”

Para a equipa da Sintaxy, só o facto de participar na Web Summit já é um ganho enorme. “A nossa expectativa é que, utilizando um mecanismo sistemático de preparação e exportação de recursos possamos criar capital humano de enquadramento e excelência que possa contribuir para a transformação da nossa economia de rendimento médio em economia de rendimento elevado. Um dos maiores benefícios para a startup é disseminar a nossa existência, e nossa competência e principalmente o nosso potencial de ter capital humano completo com os requisitos que o mercado internacional demanda.”

Abel Mendonça acredita que a Web Summit é uma forma de colocar Cabo Verde no mercado internacional. “Nos faz acreditar que podemos montar, executar e competir internacionalmente, criando valor social, aos jovens como nós, e valor financeiro e económico ao país.”

Do ponto de vista de Wilkar Graça da TouristTravelTalk, a participação no maior evento de tecnologias do mundo vai ser uma porta aberta para, principalmente, estar num ambiente onde a inovação reina, garantido a possibilidade de interação com uma vasta gama de empreendimentos tecnológicos mundiais que servirão para enriquecer a visão do projeto a nível tecnológico. “É uma oportunidade também de começar a exteriorizar a marca TouristTravelTalk como instrumento que facilita a conexão de viajantes ao mercado turístico de Cabo Verde”, diz.

CM e AO

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