18 de abril, dia dos monumentos sítios – que futuro para os monumentos e sítios em Cabo Verde

18 de abril, dia dos monumentos sítios – que futuro para os monumentos e sítios em Cabo Verde

18 de abril, dia dos monumentos sítios – que futuro para os monumentos e sítios em Cabo Verde

O mês de abril é extremamente importante no que diz respeito aos debates sobre a salvaguarda dos valores patrimoniais expressos nos monumentos e nos sítios históricos um pouco por todo o mundo.

Desde o início da raça humana, sempre existiram espaços de concentração de mais do que um individuo e, consequentemente, a sua ação resultou na alteração das paisagens, bem como a adoção das mesmas. Assim, surgiram obras monumentais, que chegaram até nós, como testemunhos da evolução do homem e sua relação com o ambiente que o circunda. Igualmente, tais marcas, hoje definidos como monumentos e sítios, são também, espaços de memórias e aprendizagens para a nossa contemporaneidade e para as gerações futuras.

Para o ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios), o dia 18 de Abril, é dedicado às celebrações do património, sendo que para o presente ano, o lema escolhido foi “Catástrofes e conflitos à luz da Carta de Veneza”, como forma de ampliar debates e reflexões sobre os perigos a que o património está exposto em tempos de conflitos armados, com a ação humana, fenómenos naturais e mudanças climáticas e, interpretar a aplicação das recomendações da carta, no processo de conservação e restauro, lembrando que estes dois conceitos, quando aplicados a um monumento histórico, visam sempre,  salvaguardar tanto a obra de arte como o testemunho da história, conforme emana o artigo 3ª da referida Carta.

É neste sentido que Cabo Verde, como parte integrante da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural e Natural de 1972, deve trabalhar para proteger os bens que enquadram dentro dos conceitos de monumentos e sítios com valores históricos e patrimoniais.

Desde antes da independência este trabalho de conservação e restauro do património vem sendo feito, com mais ou menos grau de dificuldades. É por isso que chegaram até hoje os centros e sítios históricos, bem como os monumentos erguidos um pouco por todas as ilhas do arquipélago. Alguns destes elementos são classificados como património nacional e faze parte da lista indicativa de Cabo Verde junto da UNESCO.

Que Futuro para os monumentos e sítios históricos de Cabo Verde?

Hoje, volvidos quase 50 anos de independência e olhando para as intervenções feitas para proteger os bens patrimoniais assim como as ações humanas que, a cada dia vem destruindo o legado patrimonial, a pergunta faz todo o sentido e as respostas devem ser procuradas com ações e atitudes técnicas, ao invés de discursos vazios e populistas.

Se olharmos para sítios como a Cidade Velha e Trindade, na ilha de Santiago, ou as Salinas de Pedra de Lume, na ilha do Sal, verificamos que há um desfasamento gritante entre aquilo que são as recomendações emanadas, as ações e projetos, bem como as metodologias de gestão implementadas.  De igual modo, este reflexo está bem espelhado em todos os centros históricos do país, onde por motivos vários, vão-se tomando decisões de acordo com os interesses do momento, ao invés de se focar nos aspetos técnicos operacionais de patrimonialização e salvaguarda.

A meu ver, um dos erros do processo de proteção destes e outros espaços tem sido a demasiada politização das instituições públicas de gestão, aliadas as políticas públicas que são definidas, não pensando no monumento e seu entorno, nomeadamente as pessoas que vivem e convivem nestes espaços, mas sim, pensando nos ganhos políticos e partidários e num turismo estrangeiro que por si só não agrega valor aos lugares de memórias.

A exclusão dos locais no processo de patrimonialização e no programa de valorização dos monumentos e sítios em Cabo Verde tem-se revelado determinante no fracasso de vários programas e projetos implementados em prol do património. Quem, com regularidade, assiste aos anúncios e enunciados de medidas de políticas de patrimonialização, facilmente percebe esta tendência estatal de trabalhar para o exterior, em vez de se trabalhar com as pessoas que diariamente relacionam com os bens patrimoniais.

Como resultado, temos os centros históricos caindo aos pedaços, com o desmantelamento de edifícios, ruas e largos, monumentos e sítios históricos e de memórias completamente abandonados e, assistimos de braços cruzados, constantes e repetitivos atos de limpeza e branqueamento de fatos e fenómenos históricos do nosso país, a medida que galopam as “políticas” traçadas para o património histórico cultural do país, sem se ter em conta as pessoas, a capacidade técnica das instituições, bem como a ausência de diálogo e respeito pelos proprietários e instituições de gestão local e vice-versa.

Esta realidade vai em contramão daquilo que são os discursos oficiais, onde, a todo o custo, tem-se tentado passar uma mensagem e imagem de serem os “primeiros e únicos” decisores a zelarem para a preservação do património. Esta síndrome ministerial e governamental de se achar o “único, primeiro e “melhor” nas políticas e decisões de salvaguarda dos monumentos e sítios em Cabo Verde aparece de 4 em 4 anos, com alvos muito bem identificados, não para garantir a perenizarão dos elementos patrimoniais e as memórias associadas, mas para fazer parte de um programa político a ser sufragado.

Já tinha acontecido com a “famosa” cruzada de intervenção nas igrejas e que por “mera coincidência” as entregas e inaugurações das “obras de restauro” aconteceram nas vésperas e durante as campanhas legislativas de 2021. Agora, em pleno ano de 2024, o mesmo programa cria ramificações, com outro nome, surge nas vésperas das eleições autárquicas e legislativas onde, no ato de lançamento do projeto, fez-se questão de mostrar que não se está a valorizar o projeto enquanto ação técnica, mas sim, está-se a lançar ideias soltas para se ter projeção política.

Se durante a década de 90 e os anos de 2001 a 2016, haviam orientações claras no sentido de se descentralizar as políticas de gestão do património cultural, que culminaram com a criação de curadorias e gabinetes técnicos conjuntos entre a instituição de tutela do património e as câmaras municipais, em 2017, estas estruturas foram desmanteladas sem escutar nem interpretar o seu papel técnico e como mediador de conflitos entre os gestores dos territórios municipais, os proprietários e o estado.

Efetivamente, vivemos um período preocupante no processo de salvaguarda do património cultural em Cabo Verde, quer por ausência de instrumentos de gestão, quer por causa de políticas públicas e decisões políticas tomadas sem as bases técnicas necessárias.

Hoje, ninguém consegue responder ou indicar onde está o plano estratégico da cultura e, consequentemente, da salvaguarda do património cultural. Da mesma forma, não se consegue perceber quais as orientações e prioridades definidas para o setor, pelo que estamos navegando ao sabor das ondas e dos movimentos do “surfista” com síndrome de virgindade cultural, enquanto o tsunami de destruição passa pelos centros, sítios e monumentos históricos do país!

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Adilson Dias

Adilson Dias

Gestor de Património Cultural. Natural da ilha de Santo Antão, filho da zona de Espongeiro, sou um apaixonado pela cultura cabo-verdiana e sua riqueza patrimonial. Sempre atento a realidade do meu país, tenho nos museus a minha fonte de conhecimento e de inspiração para analisar e perceber as dinâmicas socioculturais de Cabo Verde, com especial atenção às minhas ilhas de Santo Antão e Santiago.

Outros artigos