2021, o ano da dor

Desafiada a escrever um balanço sobre um tema que me marcou neste 2021, decidi escrever uma carta para Ela, a minha criança interior.

Olá Vera Lúcia, ou terei permissão para te chamar pela tua alcunha de criança, “Vera Chorona”?

Como passaste durante este 2021? Adivinho que o tenhas passado triste e chateada comigo, afinal não te tratei lá muito bem, aliás, continuei a “maltratar-te”, não é?

Não me vais responder? Então conto-to eu como “estivemos” neste segundo ano da pandemia. Comecei o ano com o coração partido. Partido em mil pedacinhos, que estilhaçados, vazaram pelas veias e artérias, e provocaram dores horríveis ao longo desses 12 longos e intermináveis meses, que eu permiti que 2021 fosse.

Neste ano, deixei a covardia de lado e decidi olhar-te, olhos nos olhos, e procurei colocar o meu bater de coração no mesmo ritmo do teu. E chorei, Vera. Chorei de raiva, chorei de ciúmes, chorei de frustração, chorei de mágoa, e foi tão bom ter percebido finalmente, que eu, a Vera adulta, sou humana, e tenho todo o direito do mundo de sentir esses sentimentos humanos, mas, que por aquelas razões que somente nós as duas sabemos, eu me considerei durante todos esses anos, imune a elas.

Sabes, este 2021 foi um ano de perdas, muitas perdas: perdi a couraça protetora que coloquei em ti quando tínhamos 12 anos, perdi o medo de me sentir vulnerável, perdi dois amigos para a Covid 19 e perdi a inocência em acreditar sempre que os outros agirão comigo, da mesma forma que ajo com eles.

Este 2021 trouxe-me o bichinho da Covid para dentro do meu corpo e foste testemunha como ele mexeu com o meu organismo, mexeu com a minha estrutura emocional e deixou-me mais parecida contigo: a miúda branquela, de rosto redondo, testa franzida, mas com o sorriso mais lindo e aberto do mundo.

Mas sabes, claro que sabes, que voltei a experienciar a paixão. Voltei a ser a adolescente apaixonada. Foi tão bom, e foi longo o quanto basta, foi o suficiente para me mostrar, que mesmo no meio da loucura, das perdas, do medo, das dores deste 2021, existiram momentos de puro amor, como o aniversário de 80 anos da minha mãe e a declaração de aniversário que a minha filha me fez, o abraço da minha comadre que secou minhas lágrimas de coração partido, as gargalhadas com os companheiros de caminhada, e a liberdade que foi montar a minha bike e pedalar por Mindelo e pela Praia, mesmo tendo sido assaltada.

Por isso, minha doce e querida Vera Chorona, quero dizer-te que está tudo bem, que não precisamos mais olhar-nos com tristeza ou pesar. Tu foste o melhor que fui e eu estou a ser o melhor que sou: sem muitas mágoas, sem arrependimentos e a reaprender a olhar as coisas menos boas que ocorreram neste ano.

A dor desde 2021 nada mais foi, que o parir do perdão que eu estava a dever-te, por ter sido durante muito tempo o teu pior carrasco.

Com todo o meu amor, desejo que em 2022 tu me lembres sempre de sorrir mais e de brincar mais.

Tua sempre e para sempre, Vera Lúcia, a adulta.

 

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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