A casinha do pote mágico

A nossa avó materna era, por todos, considerada uma pessoa dotada de um coração de ouro. Uma santa humana capaz de tocar a alma de todos, através das suas ações de bem receber e acolher familiares, amigos, desconhecidos…sem olhar para o seu estatuto social. Havia quem, após muitos anos longe da terra, ao regressar, numa breve paragem para os cumprimentos, lhe solicitasse sempre uma caneca de água fresca do nosso pote. Creio que essa água, no pote, pudesse ganhar propriedades mágicas, transformando-se num refresco para o corpo e para alma, capaz de nós reavivar as memórias passadas.

A casinha onde ficava o pote era simples. Chão de terra batida, uma parede de pedra, três laterais forradas de tábuas de madeira e folhas de coqueiro e uma cobertura de três camadas, uma inferior, também ela feita de folhas de coqueiro, sobre uma estrutura de cana de caniço, bambu e madeiras; uma intermédia, de folhas secas de bananeira; e uma superior de palhas de cana sacarina. Tudo unido por cordas de sisal. Boa parte da casinha estava repleta de lenhas e “bagaço”, sendo que no canto à direita da porta ficava o pote e mais para o centro o pilão.

Para manter fresco o canto onde ficava o pote, a minha avó aguava o chão sempre com água. Assim, a água mantinha-se numa temperatura amena, tão fresca como se estivesse a sair de um frigorífico. Ah, e, naqueles tempos, quando ainda não havia eletricidade no interior do vale e ter um frigorífico a gás era um luxo ao alcance de poucos, o pote era sim o nosso frigorífico de água fresca. Água essa que trazíamos em vasilhas desde lá da nascente do Nascente, quase todos os santos dias.


Sempre que à nossa casa chegava uma visita, era quase que de imediato solicitada uma caneca de água fresca do tal pote. Digo caneca e não copo, porque muitos pediam que a água lhes fosse servida diretamente na caneca de folha ou de esmalte que se mantinha sobre a tampa do pote. Portanto, era obrigação de nós, os meninos, manter o pote sempre com uma boa quantidade de água, de modo a salvaguardar-se da falta de consideração de não se ter água fresca, caso aparecesse uma visita ou forasteiro a solicitá-la.


Se a casinha do pote tinha frescor para a água, também tinha calor para amadurecer as bananas. Assim, num ferro ou numa corda presa ao teto estava quase sempre dependurado um cacho de banana a amadurecer ou já maduro. Bananas colhidas na horta de Jun’Kim ou no terreno ao redor de casa. Uma caneca de água fresca do pote acompanhada de uma banana madura era um suplemento energético que noutros tempos enganava a fome até a hora do almoço ser servido.


No pilão de figueira brava preparava-se o milho para a cachupa, papa de milho e, por altura da Páscoa, esmagavam-se nele as bananas maduras juntamente com as batatas doce cozidas, obtendo-se um preparado que era adicionado à farinha de milho para confeção dos fongos. Na pedra de rala que ficava no exterior junto à casinha do pote moía-se o café de terra torrado e o prentém para feitura da camoca e, de vez em quando, o xerém e a farinha de milho para encher as tripas de porco ou de cabra, na confeção do chouriço de sangue ou bandulho (tradicionalmente chamado de botchada).


Era também na casinha do pote que as gatas da minha avó escondiam as suas ninhadas de gatinhos, por entre as cargas de bagaço de cana sacarina. Quando nós, os meninos, apercebíamos que uma das gatas (Gigi, Querida, Pretinha, Princesa…) tinha gerado os seus gatinhos, ficávamos à espera do momento quando ela lhes fosse dar de mamar para descobrir onde ficava a toca. Tínhamos recomendação da nossa avó para não tocar nos gatinhos, senão a mãe deles poderia rejeitá-los ou tentar trazê-los para junto de nós. Mas, quase nunca seguíamos essa recomendação e, quando assim era, não levava muito tempo até a gata surgir com um gatinho seguro pela boca, à procura de um novo esconderijo para a sua ninhada.
Hoje, vasculho nas minhas memórias pela casinha do pote mágico, na ânsia de saciar à sede que as saudades desses tempos áureos me causam. Oh, tempo!

 

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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