A conversa que ainda não tive 

Uma crónica da Iranita Andrade.

Tia: Carol, como foi o jardim hoje?

Carol: Hoje estivemos a pintar um coração. Olha como as minhas mãos estão vermelhas.

Assim que a minha sobrinha saiu do jardim de infância às 17 horas, num dia qualquer da semana, fomos fazer umas compras conversando sobre o dia dela. 

Começou a falar sem parar e a contar várias histórias do seu dia e dos coleguinhas, até ao momento que chegamos em casa. 

Na minha vida de mãe de uma criança autista não verbal nunca experimentei essa sensação. Lembro-me de sempre ter altos “papos” com as crianças que ficavam ao meu cuidado quando era adolescente e durante a vida adulta sem filhos. E sempre sonhei com estas conversas com o meu. Mas até este momento ainda não foi possível.

Até alcançar esta meta, vou me satisfazendo com as conversas com as minhas crianças de outras mães e com o Miguel, mas de outras formas. 

Tenho um pensamento muito positivo em relação à fala do Miguel e acredito que, mais cedo ou mais tarde, ela virá. Não aceito a opção de ele nunca vir a falar. É uma possibilidade? É, eu sei que é. Mas como diz aquele velho ditado, “a esperança é a última a morrer”. 

Sinceramente, acredito que se o Miguel começar a falar ele teria muito mais qualidade de vida e seria uma criança mais “normal” porque o meu filho é uma criança inteligente apesar das suas limitações. 

E claro, a minha vida seria mais facilitada em todos os aspectos, principalmente a nível psicológico (porque muitas vezes é exaustivo adivinhar, imaginar ou ter que decifrar os acontecimentos e desejos). 

Apesar desta esperança, se não for possível desenvolver a fala não vai ser o fim do mundo, porque encontraremos formas de manter a comunicação fluída mesmo que seja não verbal. 

A ideia deste texto surgiu depois da conversa com a Carolina, mas existem várias situações para pais de uma criança não verbal que nos fazem pensar e que muitas vezes tira o nosso sono e causa alguma tristeza. 

Uma delas é não poder saber pela visão dele o que aconteceu durante o dia em que eu não estive presente. Não ter aquela conversa (divertida e ao mesmo tempo banal) que eu tive com a minha sobrinha depois da escolinha.

Outro drama é não saber se maltrataram o teu filho, se abusaram dele de alguma forma, se um coleguinha foi “mauzinho”.

É também super angustiante quando a tua criança chora e não consegues saber qual é o motivo do choro, por mais que perguntas, não há respostas, mas sim apenas choro. Isso é desesperador. Não saber onde dói ou o que dói.

Não saber o canal ou o boneco que ele quer assistir na televisão e ter que estar a adivinhar. Ir a um café e ter dificuldades em saber qual dos alimentos expostos ele quer comer, por isso prefiro ir em sítios que ele consegue apanhar o produto sozinho. Mas é claro que eu como mãe já conheço alguns códigos e já sei do que ele gosta, mas e os outros?

Sem falar das situações no mínimo engraçadas que acabam por acontecer. Lembrei-me agora de uma história com uma minhoquinha de madeira com a qual o Miguel andava sempre.  Estávamos na paragem do autocarro e quando chegou tive pressa para entrar e encontrar um lugar para sentar. O Miguel estava só a reclamar, mas eu não percebia qual era o motivo da reclamação, uma vez que, até então, estava tudo tranquilo.

No entanto, assim que o autocarro saiu da paragem vi a minhoca no chão. Não acreditei … 

Graças a Deus existia outra paragem muito perto. Descemos e eu fiz o trajeto todo (com o Miguel a chorar) a rezar para encontrar a minhoquinha e falando com Deus ía dizendo que o meu castigo era voltar para trás com o saco pesado e ficar mais meia hora à espera do próximo autocarro.

Depois chamei a minha atenção para sempre parar e perceber o porquê daquela reclamação.

Ah claro, encontramos a minhoquinha, estava no mesmo lugar.

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Iranita Andrade

Iranita Andrade

Profissional com competência em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.

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