A literatura que nos traduz de e para Cabo Verde

Nossos livros criam mundos comunicativos que chegam à infância através da linguagem textual e visual, expressando diferentes conceitos de infância, do racional ao emocional, no posicionamento cultural, social, ideológico, literário e na criação e reprodução de imaginários. E este desenvolvimento da nossa literatura infantil faz-se pela ocorrência da visão das ilhas sobre o Mundo ou, parafraseando o escritor Germano Almeida, da literatura infantil de Cabo Verde (também) vê-se o Mundo.

Durante a Conferência Internacional sob o tema “A literatura Infantil na formação do Imaginário do Leitor” realizada pelo Centro Cultural Brasil – Cabo Verde, em parceria com a JOVEMTUDO Cabo Verde, apresentei uma panorâmica sobre a nossa produção de literatura infantil. Momento para levantar certas questões de discussão, falar sobre como pende a balança da tradução dos nossos livros em relação aos estrangeiros, do uso da língua caboverdeana como material criativo e, claro, falo também um pouco sobre o caso da Tufas, Princesa Crioula. Partilho aqui parte desta apresentação e quem sabe ainda recebo mais informações para enriquecer esta pesquisa.

 

A literatura que nos traduz

 

Ao longo dos tempos em Cabo Verde temos conhecido algumas publicações de livros nacionais traduzidos em língua estrangeira, mas também raros casos de livros estrangeiro traduzidos para a língua caboverdeana.

 

No saldo da balança de trocas de traduções está em vantagem as versões em língua estrangeira dos livros nacionais em relação às traduções de livros para a língua caboverdeana ou mesmo para o português de Cabo Verde.

 

Quando falamos de obras de Cabo Verde traduzidas para uma língua estrangeira temos os livros da minha autoria “Tufas, the Creole Princess – Learning the Magic Words” [Tufas, Prinséza Krióla – Ta Prendê Kis Palavra Májike] e também “Tufas, the Creole Princess – the apology box” [Tufas, a Princesa Crioula – a caixa das desculpas] com traduções de Peggy Romualdo e ilustrações de Alberto Fortes, em 2017 e 2018, respectivamente.

Temos ainda a obra “Le cochon qui tord la quele” [Gó ki pórka dja torsi rábu] da autoria de Aires Semedo, com tradução de Nicolas Quint e Fátima Ragageles e ilustrações de Agathe Pitié. Pode-se englobar também os livros “La dernière colère de Sarabuga” (2005) e “Un conte du Cap Vert; la dernière colère de Sarabuga” (2012), ambos da autoria de Muriel Bloch e ilustrações de Aurélia Grandin.

 

Uma questão interessante é analisar a influência das traduções sobre o desenvolvimento da produção literária infantil em Cabo Verde. É preciso levar em conta que estas traduções serviram também para a consolidação da literatura infantil nacional, contudo até agora ainda não recebeu reflexão teórica ou crítica literária.

 

No outro prato da balança, um exemplo de tradução de língua estrangeira para a língua caboverdeana é a obra “Prispinhu” [O Pequeno Príncipe] de Antoine de Saint-Exupéry, traduzida por Nicolas Quint & Aires Semedo, em 2013.

 

Também temos os livros “Largo Winch 1 – ARDERU” e “Largo Winch 2 – GRUPO W”, da autoria de Jean Van Hamme e que foram traduzidos para a língua caboverdeana por Philippe Francq e Aires Melo, em 2012.

 

Pelos parcos números apresentados pode-se depreender que há um frágil intercâmbio cultural ao nível internacional entre as literaturas infantis de e para Cabo Verde. Como consequência temos um ténue contacto e transferência por tradução ou adaptação. E quando falamos de recepção pode-se apontar que as publicações nacionais para a infância terão desenvolvidas sem grandes influências das traduções em Cabo Verde.

 

As influências encontradas poderão ser apontadas às literaturas importadas (traduzidas ou originais, principalmente de autores portugueses e brasileiros) que são aceites e integrados nos circuitos de leitores das ilhas.

 

Apenas com um estudo intertextual será possível identificar as referências transculturais, implícitas ou explícitas, resultantes das interacções entre literaturas de outras culturas e línguas e a nossa literatura infantil. E este estudo irá mostrar que a actividade literária infantil nacional não é uma única literatura que se limita aos contos tradicionais e folclore.

 

Sim, cada autor interpreta e faz uso da ferramenta do texto e da ilustração para dar a sua própria identidade. Mas as nossas publicações abordam áreas amplas, transcendendo as nossas fronteiras culturais e linguísticas, até legitimamente fazer parte da ‘república universal da infância’.

 

Produção com abertura interdisciplinar

 

É preciso ter em conta que a produção literária infantil nacional faz parte da identidade cultural nacional e também faz parte da representatividade da nação crioula. Trata-se de uma produção com abertura interdisciplinar que engloba – entre outros – aspectos históricos (por exemplo, “Vamos conhecer Cabo Verde” [1998], do autor João Lopes Filho com ilustrações de David Levy Lima e Óscar Alves, ou “O Mistério da Cidade Velha” [2017] da autora Marilene Pereira e ilustrações de Renato Athayde, ou “História de Cabo Verde – A tartaruga Luana e a Passarinha Luna” [2011] da autora Ivete Livramento Santos e ilustrações de Kevin Melo & Ivete Santos, ou “Capitão Farel” [2006] do autor Leão Lopes e ilustrações de Joana Campante).

 

Como também aspectos sociais (por exemplo, “Minguim, o Pirata” [2003], do autor António Luís Rodrigues e ilustrações de Zé Leopardo, ou “Marianinha” [2010] da autora Giselle Neves e ilustrações de Tchalé Figueira).

 

Mas também aspectos ideológicos (por exemplo, “A Turma do Cabralinho e O Búzio Mágico” da autoria de Marilene Pereira com ilustrações de Coralie Tavares da Silva).

 

No mundo da Tufas

 

Outra característica da literatura infantil é sua comunicação substancialmente assimétrica. Em toda a cadeia de produção temos adultos actuando para as crianças. Mais ainda. Em Cabo Verde, na grande maioria das publicações temos no texto um autor implícito (adulto) a falar para um leitor (criança) implícito. E isso acontece mesmo quando se trata de animais falantes nas fábulas (Ti Lobo, Xibinho, Blimundo…). Uma das novidades de “Tufas, Princesa Crioula” foi representar a criança como protagonista, com destaque de capa. E também por ser menina que se afirma na sua própria estória, sem serem construídas no sentido do adulto a passar uma moral a uma criança, mas sim deixando a Tufas ser a protagonista e movimentar-se na criação do imaginário.

 

Finalizando…

 

Nossos livros criam mundos comunicativos que chegam à infância através da linguagem textual e visual, expressando diferentes conceitos de infância, do racional ao emocional, no posicionamento cultural, social, ideológico, literário e na criação e reprodução de imaginários. E este desenvolvimento da nossa literatura infantil faz-se pela ocorrência da visão das ilhas sobre o Mundo ou, parafraseando o escritor Germano Almeida, da literatura infantil de Cabo Verde (também) vê-se o Mundo.

Nossos livros criam mundos comunicativos que chegam à infância através da linguagem textual e visual, expressando diferentes conceitos de infância, do racional ao emocional

Um desenvolvimento que vai dando formas distintivas e no qual emergem literaturas infantis individuais, mas também com características semelhantes às tradições literárias de outras culturas.

 

Estas literaturas para a infância produzidas ainda carecem de uma discussão do seu papel cultural, social e o impacto económico em toda a sua cadeia de produção, a sua recepção e consumo tendo em conta os hábitos de leitura e as condições económicas do receptor. Uma das características da literatura infantil é ser um corpo de literatura que pertence simultaneamente a dois sistemas, o literário e o pedagógico, é necessário saber também o seu uso em ambientes educacionais e didáticos, sem esquecer o foco e o nível de pesquisa académico nacional e internacional.

 

Outra questão que deverá merecer atenção está relacionada com os estudos da imagem, mais precisamente com a representação das personagens e da criança e as complexas ligações com a nossa construção de identidade nas ilustrações. É preciso lembrarmos que as crianças aprendem a ler imagens muito antes de aprender a ler palavras. E estas ilustrações são formas de comunicação que lhes servem de autoimagem, alteridade e representação. Por estas razões pode-se depreender a importância dos livros ilustrados e toda a simbologia que estas ilustrações carregam.

 

Sim, ainda há um longo caminho a percorrer, mas estamos a trilhar um passo de cada vez. Chegaremos lá.

 
 
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Dai Varela

Dai Varela

Gestor de Imaginário, Escritor, Produtor Cultural, Gestor de Conteúdos e Coordenador Nacional para Cabo Verde da Iniciativa Africana de Artistas para a Paz - AAPI. Formado em Ciências da Comunicação - Jornalismo e Docente Universitário desde 2012. Com interesse especial pela produção para a infância através da JOVEMTUDO Cabo Verde.

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