A P0rn*grafização da Morte na era do SELF-I

“A vida é um grande reality show, onde a eliminação é um destino inevitável”
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MORTE – UMA INSTRUMENTALIZAÇÃO TEMPORAL.

Hoje, evidências arqueológicas e distanciamento histórico permitem-nos aferir que diferentes culturas e civilizações desenvolveram as suas próprias formas de entender, enfrentar e ritualizar a morte. Desde os povos primitivos, os mais distintos agrupamentos humanos procuraram dar sentido a este que é, afinal, um evento inevitável, e que, embora marcante, nem sempre foi ou é vivenciado com sentimentos e expressão de arrebatado sofrimento, como nós, na periferia do capital, copiosamente o fazemos. 

Há exemplos de sobra. Entre o povo Ga, de Gana, os funerais são eventos elaborados e festivos, conhecidos por seus caixões esculpidos para representar algo significativo na vida do falecido, como um peixe, uma bíblia, ou uma peça de indumentária. Essas celebrações podem incluir danças, música e desfiles. Outro caso notável, são os Igbo da Nigéria: os seus funerais são ocasiões para celebrar a vida da pessoa falecida com festejos que podem durar vários dias. Eles acreditam que a morte é uma transição para um novo estágio de existência e que a pessoa morta merece ser honrada com alegria e celebração. Também os Ashanti celebram a morte com insignes cerimónias, conhecidas como “dotiyie” nas quais há muita música, dança e trajes deslumbrantes. Eles acreditam que o espírito da pessoa falecida se junta aos ancestrais e deve ser enviada com alegria e reverência. E a lista continua.

Pelo arquipélago caboverdiano, como bem sabemos, o luto e os rituais associados à morte têm características específicas, que refletem sim as tradições locais, mas que estão fortemente rubricadas por uma herança colonial judaico-critã. Desse modo, o apartamento dos entes é uma vivência dolorosa e de difícil manejo. O luto é carregado, consternado e desestruturante.

A PORNOGRAFIZAÇÃO DA MORTE NA ERA DIGITAL

Na última década, as plataformas digitais e as redes sociais ( capitalismo de vigilância, com dispositivos de controlo biopolítico que uberizam e algoritimizam o cardápio da nossas pulsões canibalistas) revolucionaram por completo as relações interpessoais, expandindo os significados e vieses de produção de subjetividade, alterando, radicalmente, os conceitos de vida e morte.  A forma como nos relacionamos com estas conceções já alcançou um novo mosaico paradigmático, cuja magnitude ainda não conseguimos vislumbrar.

A coisa é: se a modernidade produziu a individuação e a privacidade, a contemporaneidade parece ansiar por uma hiperexposição do privado, um desejo avassalador de omnipresença. A dinâmica é a do consumismo capitalista desenfreado: uma profusão de compartilhamentos expressivos de imagens e registos desejáveis, insaciavelmente.

Vivemos numa sociedade telânica, oculocêntrica, na qual o olhar é o neovalor do capital. Somos indivíduos 24/7, que se revelam e se oferecem instantaneamente ao escrutínio alheio. Um  simulacro de corporeidades  hiperimagéticas.  Espetacularizamos a intimidade, tornando o olhar do outro decisivo para legitimar e comandar a estilização de nossas vidas (não que já não o fizéssemos antes, mas talvez nunca antes desta forma compulsória).

Ganhamos a necessidade de registo pulsante de todos os passos da vida e a sua publicação instantantanea. A instagramabilidade do real.  A indiscrição se torna regra, mas não se trata de mostrar qualquer coisa; é necessário uma versão editada, de um ângulo valorizado, com o filtro tendência, numa encenação contínua do real. Esta é a verdadeira era da performance em estado de vida – a tiktotizaçao dos modos de comunicação.

O culto excessivo da própria imagem está em alta, (a tal escopofilia freudiana) que revela o pior das nossas afeições narcisistas – seres obcecados em se tornar o objeto de gozo e o centro das atenções, mesmo que para isso precisemos de nos ridicularizar, expor cada centímetro nosso, saltar de um penhasco ou filmar a nossa tia morta( falarei do estupidicídio num próximo texto)

As nossas novas linguagens performativas revelam dinâmicas edipianas, resquícios do nosso egocentrismo primordial. A era da hiperexposição não só remodela a forma como nos apresentamos, mas também como nos percebemos e interagimos com o mundo ao nosso redor. O desejo incessante de aprovação e a busca constante por validação transformam a nossa existência numa sequência interminável de encenações.(somos seres ficcionais, tudo bem sobre isso. a questão é o que dado tipo de ficção gera no marco coletivo)

A facilidade com que imagens e vídeos podem ser capturados e compartilhados aumentou a disseminação de conteúdos gráficos e perturbadores. As plataformas exibem as tragédias sem filtros, muitas vezes capturadas por espectadores no local do evento, em real time streaming  Quanto mais trágico, mais views.

Este fenómeno não apenas expande a audiência dessas tragédias, mas também envolve os próprios usuários em um ciclo de produção e consumo de conteúdo mórbido. A necessidade de “compartilhar” e “curtir” transforma a morte em uma mercadoria viral, reduzindo a gravidade do evento a um momento fugaz de choque e curiosidade. A presença constante de dispositivos móveis e a cultura do imediatismo contribuem para a disseminação de imagens de violência e morte, muitas vezes sem qualquer consideração ética ou moral.

MORTE COMO ESPETÁCULO

Morrer se tornou, então, um evento. Lives e stories. Compartilhamento de fotos do enterro, do luto, de si mesmo chorando; textos a identificar a pessoa que morreu (PORQUE NOS FIZESTE ISTO?)  fotos ao lado da pessoa falecida, partilha de prints de conversas privadas, ensaios fotográficos na cova, e outras absurdidades. 

É claro que as Mídias desempenham um papel preponderante na formação da percepção pública sobre a morte, e bem antes das redes sociais já faziam o seu trabalhinho. As tragédias são frequentemente exploradas para aumentar a audiência e gerar lucro. Imagens gráficas de acidentes, desastres naturais, crimes violentos, atentados terroristas, séries e documentários de psicopatas, serial killers “baseados em factos reais” são repetidamente exibidas; sem considerar o impacto emocional sobre os espectadores e, mais importante, sobre as famílias das vítimas.

Uma boa parte dessa cobertura mediática muitas vezes carece de contexto ou sensibilidade. Em vez de fornecer informações úteis ou contexto histórico, as notícias tendem a focar em detalhes gráficos e emocionantes que servem apenas para chocar e atrair a atenção. Esta abordagem sensacionalista não apenas distorce a realidade, mas também promove uma cultura de voyeurismo mórbido. Um prazer masturbatório – quem morre pior e de forma mais original? Entretenham-me!

Essa abordagem não apenas banaliza a morte, mas também nos dessensibiliza fazendo com que acontecimento verdadeiramente horríveis sejam percebidos como meras distrações ou entretenimento. A lógica do “circo, sangue e pão” ainda é prevalente, e morte é uma mercadoria algorítmica.

CAPITALISMO DE MORTE 

A indústria do entretenimento também contribui significativamente para a pornografização da morte. A morte dá dinheiro. Filmes, séries de TV e videogames apresentam frequentemente a morte de maneira exagerada e estilizada. A violência extrema e a morte são frequentemente usadas como ferramentas de choque, desprovidas de contexto ou significado real.

Essa representação distorcida pode levar a uma compreensão errônea da morte, especialmente entre os mais jovens, que podem crescer com uma visão desumanizada e insensível do fim da vida. A morte, em muitos casos, é apresentada como um evento sem consequências reais, o que pode contribuir para uma diminuição da empatia e da compreensão da dor alheia.

Nos videogames, por exemplo, a morte é frequentemente uma mecânica desportiva de jogo, onde personagens “morrem” (ou são brutalmente assassinadas) e “revivem” sem qualquer realismo ou impacto emocional. Da mesma forma, cada vez mais mortes cinematográficas se sanguificam e se estilizam das formas mais mirabolantes possíveis, com vangloriamento e romantização.

CORPOS MATÁVEIS E CORPOS MORRIVEIS

Já não fosse a idolatria, um grave problema social por si só, ainda temos esta: quando uma personalidade famosa morre, a sociedade frequentemente transforma esse acontecimento num colossal espetáculo mediático, refletindo a mesma dinâmica que cercava a vida dessa tal figura pública. Fazem parte uma cobertura intensa e contínua da sua «morte, que abrange desde notícias detalhadas sobre as circunstâncias do seu falecimento, até análises extensas da sua existência.

A comoção pública pode ser tão intensa que leva multidões a chorarem, realizarem vigílias, e participarem de cortejos fúnebres. As redes sociais ficam inundadas com homenagens, fotos e mensagens de despedida, enquanto programas de televisão dedicam horas à lembrança do falecido. Este luto coletivo, embora possa parecer exagerado, reflete a profunda conexão emocional que muitas pessoas sentem com essas figuras públicas, que, de certa forma, fazem parte de suas vidas cotidianas através de suas aparições na mídia.

Todavia, nada é fortuito. Esta é a faceta insidiosa do capitalismo que explora e se beneficia diretamente da morte, do sofrimento e da violência. Retroalimentadas pela curiosidade e pelo voyeurismo do público, exploram cada partícula,   num cobertura exaustiva  gera altos índices de audiência, aumentando, assim, a receita publicitária e reforçando o ciclo de exploração Documentários, livros e programas especiais são rapidamente produzidos, perpetuando a memória da celebridade e prolongando o espetáculo. Biopics estão na moda.

E isso nos leva ao segundo ponto que é perguntar, a morte de quem é que está sendo televisionada? Que corpos que estão a ser noticiados? Que vidas importam? Quem vira notícia? Quem gera o valor de uma vida? Quais os corpos mais matáveis? Que corpos são velados? Que corpos são mais morríeis? O que é que isso produz na estratificação social? 

As respostas a estas perguntas são difíceis de tragar.

DEUSES DA CONTRADIÇÃO 

O constante processo de desnaturalização da morte é uma faceta marcante de uma sociedade cada vez mais etarista, que busca incessantemente meios para alcançar a tal da imortalidade. Embora biologicamente ainda não seja possível fazê-lo, buscamos substitutos técnicos para essa realização. O uso de filtros de rejuvenescimento e versões alteradas da autoimagem, bem como a produção de avatares e outras formas de representação corporal, são tentativas de contornar a inevitabilidade do envelhecimento e do passamento. Biotecnologias que regeneram tecidos e órgãos, procedimentos estéticos, e métodos que “trazem pessoas de volta” através de memórias armazenadas em redes sociais ou computação gráfica reforçam essa tendência. 

Com efeito, evitamos confrontar a nossa finitude, promovendo uma visão distorcida da realidade. Ao invés de aceitarmos a mortalidade como parte integrante da condição humana, buscamos incessantemente prolongar a juventude e perpetuar a presença de indivíduos, mesmo após a morte, através de meios artificiais. A holografização dos corpos é já uma possibilidade.

Este processo pode levar a uma alienação crescente, onde a verdadeira natureza da vida e da morte é obscurecida por uma obsessão com a aparência e a permanência. Em última análise, a desnaturalização da morte não só afeta nossa compreensão da mortalidade, mas também molda profundamente nossas relações sociais e nossa percepção de identidade e propósito. É a era da amortalidade. 

A CONTA VAI CHEGAR

É óbvio que este fenómeno tem e terá profundas implicações e consequências sociais e psicológicas. Ao trivializar a morte, corremos cada vez mais o risco de perder nossa capacidade de empatia e compaixão. A exposição constante a imagens de morte violenta pode levar à verdadeira apatia. 

Vários estudos têm mostrado que a exposição repetida a cenas violentas pode levar a um aumento da ansiedade, depressão e distúrbios de estresse pós-traumático. Além disso, pode fomentar uma visão cínica e pessimista do mundo, no qual a violência é vista como uma norma aceitável e inevitável.

REFLEXÃO E MUDANÇA: CAMINHOS PARA UMA ABORDAGEM MAIS HUMANA

É urgente que como sociedade reflitamos sobre a maneira como temos vindo a conceituar a morte. Precisamos reavaliar a ética da cobertura mediática e do entretenimento que explora a morte de maneira gráfica e sensacionalista. É terminante promover uma cultura que valorize a vida e reconheça a morte como uma parte inevitável e natural do ciclo da existência, e não como um espetáculo para consumo. Em um mundo cada vez mais interconectado e vulnerável, a prevalência do capitalismo de morte levanta questões cruciais sobre justiça, responsabilidade e o futuro da humanidade. É isso, ou vai dar “mau”.

* O termo pornografização refere-se à hiperexploração/hiperexposiçao sensacionalista e gráfica da morte

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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