A primeira mulher Presidente da Assembleia Nacional e a pergunta que vem depois: O que precisa de mudar nas estruturas do poder?

A eleição de Janira Hopffer Almada é um marco histórico. Eleita a 18 de Junho de 2026 com 63 votos, tornou-se a primeira mulher a presidir à Assembleia Nacional desde a Independência. A nova composição parlamentar conta com 34 mulheres entre os 72 deputados — 47,22%. O que se segue aplica-se a todas elas, e a todas as que virão a seguir. É uma conquista real. E coloca uma pergunta que Cabo Verde não pode adiar: em que condições exercem poder as mulheres que chegam aos espaços de decisão?

Ao longo da minha participação em encontros e espaços de reflexão com mulheres na política, há temas que regressam com frequência: os filhos, os cuidados, os pais na terceira idade, familiares dependentes ou com deficiência. Mas há também um receio menos visível — o que pode acontecer à vida pessoal e familiar quando se ocupa espaço e se exerce poder em público. Numa sociedade pequena como Cabo Verde, onde as fronteiras entre a vida pública e a vida privada são particularmente permeáveis, a exposição política pode ter consequências que ultrapassam a própria mulher. O receio de retaliação, o medo de que conflitos políticos atinjam a família, o assassinato de carácter como arma — tudo isto pode levar muitas mulheres a ponderar várias vezes antes de falar, discordar ou assumir posições mais firmes.

Por outro lado, as responsabilidades de cuidados não desaparecem quando uma mulher entra na política — seguem-na até às salas onde as decisões são tomadas e determinam quanto tempo tem para participar, construir redes e permanecer. O módulo de Uso do Tempo e Trabalho Não Remunerado 2024, realizado pelo ICIEG em parceria com o INE, é claro: 88,8% das mulheres cabo-verdianas realizam trabalho não remunerado, contra 70,21% dos homens, dedicando em média mais oito horas semanais a esse trabalho do que os seus pares masculinos. O Banco Mundial estima que eliminar as disparidades de género no emprego poderia aumentar o PIB de Cabo Verde em até 12,2% a longo prazo. Não é uma questão apenas doméstica. É uma questão estrutural — com um custo económico mensurável.

O segundo custo é menos quantificável, mas igualmente real. Espera-se que uma mulher seja firme, mas não assertiva; competente, mas não intimidante; disponível, mas nunca «emocional» demais. O mesmo comportamento que é lido como determinação num homem é lido como agressividade numa mulher. A violência de género na política, amplificada pelas redes sociais, cria um cálculo permanente sobre quando falar, quanto insistir, até onde discordar. O resultado não é apenas desgaste individual. É uma barreira sistémica ao exercício pleno do poder.

A resposta não está apenas nas mulheres que chegam ao poder — está também nas instituições que as recebem. Mecanismos que redistribuam os cuidados, culturas organizacionais que reconheçam diferentes formas de liderança, protocolos que protejam a integridade das mulheres na vida pública e orçamentos sensíveis ao género: estas são as mudanças estruturais que estão por fazer. É uma responsabilidade partilhada — das mulheres que chegam ao poder, dos partidos, das instituições, das famílias e do Estado. Ninguém pode ficar de fora.

Uma menina cabo-verdiana pode agora imaginar-se na Presidência da Assembleia Nacional. Os símbolos importam. Mas o objectivo não pode ser continuar a celebrar primeiras vezes. O objectivo deve ser construir um país onde a presença de uma mulher em qualquer espaço de decisão deixe de ser excepcional — um país onde a igualdade já não precise de ser notícia.

A igualdade não se constrói apenas abrindo a porta.
Constrói-se também mudando as condições dentro da sala.

Mónica Rodrigues

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Mónica Rodrigues

Mónica Rodrigues

Consultora, formadora e especialista em comunicação, liderança e género, fundadora da Public Speaking Academy - Cabo Verde e do Movimento Eco-feminismo em Cabo Verde e Madagascar. Atua nas áreas de comunicação estratégica, liderança feminina, sustentabilidade e diplomacia climática, desenvolvendo projetos ligados à presença executiva, posicionamento e transformação social.

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