A procura turística e o possível estrangulamento da oferta turística no curto prazo

O turismo consolidou-se como um dos principais motores da economia cabo-verdiana, desempenhando um papel determinante na geração de emprego, rendimento, receitas externas e investimento. Depois do choque provocado pela pandemia da Covid-19, a recuperação do setor foi particularmente expressiva e os números mais recentes mostram que Cabo Verde entrou numa nova fase da sua trajetória turística.

Durante muitos anos, a principal preocupação foi estimular a procura: aumentar o número de visitantes, conquistar novos mercados, reforçar a conectividade aérea e atrair investimento. Hoje, perante o dinamismo observado, começa a colocar-se uma questão diferente: estará a oferta turística a crescer suficientemente depressa para acompanhar a procura?

Os dados do Instituto Nacional de Estatística ajudam a compreender a dimensão desta questão. Em 2025, os estabelecimentos hoteleiros receberam cerca de 1,25 milhões de hóspedes, mais 6% do que em 2024, enquanto as dormidas aumentaram 8,3%, ultrapassando 6,1 milhões. Mais significativo ainda para a análise da capacidade instalada, a taxa média de ocupação-cama passou de cerca de 60% em 2024 para 72% em 2025. Os primeiros dados de 2026 confirmam a robustez da procura: no primeiro trimestre, o número de hóspedes aumentou 16,8% em termos homólogos.

Estes números não significam que Cabo Verde tenha atingido a sua capacidade turística máxima. Uma taxa média de ocupação de 72%, por si só, não permite concluir que exista saturação. Contudo, a rapidez do crescimento da procura e a utilização crescente da capacidade instalada justificam que se comece a analisar a possibilidade de surgirem, no curto e médio prazo, restrições do lado da oferta, sobretudo em determinadas ilhas e nos períodos de maior procura.

Em economia, quando a procura cresce mais rapidamente do que a capacidade produtiva, existe inicialmente um efeito positivo sobre a utilização dos recursos. Os hotéis aumentam a ocupação, as empresas vendem mais, crescem as receitas e melhora a rentabilidade dos investimentos. Porém, à medida que a capacidade disponível diminui, o crescimento adicional da procura começa também a exercer pressão sobre os preços. No turismo, isso pode traduzir-se no aumento dos preços dos quartos, das tarifas aéreas, dos transportes e de outros serviços. Uma parte desta valorização é desejável quando resulta da melhoria da qualidade e do posicionamento do destino em segmentos de maior valor acrescentado. O problema surge quando os preços aumentam essencialmente devido à escassez, sem uma melhoria proporcional da qualidade.

Do ponto de vista macroeconómico, esta distinção é particularmente importante. O crescimento nominal das receitas turísticas pode resultar do aumento da quantidade de serviços prestados ou do aumento dos preços. Para Cabo Verde interessa que uma parcela significativa desse crescimento continue a resultar da primeira componente, traduzindo-se em mais produção, emprego, investimento e valor acrescentado real. Se a capacidade produtiva se tornar demasiado rígida, uma parte crescente do dinamismo da procura poderá transformar-se sobretudo em pressão sobre os preços.

Importa, contudo, compreender que a capacidade turística de um país não corresponde apenas ao número de camas disponíveis. O turismo funciona como uma cadeia produtiva complexa. Para receber mais visitantes não basta construir novos hotéis. É necessário dispor de transporte aéreo e aeroportos com capacidade adequada, água, energia, saneamento, transportes terrestres, telecomunicações, trabalhadores qualificados, serviços de saúde, restauração, atividades de lazer e sistemas eficientes de gestão de resíduos.

A verdadeira capacidade turística é, portanto, determinada pelo elemento mais restritivo desta cadeia. Podemos ter quartos disponíveis e enfrentar limitações na conectividade aérea; podemos aumentar os voos e enfrentar falta de trabalhadores; podemos expandir hotéis e aeroportos e encontrar restrições na produção de água e energia. Por esta razão, o planeamento turístico deve estar articulado com o planeamento das infraestruturas, dos recursos humanos e dos serviços públicos.

A concentração territorial do turismo torna esta questão ainda mais relevante. Em 2025, aproximadamente 58% dos hóspedes alojados nos estabelecimentos hoteleiros ficaram na ilha do Sal e cerca de 24% na Boa Vista. Em conjunto, as duas ilhas representaram mais de 80% das entradas hoteleiras do país. Isto significa que Cabo Verde pode possuir capacidade turística disponível quando analisado como um todo e, simultaneamente, enfrentar fortes pressões sobre a capacidade instalada nos seus dois principais destinos.

Esta concentração reforça a importância da diversificação territorial. Santo Antão, São Vicente, Santiago, Fogo, Maio, São Nicolau e Brava apresentam condições para desenvolver produtos complementares ao tradicional turismo de sol e praia, nomeadamente turismo de natureza, montanha, cultura, gastronomia, turismo rural, náutico e de eventos. Mas essa diversificação não acontecerá automaticamente. Exige conectividade interilhas eficiente, alojamento adequado, promoção, qualificação profissional, investimento e produtos turísticos estruturados e comercializáveis.

O crescimento da procura levanta ainda uma questão estratégica mais profunda: deverá Cabo Verde continuar a privilegiar fundamentalmente o aumento do número de turistas ou deverá colocar maior ênfase no valor económico gerado por cada visitante? As duas estratégias não são incompatíveis, mas, num pequeno Estado insular com recursos territoriais e naturais limitados, existe uma forte racionalidade económica em aumentar progressivamente a receita e o valor acrescentado por turista.

Por isso, o sucesso do setor não deveria ser avaliado apenas pelo número de visitantes. É igualmente importante acompanhar as dormidas, a estadia média, a despesa por turista, as receitas externas, a produtividade, o emprego criado e, sobretudo, o valor acrescentado que permanece efetivamente na economia nacional. Um turista que permanece mais tempo, frequenta restaurantes, realiza excursões, compra produtos nacionais, utiliza serviços de empresas locais e visita várias ilhas pode produzir um impacto económico muito superior ao de um visitante com reduzida ligação ao tecido produtivo nacional.

Esta questão remete diretamente para a integração do turismo com os restantes setores da economia. Quanto maior for a capacidade da agricultura, das pescas, da indústria alimentar, dos transportes, das indústrias criativas, do comércio e das pequenas e médias empresas para responder à procura turística, maior será o efeito multiplicador do setor. Pelo contrário, se cada aumento da procura turística provocar um crescimento proporcional das importações, uma parcela importante do rendimento gerado sairá novamente da economia. O turismo deve, por isso, ser encarado também como um enorme mercado para o desenvolvimento empresarial nacional.

A possibilidade de estrangulamento da oferta não deve ser vista como uma previsão pessimista. Pelo contrário, é um desafio associado ao sucesso do setor. Uma procura crescente constitui um poderoso sinal para novos investimentos. O problema reside no facto de a procura poder crescer muito mais rapidamente do que a capacidade necessária para lhe responder. Um hotel, uma expansão aeroportuária, uma unidade de dessalinização, uma central de produção de energia ou um sistema de saneamento exigem planeamento, financiamento e execução, podendo demorar vários anos até entrarem em funcionamento.

Por isso, quando os sinais de saturação se tornam evidentes, poderá já ser tarde para responder imediatamente. Cabo Verde deveria desenvolver e atualizar regularmente cenários de procura e capacidade turística para horizontes de cinco e dez anos. As projeções de hóspedes e dormidas deveriam ser confrontadas, ilha por ilha, com a evolução prevista das camas disponíveis, taxas de ocupação, assentos aéreos, capacidade aeroportuária, disponibilidade de mão de obra, produção de água e energia, saneamento, mobilidade e investimentos programados.

A pergunta estratégica deixaria, assim, de ser apenas “quantos turistas queremos receber?” e passaria também a incluir “quantos turistas conseguimos receber com qualidade e sustentabilidade, onde existe capacidade adicional e que investimentos precisamos realizar hoje para acomodar a procura de amanhã?”.

Os números recentes mostram que esta reflexão já se justifica. Cabo Verde ultrapassou a barreira de um milhão de hóspedes e atingiu cerca de 1,25 milhões em 2025, enquanto a ocupação-cama aumentou significativamente. A procura continua dinâmica e fortemente concentrada no Sal e na Boa Vista. Isto não significa que o país esteja perante uma saturação turística iminente, mas significa que a política económica deve começar a dedicar à capacidade da oferta a mesma atenção que, durante muitos anos, dedicou ao crescimento da procura.

O verdadeiro desafio já não consiste apenas em trazer mais turistas para Cabo Verde. Consiste em garantir que cada novo visitante possa ser transformado em mais valor acrescentado, produtividade, emprego qualificado, receitas externas e oportunidades para as empresas nacionais, sem comprometer a qualidade e a sustentabilidade do destino. Se conseguirmos antecipar os constrangimentos e realizar os investimentos necessários antes de a capacidade instalada se tornar efetivamente uma restrição, o possível estrangulamento da oferta deixará de constituir uma ameaça e transformar-se-á num sinal para uma nova geração de investimentos. Talvez seja precisamente esta capacidade de antecipação que determinará a próxima etapa do desenvolvimento turístico e económico de Cabo Verde.

 

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Carlos Bentub

Carlos Bentub

"Economista, consultor e funcionário público. Além do seu trabalho profissional, Carlos Bentub é pai, amigo, sorriso fácil, aventureiro e preocupado com questões sociais e ambientais. Para ele, a diferença entre o possível e o impossível está no limite de cada ser humano."

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