As 100 voltas à volta do Sol da matriarca Tunga

Hoje, no dia em que a minha avó Tunga completa um século de vida, dedico-lhe esta crónica, em reconhecimento da importância que ela tem na minha vida. Parabéns avó! Vida, saúde e boa disposição sempre!

Por ter nascido na casa dos meus avós maternos, desde cedo me apeguei a eles e aos seus mimos.

Quando a minha mãe teve que emigrar para o Luxemburgo, ficou decidido que eu e as minhas irmãs íamos ficar na casa dos nossos avós paternos, em Agriões. Como é natural, a principio, eu não acatei de bom agrado a ideia e deixei manifestar-se a minha rebeldia.

No entanto, a decisão estava tomada e nada haveria a fazer. Íamos ficar em Agriões e ponto final! Sempre que possível, eu e a minha irmã mais nova poderíamos vir passar alguns dias com os nossos avós maternos, em Fajã de Barreira.

Nos primeiros tempos, sempre que vínhamos passar curtos períodos de tempo com os nossos avós maternos, era difícil fazer-nos retornar a Agriões, especialmente eu. A minha avó ficava bastante condoída quando me via a chorar e afirmar, com rebeldia, que não queria ir embora. Para me persuadir, arranjava-me, quase sempre, um casal de borrachos.

Recordo-me de uma certa vez em que me rebelei por completo. Nada, nesse dia, me fazia convencer a regressar a Agriões. Fui levado, praticamente, à força. Quando chegamos junto à escola de Pia de Cima, decidi mesmo que de lá não haveria de passar. Estava completamente possuído, nesse dia!

Ao ver a cena, um senhor, que passava no caminho e que ia à casa dos meus avós, ofereceu-se para me levar às cavalitas. A certa altura decidi ferrar-lhe os dentes, ao que ele se viu obrigado a colocar-me de volta no chão. Aproveitei o momento para tirar dos bolsos uns rebuçados e arremessa-los para bem longe. Logo de seguida, tomei um banho de terra e sujei-me todo. Embora já não me recorde do que se passou de resto nesse dia, duvido muito que eu não tenha tido um encontro com o “ingrato”, o cinto do meu avô.

Com o passar do tempo, fui-me acostumando à nova vida e o “ingrato” tirou-me boa parte da rebeldia que eu trazia comigo. Ainda, assim, sempre que mirava Fajã de Barreira desde Agriões, as saudades de casa invadiam a minha alma.

Os mimos da avó Tunga ajudaram também no meu processo de adaptação. Ia sempre com ela para as hortas. Às vezes para o Leandro, outras vezes para N’ceta. No Leandro tinha vários pés de café, ao que me puseram nome de “Pé de Café”, só porque lá ia sempre na companhia da avó Tunga. De N’ceta recordo-me das batatas ginjinhas que eu apreciava imenso. Quando íamos a Ribeira de Zebêl, colhia sementes de tanchagem (santaja) que juntava numa folha de inhame. Em casa, a minha avó oferecia-me leite de cabra tirado na hora, que eu misturava com a santaja. Que delícia!

Também, na altura das azáguas, passávamos alguns dias na merada da Tabuadinha. Desse local guardo memórias dos imensos milheirais, dos vários pardais que caçávamos nas armadilhas para fazer churrasco. Recordo-me das joaninhas e das flores de lilua que, no seu denso amarelo, cobriam o Campo Abaixo, tal qual uma chuva de ouro. Ainda, recordo-me dos queijos frescos suspensos numa tábua, a nossa sobremesa que acompanhava o café de manhã.

O tempo, o “ingrato” e, especialmente, a minha doce avó Tunga contribuíram imenso para que eu deixasse de ver Agriões como um “quartel militar”, onde eu fui prestar “infância militar” obrigatória, e passasse a vê-la como uma parte importante da minha vida. Tanto é que, quando a minha mãe regressou a Cabo Verde, eu já não queria deixar Agriões para voltar para Fajã de Barreira. Tinha conquistado um novo elo!

Hoje, no dia em que a minha avó Tunga completa um século de vida, dedico-lhe esta crónica, em reconhecimento da importância que ela tem na minha vida. Parabéns avó! Vida, saúde e boa disposição sempre!

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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