As três pernas da panela de uma amizade

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Photo by Helena Lopes on Pexels.com

As três pernas da panela de uma amizade

"Há quem diga que mulheres, quando são amigas, ficam insuportáveis, porque concordam sempre uma com a outra e não se desgrudam. Há quem diga que as mulheres são falsas, mas a verdade é que é muito bom ter amigas: aquela a quem contas tudo, e sentes que foste entendida. Aquela que te dá broncas. Aquela que te abraçou em silêncio e te sentiu chorar. Aquela que parece ser a tua mãe, e vive para te dar conselhos. Aquela que te deu o conselho certo, que não seguiste! Aquela que segura o teu braço quando tropeças, aquela que te irrita, mas que não imaginas a vida sem ela. Aquela que te defende de tudo e de todos. E tem também as melhores amigas, aquelas, que são simplesmente aquelas." Autor desconhecido
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Março das mulheres chegou ao fim. E para celebrar as mulheres da minha vida, deixo-vos com a estória de uma amizade.

O ano era 1976. O mês, fevereiro. Os lugares Mindelo e Ribeira Brava. Maria, com 35 anos acabadinhos de fazer, estava em trabalho de parto. De um parto que quase lhe levou a vida e da filha que trazia à luz de Canto Fajã.

Enquanto isso, Filó em Mindelo, casada havia pouco mais de um ano, ostentava a linda silhueta de uma mulher grávida de seis meses. Grávida da sua primogênita, apesar de ela não saber ainda que seria uma menina, e que nasceria quase na virada de maio.

A Ceci, ou Mana, moradora em Ribeira Bote, casada há já uns anitos, descobria estar de esperanças, e que em setembro, se assim Deus permitisse, teria nos braços o tão esperado rebento.

A Maria trouxe a Lúcia, sob o signo de Aquário. À Filó coube uma geminiana, a Helena. E para completar, a Ceci ganhou a Cristina, sob o sol de Virgem.

Maria, Filó, Ceci: três mulheres, cada uma do seu tempo, cada uma com sua força, cada uma com uma história diferente, mas com muitos pontos em comuns. Uma patchê, uma cabrêra, e uma mindelense.

Apesar de pertencerem a “gerações diferentes”, essas mulheres, no já longe ano de 1976 do século passado, não sabiam que estavam a conjurar as três pernas da caldeira de uma amizade.

Maria, cumprindo o destino de muitas São Nicolauenses, viu-se de mala e cunha em direção à ilha de São Vicente, que prometia melhores condições de vida e de estudos para os filhos. A Filó, cedo começou a trabalhar, pois essa era a sina das manas mais velhas, que se viam muitas vezes, no papel de mãe dos irmãos mais novos. A Ceci, deixou Bubista ainda criança, e juntou-se à carreirinha de primas-irmãs, ou irmãs-primas que a “Vô”criou, na casa mais barulhenta e acolhedora que tive o prazer de frequentar em Ribeira Bote.

Maria, a dona de casa, muitas vezes foi atendida pela Filó, a simpática e competente funcionária da Casa Miranda, assim como acredito que as duas foram picadas pela agulha da seringa que a Ceci fazia uso, para a retirada de sangue para as análises clínicas.

Os caminhos dessas três mulheres devem ter se cruzado vezes sem conta, em Mindelo, antes das filhas, Lúcia, Helena e Cristina se conhecerem numa sala de aula do ciclo preparatório, e sonharem ser amigas.

Acredito que devem ter se encontrado em algumas reuniões de pais com os diretores de turma, e talvez lhes tenha sido dito, que as filhas eram boas alunas, cujo único inconveniente era o “falar” demais. 

Durante anos, Maria, Filó e Ceci, só se conheceram através das falas que as respectivas filhas levavam para casa, mas nunca sonharam que aquelas três miúdas, tão diferentes umas das outras, pudessem estar a construir uma amizade de comadres. Elas nunca souberam das muitas diabruras que as filhas fizeram em conjunto, e levaram anos para finalmente entenderem que as filhas eram um reflexo bem mais elaborado delas mesmas.

Encontraram-se pela primeira vez de forma formal, no dia em que aquelas bebés de 76, estavam todas catitas para receberem a Flor de Finalistas do Liceu. Voltaram a se encontrar as três sob o mesmo teto em que estavam as filhas, quase vinte anos depois, no aniversário da mais velha das três: a Maria.

Maria, dez anos mais velha que a Ceci, e treze anos mais velha que a Filó, nunca as tratou por tu. E vice-versa. O respeito entre as três sempre foi notório, e a amizade também, apesar de umas pequenas cenas de ciúmes que aconteciam, principalmente da parte da Maria, pois a sua Lúcia, a dado momento passou a chamar a Filó de Mãe-Filó. Acredito que durante os anos da adolescência, as filhas tenham ouvido uma ou outra coisa menos abonatória sobre a “amiga” dita pela voz respetiva mãe, mas a determinação e personalidade forte herdadas só fizeram com que continuassem a cultivar a amizade, que teve como base o espelho das amizades que viram as mães cultivarem com outras mulheres.

Os anos passaram, e essas três mulheres, cada uma com um casamento vivido de forma diferente, cada uma com um número de filhos diferente, cada uma com dores da vida diferentes, viram suas vidas se cruzarem nos balcões da empresa onde pagavam a conta de luz, no laboratório do hospital onde faziam os exames de rotina, nas festinhas de aniversário de netos e netas.

Elas choraram quando a mais velha ficou viúva, ficaram tristes e preocupadas quando a mais nova começou a ficar mais debilitada, e voltaram a chorar quando a do meio perdeu o seu amado Cila.

A Lúcia, a Helena e a Cristina são hoje mulheres maduras, determinadas e autônomas, mais parecidas com as respetivas mães do que gostam de admitir, e que apesar de todas as diferenças e os sinais que apareceram ao longo das suas vidas, que indicavam a incerteza de uma amizade duradoura, são amigas, comadres e manas da vida e para vida.

Elas se apoiam tanto nos momentos “sab pa fronta”, como nos momentos de “afronta”, são as maiores incentivadoras umas das outras, mas também sabem puxar as orelhas umas às outras com a delicadeza de um elefante, sem que fiquem de mal. Existem aquelas coisas que são faladas primeiro para uma, e só depois para a outra. Quando é preciso uma intervenção, ela é feita com uma a bater “duro” e a outra passar a pano quente para doer menos. A Lúcia e a Cristina têm uma admiração enorme pelo casamento da Helena, e gostam de pensar que foram elas, os cupidos. Helena e Cristina não cansam de dizer e demonstrar à Lúcia, a mãe espetacular que é. E a Lúcia gosta de dizer que se não fossem os exemplos da Mãe Maria, da Mãe Filó e da Mana Ceci, ela não seria a mãe e mulher que é, nem as amigas.

Se em fevereiro de 1976 dissessem à Maria, Filó e Ceci, que nesse mesmo ano nasceriam, duas meninas, que juntando às suas respetivas filhas, seriam as três pernas da panela de uma amizade improvável, elas iriam rir e responder: já bsot vrá bruxo? E sim, o Universo é bruxo, e ainda bem que o é, porque ao contrário do que o leitor possa estar a pensar, neste caso, são as filhas, as pernas da caldeira da amizade que nasceu entre Maria, Filó e Ceci. As três mulheres a quem rendo a minha homenagem neste mês de março, que apesar de ter sido duro, conseguiu manter a ternura.

 

Vera Figueiredo

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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