Ascensão da Diplomacia Tecnológica: Uma Nova Fronteira para Cabo Verde

O conceito da diplomacia tem sido tema de discussões entre vários autores durante séculos, dividindo-as em várias categorias e períodos.

No livro “A Diplomacia Pura” de José Magalhães, encontramos inúmeros conceitos de autores em diferentes épocas. Por exemplo, Morton Kaplan considera a diplomacia como a formulação de uma estratégia visando a consecução dos interesses nacionais no campo internacional, bem como a execução dessa estratégia pelos diplomatas. Enquanto Jacques Chazelle define a diplomacia como um conjunto de meios e atividades específicas que um Estado consagra ao serviço da sua Política Externa e Charles de Martens, autor de um célebre “Guide Diplomatique” publicado em 1822, define diplomacia como a ciência ou arte das negociações.

A Diplomacia nas Relações Internacionais possui várias vertentes, que atuam de forma diferente no cenário internacional, como por exemplo a Diplomacia Política, Económica, Cultural, Ambiental, Humanitária, de Saúde e, por último, a nova tendência que é a Diplomacia tecnológica. Cada uma dessas vertentes tem seus próprios objetivos, métodos e áreas de foco.

Pode-se dizer que o termo Diplomacia Tecnológica surgiu em 2017, quando a Dinamarca nomeou Casper Klynge como primeiro embaixador tecnológico em Silicon Valley, São Francisco, EUA, com o objetivo de estreitar relações com empresas tecnológicas globais e promover a economia digital do país, a partir desta comunidade que é o maior ecossistema de inovação do mundo. A iniciativa da Dinamarca foi prontamente imitada por mais de vinte outros países e Organizações Internacionais. Um exemplo disso é a União Europeia, que, em 2022, abriu uma embaixada em Silicon Valley para facilitar a comunicação com as Big Tech.

Numa entrevista dada ao The National, jornal online dos Emirados Árabes Unidos, em 2018, perguntou-se a Casper o que exatamente um Embaixador tecnológico faz e ele retorquiu que que através da diplomacia tecnológica consegue-se responder a importantes tendências internacionais, pois as grandes empresas tecnológicas são agora tão poderosas, ostentando enormes volumes de negócios, como é o caso da Apple que apresenta anualmente o balanço financeiro igual ao PIB da Dinamarca. Segundo Casper este poder pode ser transformado em influência política, um papel semelhante ao dos Estados, diz o embaixador dinamarquês. “Portanto, precisamos de representação diplomática para lidar com as Big Tech. A tecnologia definirá quem serão os vencedores e os perdedores na próxima década e queremos ajudar a humanidade a colher os benefícios, sublinhou Casper, explicando que durante o dia lida com empresas de tecnologia, países e organizações internacionais. “Tenho uma agenda ampla que vai desde a segurança cibernética até ao terrorismo online”, afirmou.

Mais adiante, Casper foi novamente questionado: “Se muitas das regras que governam a política global foram forjadas após a segunda guerra mundial, como a criação da ONU e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, será que estas regras poderão ser mantidas ou será necessário recomeçar à medida que equilibramos a liberdade e a segurança online?” No entender de Casper esta é uma pergunta de um milhão de dólares. “Podemos governar como nos últimos 60 anos? Poderá uma convenção de Genebra aplicar-se a uma Era digital em que os ataques cibernéticos são tão prejudiciais quanto a guerra convencional? As próprias grandes tecnologias estão propondo novas normas internacionais, replicou.

Casper Klynge é formado em Ciência Política e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Copenhaga, e sempre seguiu uma carreira diplomática, ocupando vários cargos em missões diplomáticas ao redor do mundo. Hoje, ele ocupa o cargo de Vice-Presidente da Microsoft para Assuntos Governamentais Europeus, sendo responsável por todos os assuntos governamentais e trabalhos de políticas públicas da Microsoft em todo o continente.

O exemplo de Casper quebra a ideia utópica de que ser um embaixador tecnológico implica ter uma formação em Ciências da Computação ou em Engenharia Informática. Embora possa ser vantajoso, não é a única forma de adquirir conhecimentos e habilidades para representar, informar, negociar, promover e proteger os interesses do Estado acreditante.

Do meu ponto de vista, acredito que um embaixador tecnológico deve carregar, além da paixão pelas TICs, um entendimento sólido de suas aplicações e impactos, habilidades de comunicação, conhecimento sobre o direito voltado para as tecnologias e capacidade técnica de negociação.

Os debates sobre a complexidade do ecossistema da Internet e o desenvolvimento das tecnologias nos dias de hoje acontecem anualmente em conferências internacionais.
Essas conferências têm como objetivo reunir informações sobre tecnologias de ponta e estabelecer contatos com altos executivos de empresas tecnológicas globais, bem como promover novos fóruns de diálogo e discussão entre diplomatas, representantes de empresas e sociedade civil. Exemplos dessas conferências incluem o IGF (Internet Governance Forum), o ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), Web Summit entre outros.

O IGF foi, formalmente, anunciado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas em 2006. É um fórum multissetorial que reúne governos, setor privado, sociedade civil, organizações internacionais, comunidade técnica e académica para discutir questões relacionadas à governança da Internet. Sua primeira edição ocorreu em 2006, em Atenas, Grécia, e a última foi realizada em Kyoto, Japão, no mês de outubro de 2023. Durante essas conferências, são discutidos temas como inteligência artificial e tecnologias emergentes, cibersegurança, internet livre, aberta e inclusiva, governança e cooperação digital global, bem como questões relacionadas a valores universais como liberdade e direitos humanos.

Em relação a Cabo Verde, o país já realizou a terceira edição do Fórum de Governança da Internet, organizado pela ARME. A última edição, em que estive presente, foi sedeada na Universidade de Cabo Verde, Polo I, em junho de 2023, e teve como lema “A internet que queremos, empoderando pessoas”.

O nosso país tem investido fortemente no acompanhamento da transformação digital global, direcionando recursos para a educação, infraestruturas e parcerias a nível regional e internacional. Alguns exemplos desse esforço é o acordo celebrado entre Cabo Verde e a Microsoft para impulsionar a Economia Digital, além dos Correios de Cabo Verde estarem à procura de uma parceria com a incontestável Amazon, só para citar esses dois. Segundo o World Economic Forum, a Economia Digital representa mais de 15% do PIB mundial, e Cabo Verde ambiciona atingir a marca de 25% da Economia Digital no seu PIB até 2030. Uma das metas da Política Externa de Cabo Verde é definir as diligências diplomáticas no sentido de transformar Cabo Verde num hub digital regional.

Já agora, numa atitude, provocadora ou não, pergunto às autoridades nacionais: “Face à ambição e às metas propostas no domínio digital, não é chegado o momento de começarmos a pensar em ter um Embaixador tecnológico em Silicon Valley, para explorar parcerias com as Big Tech?

A Política Externa de um país é um processo adaptativo e deve ser pensada fora da caixa, na construção de novas metas e parcerias.

O certo é que, nas próximas décadas conheceremos os vencedores e os perdedores, e os vencedores serão aqueles que souberam acompanhar os avanços das tecnologias.

It’s time.!

 

 
 
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Kenny Chantre

Kenny Chantre

Estudante do Curso Relações Internacionais e Diplomacia e Embaixador Pan-Africano para a Governança da Internet.

Outros artigos

Deixe um comentário

Follow Us