Azáguas: Entre o despertar do Atlântico Tropical e a Utopia de Chuva em Cabo Verde

Azáguas: Entre o despertar do Atlântico Tropical e a Utopia de Chuva em Cabo Verde

O mês de junho marca o início oficial da temporada de furacões no Atlântico Norte, período que se estende até 30 de novembro e que é caracterizado pela formação de fenómenos atmosféricos com origem nas águas tropicais do oceano atlântico, abrangendo uma extensa área que vai desde região Oeste Africana até à região Leste dos EUA (em especial, Golfo do México).

A existência de movimentos de rotação, em sentido contrário ao dos ponteiros de relógio, a partir de uma latitude de 10 graus no Hemisfério Norte, organizados e persistentes está na origem da formação de áreas de baixas pressões (depressões), envolvidas por nuvens de grande desenvolvimento vertical, como por exemplo, os cumulonimbus. Normalmente, os sistemas que se formam na região tropical do Atlântico Norte, entre os 10 e 30 graus de latitude, evoluem para ciclones tropicais, que podem ocasionar trovoadas e chuvas torrenciais.

Antes de ser graduado para furacão, um ciclone tropical passa por dois estágios de desenvolvimento com denominações e características especificas. Assim, se o sistema apresenta alguma organização e a circulação à superfície vai-se definindo gradualmente, no entanto a intensidade do vento médio é inferior a 62 km/hora, designa-se-lhe de depressão tropical e, quando o vento médio é superior a essa referência e inferior a 119 km/hora, recebe a designação de tempestade tropical.
Um furacão é um sistema baixa pressão (depressão), caracterizado pelo ar em movimento giratório, com a intensidade do vento médio a atingir valores de pelo menos 119 km/h e o diâmetro da superfície envolvente a alcançar centenas de quilómetros.

São vários os fatores atmosféricos e oceânicos que, favoravelmente, contribuem para a formação e desenvolvimento dos ciclones tropicais, nomeadamente: existência de uma perturbação tropical inserida numa onda de leste; elevada humidade nos extratos inferiores da atmosfera; existência de vento com intensidade fraca; baixa variação do vento em intensidade e/ou direção com a altitude – fenómeno que se denomina wind-shear (gradiente de vento); e elevada temperatura da superfície da água do mar (acima dos 26,5 graus Celcius).

No início dos anos 70 do século XX, Herbert Saffir e Robert Simpson classificaram a intensidade dos furacões numa escala (Escala Saffir-Simpson) que, até hoje, possui 5 categorias, baseando-se nos valores da pressão atmosférica, velocidade do vento e sobre-elevação do nível médio do mar. Os níveis 1 e 5 apresentam, respetivamente, um potencial destruidor mínimo e catastrófico.

Fonte: NOAA

Este ano, o Centro Nacional de Furacões dos EUA (NHC, na sigla original) prevê uma temporada de furacões acima do normal no oceano atlântico tropical, na qual se espera nomear entre 14 a 21 tempestades tropicais, das quais 6 a 10 poderão evoluir-se para a categoria de furacão. Destes, 3 a 6 poderão alcançar o nível 5 na escala Saffir-Simpson.

Se do outro lado do Atlântico a preocupação face a estes fenómenos atmosféricos e oceânicos se prende, em especial, com o seu potencial destruidor que chega a gerar prejuízos de centenas de milhares de milhões de dólares e resultar em várias vítimas, deste lado, aqui nas ilhas de Cabo Verde a preocupação maior é em torno da queda de precipitação suficiente para que o ano agrícola se situe entre o satisfatório e o excelente. No entanto, já houve anos em que a chuva foi significativa ao ponto de gerar vários estragos materiais e causar vítimas.

Foi o caso do ano de 1984, quando em setembro o céu “despejou-se” sobre esses pequenos grãozinhos de terra que Deus lançou no mar. Entre os dias 15 e 17 desse mês, a tempestade tropical Fran beijou (mortalmente) as frágeis ilhas de Cabo Verde, deixando água e fartura subsequente, mas também um rasto de destruição e morte significativo. Ao todo, estima-se que a passagem do Fran pelas ilhas de Cabo Verde tenha resultado em prejuízos materiais de 2,84 milhões de USD (valores de 1984) e causado entre 29 a 32 mortes (Wikipedia).

Em 2015, pela segunda vez na história, desde que há registos meteorológicos desses fenómenos, registou-se a passagem de um furacão pelas ilhas de Cabo Verde. No dia 28 de agosto, o NHC começou a seguir com interesse uma área de baixas pressões alongada, associada a uma vigorosa onda tropical proveniente do interior do continente africano, que apresentava sinais de organização e desenvolvimento junto da costa da Guiné. No dia seguinte, a perturbação atmosférica fez um desvio para noroeste e entrou no Atlântico, numa zona próxima à Conacri.

Às primeiras horas do dia 30 de agosto, a consolidação de fortes tempestades próximo de um centro de baixas pressões bem definido indicava que uma depressão tropical havia se formado, aproximadamente a 300 milhas a oeste-noroeste de Conacri.

Seguindo-se por uma trajetória pouco comum, a depressão tropical encontrou um conjunto de fatores favoráveis (ventos fracos, temperatura da superfície da água do mar acima da média e elevada humidade) à sua organização e intensificação, passando, assim, a ser considerada uma tempestade tropical. Às 00h00 UTC, do dia 31 de agosto, inesperadamente, o Fred já reunia todas as características de um furacão tropical, em especial um “olho” bem definido. O furacão Fred, de categoria 1, “rasgou” o arquipélago de Cabo Verde, numa trajetória que o levaria a passar por entre as ilhas do Maio e da Boa Vista, embora mais a sul desta, tendo ainda afetado o estado do tempo nas ilhas do noroeste de Cabo Verde, onde para além de fortes chuvas o vento se fez sentir de forma intensa.

Nos últimos anos as precipitações nas ilhas têm sido escassas e localizadas, e os efeitos da seca prolongada já se fazem sentir em vários aspetos do quotidiano do povo das ilhas. A pandemia de Covid-19 e, mais recentemente, a crise resultante da guerra na Ucrânia vieram aumentar o custo de vida um pouco por todo o mundo, especialmente, num país como o nosso, onde praticamente tudo o que se consome é importando. Só nos resta esperar que as “azáguas” deste ano garantam um ano agrícola satisfatório, senão:

“Si ca tem tchuba, morré di sede; si tchuba bem, morré fogado”


Socram d’Arievilo

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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