Carnaval de outrora – folia e criatividade

Mas não é do Carnaval atual que se pretende escrever aqui. Queremos fazer uma pequena viagem no tempo, com destino à década de noventa do século passado, para relembrar um pouco o nosso Carnaval.
Foto@Cedida por Ennio Cruz

Há dias comemorou-se mais um Carnaval. Viu-se desfiles coloridos, com muito samba no pé dos foliões, especialmente no Mindelo e Ribeira Brava, locais onde o Carnaval já se encontra mais enraizado e há grupos oficiais que anualmente saem às ruas dessas cidades para comemorar o dia do Rei Momo, sendo que, no caso do Mindelo, existe uma acérrima disputa pelos prémios atribuídos.

Certa vez, a nossa eterna Diva dos Pés Descalços, Cesária Évora, cantou que “Soncent é um brazilin” e, realmente, o carnaval do Mindelo é prova disso, dada as várias semelhanças com o carnaval do Rio de Janeiro.

Mas não é do Carnaval atual que se pretende escrever aqui. Queremos fazer uma pequena viagem no tempo, com destino à década de noventa do século passado, para relembrar um pouco o nosso carnaval. Um tempo em que ainda não havia lojas chinesas e o poder de compra não permitia gastos supérfluos. Assim, a brincadeira de Carnaval exigia uma boa dose de criatividade para fazer das velhas roupas e trapos nosso traje desse dia.

Mal fevereiro entrava, a cada domingo antes do Carnaval os mascarados percorriam as várias aldeias, a pedir “money”. Durante o tempo em que a minha inocência de menino fazia-me crer que os mascarados eram seres demoníacos que capturavam as crianças, sempre que os via começava a tremer que nem vara verde e ficava a chorar. Escondia-me dentro de casa para que não fosse apanhado pelas mascrinhas de cu pelado. Isso, até que um dia chegaram em casa uns mascarados de surpresa e não tive tempo para me esconder. Com medo, desatei a chorar. Entretanto, um veio ter comigo e pediu-me água. Dirigi-me com ele até à casinha onde ficava o pote para lhe dar água. Chegado lá, ele tirou o lenço que trazia amarrado à cabeça, assim como a máscara com a qual escondia o rosto. Foi a partir daí que eu percebi que os mascarados também eram pessoas reais como eu e comecei a perder aos poucos o medo que tinha deles.

Quando eles se foram embora, fui, juntamente com os meninos mais destemidos, atrás deles. Eles entravam em cada casa, sempre a pedir o tal de “money”. O grupo de acompanhantes gritava “ó mascrinha de cu pelód”. Eles não gostavam muito disso e desatavam a correr atrás de nós. Como eu ainda não tinha perdido por completo o medo deles, corria para casa para o meu esconderijo.

Tempo depois eu já não tinha medo nenhum dos mascarados e acompanhava os outros meninos nas provocações de “mascrinha de cu pelód”. Isso, até que eu e os meus primos começamos a nos vestir de mascarados e a sair a pedir “money”, isto é, dinheiro que, depois de partilhado pelos integrantes do grupo, servia para a compra de guloseimas.

Nas arrecadações de coisas velhas tinham uns sacos de roupas que já não tinham uso no dia a dia. Era deles que vinham os meus trajes de mascarado. Camisa, casaco, calças e sapatos velhos. Lenço de amarrar à cabeça, levava escondido dos que a minha mãe e avó tinham em casa. A máscara, começamos por fazê-la a partir de botijas de água recortadas. Recortávamos o plástico no formato de uma cara, fazíamos alguns furos para os olhos, nariz e boca, e, nas laterais, fazíamos mais dois buracos, onde prendíamos um elástico que servia de suporte para manter a máscara presa à cabeça. Posteriormente, passamos a fazê-la de balão e pasta de papel. E nos últimos anos de mascarados já a comprávamos nuns rapazes que tinham em casa moldes de fazer máscara. Essas máscaras, embora, também de pasta de papel, eram mais sofisticadas.

Diziam os mais velhos que quem se mascarasse uma vez, tinha que fazê-lo por um período de sete anos. Era tipo uma penitência que a pessoa tinha que cumprir. Caso contrário, seria punida pela justiça divina. Como, nesses tempos, o oculto ainda era bastante temido, em especial pelas crianças, era normal cumprirmos a penitência dos sete anos, a partir do momento em que, pela primeira vez, nos mascarávamos. E, realmente, vestir várias camadas de roupa e colocar uma máscara na cara, para caminhar várias horas debaixo de sol abrasador, a pedir “esmolas” (money) era e é uma dura penitência. Contudo, o sol abrasador, se comparado com o calor do inferno, não deverá ser muito mais que uma suave brisa que faz da mais dura penitência terrena algo aprazível.

No dia do Carnaval, a meninada saía pelos caminhos da aldeia a espalhar alegria e folia. Tudo era improvisado. Qualquer lata de leite vazia ou panela velha era transformada em tambor para a batucada. Cada um vestia como pudesse. Alguns trajavam roupas velhas e esfarrapadas, imitando mendigos, outros conseguiam fatos e vestidos de casamento antigos. Com o carvão raspado das panelas dava-se um toque à mandinga. E assim era o nosso carnaval, sem muita cor, mas com muito amor e criatividade.

Socram d’Arievilo, março de 2023.

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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