Com essa roupa, não! 

Uma crónica da Eileen Barbosa.

Imaginem a Maria Clara, que mora um pouco depois de Achada São Filipe e que descobriu, com um teste rápido de gravidez da farmácia, que o atraso da menstruação é de fato a tão desejada gravidez. Ela sente-se profundamente feliz e quer gritar ao mundo inteiro que vai ser mãe. Em vez disso, ela conta só à Ana, a melhor amiga, e ao JJ, claro, o companheiro. Depois de alguns dias, ela começa a sentir uma dor terrível no pé da barriga… Primeiro pensa que deve ser normal. Depois, o JJ nota que ela está com uma cor esquisita e parece estar sem fôlego. Chamam um táxi, pedem ao condutor que vá depressa à maternidade. Quando lá chegam, ela é barrada na porta. Está com um top com as costas à mostra, não pode entrar para ser atendida. O JJ fica possesso e arma um escândalo. O segurança diz que são as novas regras. O médico vem também à porta dizer-lhes que ela que vá trocar de roupa. Quando se dão conta de que ela já não se aguenta de pé e é transportada lá para dentro, já é tarde para lhe salvar a trompa de falópio, que arrebentou com o feto que ali se instalara. Gravidez ectópica. Conseguirá engravidar de novo com apenas uma trompa? Esperemos que sim. 

Imaginem a Ana, a Judite e a Carlina, irmãs da Maria Clara, que também foram barradas na porta, não a puderam visitar, porque uma tinha as jeans da moda, rasgadas nos joelhos, outra um vestido cinco dedos acima do joelho, embora de manga três quartos. E a terceira, de quinze anos, trazia um top que está muito na moda, e mostra a barriga. Elas estão vestidas informalmente, e a roupa delas é aceitável em qualquer sítio genérico. Na maternidade, não podem entrar. 

Eu não pude entrar ontem para ir fazer uma ecografia porque estava de calções, numa sexta-feira à seis da tarde, hora marcada pela médica. Quem o proibiu nem foi o segurança, foi um dos ginecologistas que lá estava. Ah, o zelo deste doutor! 

Vocês haveriam de esperar que regras tão radicais do género de nem funcionários nem utentes poderem entrar na maternidade de calções, saias curtas, decotes, calças rasgadas, etc, etc, fossem implementadas com um plano de educação e comunicação, com um programa calendarizado para dar conhecimento, para sensibilizar as pessoas, para emitir avisos e só depois para fazer valer as regras. Mas não. Na maternidade do Hospital Universitário Agostinho Neto, num só dia o cartaz é colado na porta e imediatamente, qualquer pessoa deixa de poder entrar com a roupa e os sapatos que trazia no corpo quando foi acometida por uma dor, quando descobriu que a mulher foi internada para ir parir, quando teve que acompanhar a filha que está sofrer um aborto espontâneo. 

Eu vivi 5 meses e meio na Irlanda e nunca andei de calções e chinelos enquanto lá estive. Se tivesse que ir de repente a uma repartição pública, estaria sempre “decente”. Assim como todas as outras pessoas, até as mais pobres, pois o frio obriga a que se esteja coberto. Em Cabo Verde faz calor e as pessoas saem de casa para irem tratar das suas vidas de calções e chinelos. Há já os cobiçados estrangeiros que se mudam para aqui para trabalhar à distância, que nunca têm que vestir nada mais formal do que uma t-shirt. Há milhares de pessoas que vendem no Sucupira  e nas ruas, trabalham como empregadas domésticas e babás, e usam chinelos como o seu calçado de eleição. Está na moda andar de barriga à mostra e quem não aderiu não o fez por pudor mas sobretudo, por achar que tem a barriga um pouco grande demais. Já quase não se encontram calças jeans que não tenham rasgões e partes descoradas. Há mulheres sem peito que usam decote e ninguém nota, quando o mesmo decote numa outra parecerá exagerado. Quem somos nós, com que direito, vamos impôr que quando alguém precisa de cuidado hospitalar, essa pessoa deve estar vestida de acordo com as fotos nesse cartaz? Quem dá sapatos a quem não os pode comprar? Quem pode mandar tapar quem está com calor? 

Eu não estou a defender que não haja regras, nem que os funcionários devem ir trabalhar vestidos de qualquer forma. Não. Mas aos utentes de um serviço de saúde, onde o que mais ocorre são as emergências, barrar na porta por causa da roupa parece-me não só fútil, mas sobretudo, irresponsável, impensado, contra a nossa realidade, um excesso de zelo mal colocado e em contramão das liberdades das pessoas. 

Eileen Almeida Barbosa 

22 de junho de 2024

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Eileen Almeida Barbosa

Eileen Almeida Barbosa

Escritora, intérprete e tradutora, já trabalhou no privado e no público, recebeu prémios literários, plantou árvores, escreveu livros, participou em antologias e pôs uma menina e um menino no mundo. Continua a escrever e a gostar do mar.

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