Corpo de Sonho

Aviso de Spoiler!!!!!Texto provocativo com recurso a ironia. Fugindo um pouco da linha “editorial”, o texto deste mês traz passagens irónicas que podem levar a comentários sexistas/bajuladores.

Tudo começou com uma frase/apelo que li algures na net: “Você quer ter o corpo que sempre sonhou?”. Ao ler esta frase pus-me a pensar: eu já sonhei alguma vez com um Corpo?

Sonhei!! Sonhei sim. Quando tinha 15 aninhos, sonhava ter o corpo todo musculado da Madonna, a Diva Pop” quando chegasse aos meus 30 anos!!

Sonhava ter o meu rabo, que é um tanto quanto quadrado, todo trabalhado em um bonito redondo de massa muscular sem um pingo de gordura.

Via a mim mesma com aquelas costas tesas, lisas, musculadas num vestido “frente única” de fazer Nhô Inácio bater com a mota na parede.

E os bíceps? Sonhava com eles rijos como os das minhas primas, que vivem em São Nicolau. Mas… aí conheci o pão carcaça, o guaraná, a picanha e o bolo floresta negra, e lá se foi o sonho de chegar aos 30 com o sonhado corpo da Diva do POP, do sec. XX é claro!

Gosto de exercitar o corpo. Sempre gostei. Houve um tempo em que conseguia “carregar” 85kilos nas pernas. Houve um tempo que minhas pernas, minhas coxas torneadas, foram a parte mais linda do meu corpo, depois do cérebro, é claro.

Sou daquelas pessoas malucas, que às 5h da manhã já está na estrada a exercitar, sem preguiça nenhuma (quer dizer, mais ou menos), e atualmente o exercício é andar quilómetros e mais quilómetros de bicicleta.

Mas faço isso porque não quero ficar com o corpo “doente”. Não quero ter que gastar balúrdios com remédios para diabetes e hipertensão.

Sempre soube que um corpo de sonho é só isso: um Sonho.

Eu gosto da realidade do meu corpo. Meio flácido lá onde a lei da gravidade já chegou, com gordura localizada lá onde tenho especial horror de exercitar e firme em outros pontos.

Eu poderia estar agora aos 45 anos, com o corpo que eu tinha aos 26 anos.

Mas não teria tido o prazer de passar pela transformação que a maternidade me impôs, não teria comido montanhas de coisas “sabe pa fronta” como: carne assada dos Órgãos, torresmo, pastel de ‘mitche’, pão, arroz, batata frita, gelado de bolacha, cavala frita, cerveja ….

Não tenho nada contra quem quer ter o corpo de sonho! Desde que a procura por esse corpo não proporcione infelicidade, para mim é válido.

Agora, que a Batata Frita é “sabe pa fronta”, lá isso é !

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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