Crioulo, Língua Materna de Cabo Verde – Oficialização já!!!

O dia 21 de fevereiro como Dia Internacional da Língua Maternal foi proclamado pela UNESCO e adotado pela Assembleia Geral da ONU, como data comemorativa para vincar o papel das línguas na promoção da inclusão e no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em todo o mundo.

Sob o lema “Educação multilingue – um pilar da aprendizagem e da aprendizagem intergeracional”, este ano, pretende-se em traços gerais, chamar a atenção para a necessidade, cada vez mais, de traçar políticas de educação multilingue e inclusiva, por forma a garantir a preservação das línguas indígenas.

Um outro ponto subjacente ao lema é que ao incentivar-se a educação na língua materna do aluno e introduzir-se gradualmente outras línguas, eliminam-se as barreiras entre a casa e a escola, facilitando assim a aprendizagem e assimilação de conceitos.

Hoje mais do que nunca, vivemos num mundo cada vez mais tecnológico e inundado por uma sede insaciável de individualismo, onde os grupos minoritários e suas práticas culturais estão sofrendo perdas dos seus habitas e seus espaços de materialização.

É sobejamente sabido que a língua materna, enquanto primeiro código de transmissão de conhecimento e afeto, é o principal veículo de perpetuação do património imaterial das sociedades. Assim, todos os integrantes de um grupo humanizado, desde o seu nascimento, é batizados com as primeiras palavras da sua Língua Materna, que o acompanham ao longo do seu processo de formação identitário.

Assim, com o lema deste ano, o que se quer enfatizar é a necessidade de salvaguardar a Língua Materna, trabalhando a sua articulação e transmissão entre gerações, desde o berço, na comunidade, nas escolas e nos demais espaços formais de educação/aprendizagem e comunicação.

Se é verdade que a língua materna é transmitida de forma espontânea, através da oralidade, a sua escrita e interpretação continuam sendo barreiras visíveis no processo de salvaguarda. Se olharmos para o panorama mundial, hoje são vários os programas, projetos e instituições que se têm dedicados à problemática das Línguas Maternas e a necessidade da sua salvaguarda, quer através da oralidade, quer através do registo gráfico.

Em Cabo Verde, país insular, cuja formação sociocultural resultou de uma mistura homogénea, num espaço neutro e contextos diferentes, com pessoas das mais diversas proveniências, com prevalência em maior número de pessoas e culturas africanas, a Língua Materna reveste-se de um significado e importância primordial a formação e transmissão do Património Imaterial.

O Crioulo enquanto Língua Materna de Cabo Verde, é resultante do caldeirão cultural que se implementou no arquipélago desde de 1462 até hoje. Das nove ilhas habitadas, cada uma tem a sua variante própria, com expressões diferentes, mas que em nenhum momento inibem a comunicação ou põe em causa a coesão territorial e a relação entre os falantes de cada ilha. Aliás, esta coesão e unidade ficou plasmada no texto da Constituição da República, da mesma forma que obriga o Estado a promover as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa.

A oficialização mandatada pela Carta Magna da República de Cabo Verde, mais do que um escrito, deveria ser encarada como uma obrigação, isto depois de quase 50 anos da nossa independência e de muitos processos de ensino/aprendizagem e programas de valorização.

Ora, se recentemente tratou-se de fazer um dossier para a patrimonialização, ao nível nacional, do Crioulo de Cabo Verde, o mesmo não acontece no que tange à sua oficialização, pois o Estado de Cabo Verde, ano após ano vai adiando o inevitável, sem nunca refletir sobre o assunto e seu impacto na sociedade cabo-verdiana.

No meio de todo esse impasse, e graças a Deus, a produção literária, científica e intelectual sobre o crioulo e o processo de oficialização é bastante vasta e, a cada ano, a tendência é para aumentar, com o surgimento de novos estudiosos, novos poetas e novas linhas de debate académico. Por conseguinte, os motivos da não oficialização do crioulo deixam de ser técnicos, científicos e académicos e, passam a ser apenas e só, a falta de vontade e coragem política para debaterem, na profundidade, o tema e criar os consensos necessários para que o Parlamento Cabo-verdiano proceda a sua aprovação.

No dia 21 de fevereiro do presente ano, estarão por realizar mais webinars, palestras, mensagens de Estado, com requintes de “boa gente” ou de uma suposta preocupação sobre a temática da língua materna sem, no entanto, se preocuparem com a real problemática da não Oficialização do Crioulo.

Muitos dirão que sem a “maldita padronização” é impossível a oficialização do Crioulo enquanto Língua de Escrita, pois entendem que ainda não sabemos escrever a nossa língua, ou então, estarão nos debates vazios sobre qual a variante a ser oficializada…apenas conversa para boi dormir!!!

Está mais que provado que o cabo-verdiano, nas ilhas ou na diáspora, fala o crioulo sem complexos ou problemas nenhuns. Igualmente, está provado e, já se fazem experiências em Cabo Verde e na diáspora, de que o Ensino da Língua Crioula em pé de igualdade ou em paridade com a Língua Portuguesa, produz resultados surpreendentes no processo de integração, transmissão de conhecimento, socialização e relações entre os estudantes.

Da mesma forma, nas instituições da República de Cabo Verde, o crioulo é a língua utilizada nas reuniões, nos corredores, nas negociações e no processo de elaboração de projetos e programas, para depois a sua efetivação, em forma de documento textual, ser em Língua Portuguesa. Com isto, demonstra-se claramente que o Crioulo está em todas as condições técnicas, científicas e de uso para ser oficializado como Língua Oficial de Cabo Verde, respeitando as variantes existentes.

O lema deste ano veio mesmo a calhar, pois é mais um grito que se une ao dos cabo-verdianos, no sentido de se proceder a oficialização do Crioulo e acelerar o seu processo de entrada no sistema educativo de Cabo Verde, pois só assim estaremos cumprindo na plenitude a nossa constituição e eliminando as barreiras de aprendizagem e comunicação ainda existentes no nosso país.

A Língua Cabo-verdiana, ou melhor dito, o Crioulo Cabo-verdiano, pela sua história, pelo valor simbólico, pela sua importância no processo de transmissão dos valores da caboverdianidade e no processo de aprendizagem, merece o mesmo tratamento que é dado à Língua Portuguesa, por forma a andarem de mãos dadas no processo de salvaguarda da identidade nacional!

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Adilson Dias

Adilson Dias

Gestor de Património Cultural. Natural da ilha de Santo Antão, filho da zona de Espongeiro, sou um apaixonado pela cultura cabo-verdiana e sua riqueza patrimonial. Sempre atento a realidade do meu país, tenho nos museus a minha fonte de conhecimento e de inspiração para analisar e perceber as dinâmicas socioculturais de Cabo Verde, com especial atenção às minhas ilhas de Santo Antão e Santiago.

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