Crónica de Maputo III – “Nos di Maputo”

A comunidade radicada em Moçambique sempre foi considerada uma das mais “sofridas" e “esquecidas” de toda a diáspora cabo-verdiana.

A sua origem remonta a uma época difícil da história de Cabo Verde, a década de 40 do século passado, em que as ilhas atravessaram uma das maiores fomes e que levou homens e mulheres a procurarem alternativas, e explica o sofrimento dos que fugiram da miséria para ir ao encontro de uma vida de trabalho difícil, nas ex-colónias, e que segundo relatos, roçava o trabalho de escravo, abolido nos meados do século XIX.

A distância geográfica entre Cabo Verde e Moçambique, aliada a um
tipo de comunicação e as viagens, que na altura, estavam longe do que são hoje, levaram a que estes emigrantes fossem esquecidos, ainda mais que as dificuldades nunca permitiram o envio da “tal “encomenda que sempre contribuiu para manter vivo os laços familiares.

É melhor começar por lembrar quem são os homens e mulheres que rumaram para o sul da África nos anos de 1940, em plena fome em Cabo Verde.

Matilde Gonçalves veio da Ribeira de Principal para Moçambique com apenas 3 anos, Maria Conceição Pereira, hoje com 80 anos chegou a Maputo no navio Kuanza, depois de ter passado por Angola, para vir ao encontro do pai, em 1948. Inês Maria Pires, hoje com 90 anos, saiu de Santo Antão para São Tomé e Príncipe e mais tarde seguiu o marido para Moçambique. Apolinária de Carvalho de 86, vive há 74 anos em Maputo.

O percurso destas mulheres assemelha-se em tudo. Todas fugiram da fome que assolava Cabo Verde.

Fazem parte de milhares de cabo-verdianos, que com a abolição da escravatura foram “contratados” para regiões carentes de mão-de-obra, nomeadamente São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Dados oficiais estimam em cerca de quinhentos os cabo-verdianos que rumaram para Moçambique, provenientes de Santiago, Santo Antão e São Tomé e Príncipe.

Sobreviveram a tempos complicados, porque passaram também os moçambicanos, durante o tempo colonial e a guerra civil entre as duas maiores forças políticas FRELIMO, Frente de Libertação de Moçambique, no governo, e RENAMO, Resistência Nacional Moçambicana, maior partido da oposição, padecendo muitas vezes de dificuldades extremas como a falta de comida.

Estes emigrantes não conseguiram singrar-se nem no aparelho do estado e nem no setor privado porque eram filhos de homens do campo com baixa escolaridade que buscavam em primeiro lugar fugir à fome que matava.

Hoje, estamos perante uma comunidade pequena, antiga, pobre e envelhecida.

Antiga porque, porque grande parte reside há mais de 70 anos em Moçambique, como já vimos, e não tem havido atualmente reforço de novos contingentes, a não ser jovens quadros, com outro estatuto, que podemos falar mais à frente.

muitos recusam ter documentados moçambicanos, dizem que sempre foram e querem continuar a ser cabo-verdianos

Pobre porque, sendo maioritariamente iletrada e, consequentemente, com menos oportunidades de singrar a nível profissional e social, teve que se dedicar à agricultura e aos trabalhos domésticos, o que conduziu a que vivesse sempre na raia da pobreza extrema.

Moçambique não tem uma política de emigração, os poucos cabo-verdianos que eram do aparelho do Estado e os que trabalhavam na agricultura e na atividade doméstica ficaram sem pensão de reforma e os que optaram pela cidadania cabo-verdiana perderam automaticamente todos os seus direitos.

Estes emigrantes chamam Moçambique “o nosso país”, por ter sido a terra que os recebeu de braços abertos e onde nasceram os filhos e os netos.

No entanto, muitos recusam ter documentados moçambicanos, dizem que sempre foram e querem continuar a ser cabo-verdianos e não querem “trair” a pátria onde eles e os pais nasceram.

E como o acesso a documentos cabo-verdianos tem os seus trâmites, quase sempre difíceis, muitos acabam por ficar sem documentados. São chamados os “indocumentados.”

“Indocumentados” sim, mas cachupa, o cuscuz, o funaná, o crioulo continuam a fazer parte da cultura destes emigrantes, apesar da pouca ligação às ilhas.

O apoio social pecuniário, concedido pelo Governo de Cabo Verde, constitui a única fonte de rendimento, de um grupo de quase 30 pessoas, constituído maioritariamente por mulheres, desta primeira geração envelhecida, residente em Maputo e Nampula, e que está a desaparecer.

A segunda geração, filhos e netos, debate-se no mesmo ciclo de pobreza, onde a luta pela sobrevivência se sobrepõe ao sentimento de cabo-verdianidade. Melhor que no passado e nos novos tempos em Moçambique que não são fáceis.

A comunidade cabo-verdiana em Moçambique é também constituída hoje por muitos que vieram por questões familiares, mulheres também sobretudo, que casaram com moçambicanos e adotaram estas terras do Índico como a sua pátria.

Registados, oficialmente, no consulado honorário de Maputo estão cerca de 300 cabo-verdianos, mas acredita-se que com os da segunda e terceira geração o número pode chegar a mil.

Nas últimas eleições presidenciais, de uma lista de 57 inscritos apenas 25 escolheram o atual Chefe de Estado, prova de que o caderno eleitoral de Moçambique precisa ser atualizado. 

Há ainda, não muitos, alguns expatriados que estão de passagem a trabalhar em lugares de destaque em algumas instituições que chamam Moçambique  o “Brasil de África”, belo clima e diversidade de paisagens distribuídas pelas 11 províncias de Rovuma a Maputo de Zumbo ao Índico.

ARTIGO ATUALIZADO A 28/03.

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Hulda Moreira

Hulda Moreira

"Ao longo das últimas duas décadas a escrita televisiva ocupou grande parte da minha vida profissional enquanto jornalista. A obrigação diária de poupar nas palavras deixou em mim a vontade de libertar no vento tudo o que guardo no peito".

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