Crónica de Maputo IV – Maria Isabel Andrade, de Moçambique para o Mundo

Na minha última crónica escrevi sobre a comunidade cabo-verdiana residente em Moçambique, sobretudo em Maputo. Não por esquecimento, mas propositadamente não mencionei aquela que é a mais destacada figura de entre os cabo-verdianos que escolheram este país do Sul para viver e trabalhar. Deixei para uma próxima oportunidade, como esta, para dedicar uma crónica apenas sobre ela.
Reprodução online

Estou a falar de Maria Isabel Andrade, cientista cabo-verdiana galardoada em 2016 com o Prémio Mundial de Alimentação.

Tive a oportunidade de visitar a sua “machamba”, campo onde faz toda a sua experiência à volta do melhoramento genético de mais de 20 espécies de batata doce, situado na zona Congolote, a 30 minutos da cidade de Maputo.

Uma extensão de terra, de 15 hectares, ao pé do rio Nwalate, que fez questão de comprar, pois segundo ela sem isso não seria possível concretizar o trabalho de investigação.

Um trabalho que exige um acompanhamento próximo, rigoroso e minucioso.

Nesta visita, deu muito gosto de ver a forma apaixonada como Isabel Andrade fala do trabalho que desenvolve.

Uma labuta iniciada depois da guerra civil em Moçambique, 1977 a 1992, durante a qual cerca de um milhão de pessoas morreram em combates e por conta de crises de fome. As primeiras eleições multipartidárias no país só aconteceram em 1994, com a assinatura do acordo de paz.

Maria Isabel Andrade chegou a Moçambique com a missão de melhorar culturas de raízes como a batata doce e a mandioca.

Além de um país que ainda vivia as consequências da guerra, o setor agrícola enfrentava os efeitos das cheias do ano 2000, que durante cinco semanas assolaram as regiões do sul do país, causando aproximadamente 800 mortes e afetando 1400 km2 de terras aráveis, quase uma vez e meia maior que a ilha de Santiago.

As ramas de batata trazidas de fora começaram a ser distribuídas pelas regiões afetadas pelas cheias e o resultado na dieta alimentar das populações foi notável, mas era preciso fazer mais, daí, inicia o processo de pesquisa para bio fortificar a batata doce e melhorar estas raízes, que muitos tinham vergonha de mostrar, por ser o único alimento que possuem para matar a fome.

Hoje, estamos a falar de mais de 20 espécies de batata doce, curiosamente quase todas com nome de mulheres, que têm contribuído para a melhoria da dieta alimentar.

Até o trabalho ser reconhecido, e chegarem os prémios, foi necessária uma longa caminhada, que passou pela consciencialização das pessoas sobre a importância da batata doce de polpa alaranjada.

Maria Isabel Andrade, recorda que no início da investigação, nas deslocações às muitas províncias, via pessoas envergonhadas que até escondiam de quem chegava de fora, o fato de terem apenas batata doce para comer.

Por ter nascido numa família humilde, de 14 irmãos, em São Filipe, na ilha do Fogo, e com o conhecimento adquirido, sentia-se preparada para convencer centenas de pessoas a valorizar a batata doce, um alimento desprestigiado até então pelos moçambicanos do campo.

Determinada e convicta do percurso que sempre quis seguir, recorda com graça quando era aluna, no liceu Domingos Ramos, que quando apresentava a nota de 18 valores, ao irmão mais velho, Braz de Andrade, ele a desafiava, dizendo sempre que existe o 20, ou seja, era preciso esforçar-se mais e não se conformar nunca.

Isso serviu-lhe de ensinamento e acompanhou-a no seu percurso académico quando foi estudar para a Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, onde fez Bacharelato e de seguida um mestrado, com especialização em genética vegetal, que depois completou com um doutoramento em melhoria de plantas, na universidade do Estado de Norte Carolina (EUA).

A sua relação com o melhoramento de plantas começou, em 1984, em Cabo Verde, no Instituto de Investigação Agrária- INIDA, mas rapidamente catapultou os seus interesses para outras dimensões.

Com trabalhos realizados para a FAO_ Organização das Nações Unidos para Agricultura e Alimentação, passou a trabalhar para o Instituto Internacional de Agricultura Tropical, como agrónoma de batata doce para um grupo de pesquisa na África Austral. Estando na região, foi um passo para liderar a equipa que fazia a distribuição de ramas de batata doce às populações afetadas pelas cheias de 2000 e logo depois assumir a liderança do Centro Internacional de Batata de Moçambique.

Hoje partilha o seu conhecimento, com vários centros de investigação em todo o mundo.

Um dia antes da visita à sua “machamba” ela conseguiu tirar mais de um milhão de ramas da planta de batata doce para cinco distritos de Maputo. Isso representava toneladas destas raízes a ser produzidas para alimentar muitas pessoas. Na semana seguinte, iria receber jovens investigadores da Alemanha e da Suécia, para acompanhar o trabalho que tem desenvolvido.

A sua marca é a cor de laranja, em referência à batata de polpa alaranjada que desenvolveu.

Usa quase sempre trajes desta cor, e até diz que já teve de mudar de roupa, numa das vezes que foi a uma conferência de outra cor, porque ninguém a reconheceu. O carro que anda pelos campos também é alaranjado.

Maria Isabel Andrade conta estas pequenas histórias do seu percurso, para fazer uma pausa a explicação que tem dado em relação à “sua” batata, apelidada de “super-batata”.

Estamos a falar de um tipo de batata doce reforçada em muitos componentes, nomeadamente ferro que tem ajudado a combater doenças como a cegueira e mortes prematuras de crianças e grávidas e ainda resistente às mudanças climáticas e lugares propensos à seca.

Mãe de duas filhas, hoje formadas, Maria Isabel Andrade tem um enorme respeito por mulheres, como ela, que mesmo divorciadas e sem o companheiro, conseguiram singrar na carreira e acima de tudo ajudam a mudar a vida de outras mulheres de alguma forma.

Acredita que é preciso esforço individual, mas ao mesmo tempo no poder de Deus, é isso mesmo estamos perante um cientista religiosa.

O resultado que tem conseguido, ao colocar em prol do desenvolvimento e da segurança alimentar, uma batata bio fortificada, que tem feito a diferença na vida de mais de 10 milhões de pessoas à volta do mundo, é para ela uma bênção de Deus.

Mesmo depois de 27 anos de Moçambique, onde já tem raízes fincadas, pois já tem duas netas moçambicanas, aos 64 anos Maria Isabel Andrade ainda sonha em regressar para a sua terra.

Hulda Moreira

Hulda Moreira

"Ao longo das últimas duas décadas a escrita televisiva ocupou grande parte da minha vida profissional enquanto jornalista. A obrigação diária de poupar nas palavras deixou em mim a vontade de libertar no vento tudo o que guardo no peito".

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