Cuidado: Contém Política!

É assim: há um velho truque na arquitetura urbana. Quando se quer afastar as pessoas de um determinado lugar, nem sequer é preciso construir um muro. Basta tornar esse lugar inóspito. Bancos onde ninguém consegue permanecer muito tempo, praças sem sombra, iluminação tosca, percursos desconfortáveis. O espaço continua tecnicamente público, mas deixa de ser…afável.

Agora digam-me se não é exatamente isso que aconteceu com a política. Ninguém nos proibiu de participar. Simplesmente transformaram-na num lugar onde já ninguém deseja estar.

E com isto volto sempre a bater na mesma tecla— e já nem me preocupo em parecer repetitivo: as grandes crises começam quase sempre por ser crises estéticas. Antes de serem económicas, institucionais ou ideológicas ou seja o que mais for,  são crises do imaginário. É exactamente esse o trabalhinho histórico que foi feito.

Crescemos rodeados por uma narrativa que fez da política o equivalente contemporâneo do bicho-papão. Quando alguém pronuncia a evoca a palavra “política”, dificilmente a primeira imagem que nos ocorre é a algo positivo. Pelo contrário, vem-nos à mente um território que entendemos como contaminado, frequentado por oportunistas profissionais, traficantes de favores e especialistas em promessas recicláveis. A palavra “política” já não convoca imagens de construção coletiva ou responsabilidade pública. Evoca escândalos, corrupção, insultos televisivos, clientelismo e uma coleção quase infinita de desilusões.

É curioso como isso acontece.

Antes mesmo de sermos capazes de formular uma opinião sobre política, já aprendemos a sentir qualquer coisa em relação a ela. Ninguém nasce a achar que política é sinónimo de corrupção. Aprende. Aprende em casa, aprende na escola, aprende nas conversas de café, aprende nos telejornais, aprende nas redes sociais e, sobretudo, aprende através da repetição. A força de um imaginário não está em ser verdadeiro; está em ser repetido vezes suficientes até deixar de parecer uma opinião e passar a funcionar como um facto.

Dizer “não gosto de política” tornou-se uma espécie de certificado de lucidez. O imaginário coletivo foi lentamente educado para associar o exercício político a um lugar moralmente degradado, reservado a quem deseja o poder por vaidade ou conveniência. Como se manter distância da política fosse prova de maturidade e não, precisamente, o contrário. Mas lá está. política é a estética do sujo, do caos, do abjecto. Sentimos descrença. Cinismo. Repulsa. Uma certa vergonha alheia. 

Quando uma geração inteira cresce convencida de que a política é inevitavelmente corrupta, acontece aquilo que qualquer sistema agradece: as pessoas afastam-se voluntariamente.Não deixam de participar porque alguém as expulsou. Saem porque lhes ensinaram que aquele lugar nunca lhes pertenceu.

Contradições! Passamos a vida a lamentar a falta de pessoas competentes na política. Dizemos que precisamos de gente honesta, preparada, capaz de pensar para lá dos interesses imediatos. Mas basta alguém próximo de nós anunciar que pretende candidatar-se a um cargo político, somos tomados pelo espanto, como se fosse trabalhar numa lixeira radioativa — “Tu? Na política?”Como quem diz:— “Mas queres estragar a tua vida?”

Reparem no absurdo da situação. Exigimos melhores políticos enquanto desencorajamos sistematicamente qualquer pessoa que possa vir a sê-lo. É provavelmente a única profissão onde a honestidade funciona como argumento para desistir antes mesmo de começar.

É o gancho para o início do texto: muito mais eficaz do que proibir alguém de entrar é convencê-lo de que entrar não vale a pena. O melhor sistema de exclusão é aquele em que as próprias pessoas se autoexcluem. “A política não presta” dispensa-nos de uma responsabilidade incómoda: a de participar. Se tudo está inevitavelmente corrompido, então qualquer tentativa de mudança parece ingénua. O desencanto transforma-se numa desculpa elegante para o triunfo dos velhos lobos! Uma sociedade internaliza essa ideia, o sistema passa a proteger-se sozinho. 

Cá entre nós, suspeito que uma boa parte desta confusão resulta da fetichização das instâncias partidárias. Fizeram na nossa cabeça que o partido é o único lugar legítimo da política. Começámos por reduzir a política às instituições; as instituições aos partidos; os partidos aos seus líderes. Pelo caminho, esquecemo-nos de que a política nunca foi propriedade dos políticos.Nós é que lhes oferecemos esse exclusivo.

Hoje, quando um grupo de moradores se organiza para impedir a destruição de um espaço público, dizem que aquilo é cidadania.Quando artistas reivindicam melhores condições para a cultura, chamam-lhe ativismo.Quando estudantes protestam contra o aumento das propinas, dizem que é um movimento estudantil.Quando mulheres exigem igualdade salarial, dizem que é feminismo.Quando pescadores defendem o mar, chamam-lhe ambientalismo.Mudam os nomes para evitar dizer a palavra.Mas tudo isso continua a ser política.Talvez porque a palavra se tornou demasiado pesada? Nah! Isto é engenho de mestre!

Aceitamos sem dificuldade a ideia de participação comunitária, intervenção cívica, voluntariado, associativismo ou mobilização social. Soam-nos bem. Inspiram confiança. Mas basta chamar política à mesma ação e instala-se imediatamente um desconforto? Ora essa! Quando um grupo de jovens decide ocupar um espaço abandonado para criar um centro comunitário, está a fazer política! Até uma família faz política quando decide, em conjunto, como distribui responsabilidades, tempo e recursos.A política é uma relação.É a forma como organizamos a vida em comum! Dizimola!

É precisamente aqui que a democracia contemporânea revela a sua maior fragilidade. Passámos décadas obcecados com a pergunta “quem nos representa?” e esquecemo-nos de fazer outra, infinitamente mais importante: “como participamos?”. Reduzimos a democracia ao seu dispositivo representativo, como se o voto esgotasse o exercício da cidadania. A eleição passou a ser o momento mais intenso da vida política e, simultaneamente, o seu ponto final. Escolhemos representantes, delegamos responsabilidades e regressamos à condição de espectadores, aguardando passivamente pelo próximo ato eleitoral. Confundimos representação com participação, quando uma nunca deveria substituir a outra. Uma democracia que convoca os cidadãos apenas para votar produz excelentes eleitores, mas péssimos participantes. E uma sociedade composta por eleitores ocasionais dificilmente conseguirá construir uma democracia viva. 

Agora salta para a era das mídias digitais. Hoje, uma parte significativa da nossa experiência política acontece através de pequenos vídeos, frases recortadas, títulos sensacionalistas e caixas de comentários onde toda a gente fala ao mesmo tempo e, curiosamente, ninguém parece disposto a ouvir. O espaço público foi comprimido ao tamanho de um ecrã e o debate democrático passou a obedecer à lógica do algoritmo. A gramática da política foi colonizada pela gramática das redes sociais. Quanto maior o bafafá… O caos deixou de ser uma consequência para passar a ser uma linguagem. Olha só para nós: confundimos exposição com conhecimento e consumo de informação com produção de pensamento. 

Nunca se falou tanto de política. E, paradoxalmente, talvez nunca se tenha pensado tão pouco sobre ela. A política-espetáculo não precisa de convencer ninguém de coisa nenhuma; basta cansar toda a gente. Um cidadão exausto participa menos, questiona menos, organiza-se menos e exige muito menos. O cansaço coletivo tornou-se uma sofisticada tecnologia de desmobilização. E um povo desmobilizado é, invariavelmente, muito mais fácil de governar. Afinal, a política nao é so a estética do feio, é a estética da desesperança e da descrença programática! 

Ao mesmo tempo, uma lógica profundamente clubística infiltrou-se na democracia. Reparem que já nem discutimos ideias; discutimos a ponta do espeto. O debate político se reduziu a um exercício de binarismo infantil. Ou és governo. Ou és oposição. Ou és de esquerda. Ou és de direita. Ou estás connosco. Ou estás contra nós. 

O capitalismo descobriu que a indignação é um ativo extraordinariamente rentável. Quanto mais zangados estivermos uns com os outros, mais lucrativa se torna a nossa permanência diante do ecrã. É capitalismo de dados com um tempero generoso de ressentimento. Money no bolso das big techs!

É precisamente neste momento que a política deixa de ser política e passa a ser entretenimento. Ou, pior ainda, performance. Importa menos governar do que parecer governar; menos apresentar soluções do que produzir momentos virais; menos deliberar do que representar. O cidadão deixa de ocupar o centro da democracia para ser convertido em audiência. A praça pública transforma-se num palco, os políticos em protagonistas e nós em espectadores – é a era da novelítica.

A instrumentalização política como entretenimento acaba, inevitavelmente, por produzir espectadores em vez de cidadãos.Assim,  naturalizamos um modelo em que a maioria das pessoas exerce plenamente a sua cidadania apenas durante alguns minutos, diante de uma urna, para depois regressar a um longo intervalo de silêncio cívico.Tá aqui a verdadeira crise da democracia- na pobreza da nossa imaginação democrática!

Mas eu digo, voltando ao início só para terminar por hoje: a questão nunca foi se gostamos ou não de política.

A verdadeira pergunta é outra.

Quem beneficia quando uma sociedade inteira aprende a responder, quase com orgulho: “Eu não gosto de política”?

Responde para os teus botões!

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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